quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Solidão intelectual

Passaram-se exatamente um mês desde a última (e primeira) vez em que escrevi nessas folhas. Já tentei algumas (ou teriam sido várias?) vezes manter uma espécie de diário. Nunca consegui. Os motivos ainda não me estão claros, se bem que talvez tenha alguma coisa a ver com preguiça. Contudo, o principal motivo só pode ser a carga de dor envolvida em todo empreendimento de aventurar-se dentro de si mesmo, de temor e angustia ao enfrentar os próprios demônios. É doloroso. Afora isso, a vida é tão corrida, acossa-nos com tantas dificuldades e responsabilidades, que queda pouco tempo para pensarmos acerca dela. Mais vivemos o momento do que pensamos sobre o ato de viver. Isso é, evidentemente, um problema porque, tal como navegantes em alto-mar, não é possível navegar às cegas, ou, na melhor das hipóteses, não é possível chegar ao destino assim. Compreende-se imediatamente a importância de pesar os próprios atos, de aquilatar o próprio comportamento à luz dos fins que se põe, de criticar minhas/suas/nossas próprias crenças e posturas. Devo tentar, portanto, novamente. Prometo resgatar os acontecimentos do último mês. Mas, por ora, quero falar de outra coisa.

Sempre me senti solitário. Lido melhor com ela desde algum tempo – e ou eu só me apercebi disso recentemente ou de fato apenas recentemente desenvolvi essa capacidade. Falo aqui da solidão enquanto sentimento, enquanto uma sensação vaga e difusa de não pertencimento, de não ser amado e querido, de não ter ninguém com quem contar, de não ser compreendido. Não é exatamente dessa solidão que quero falar em especial aqui, embora, como toda forma de solidão, esta também seja um não pertencimento, um caminhar solitário. Solidão intelectual – existiria algo do tipo? Na maioria das vezes não me reconheço na opinião, nas elucubrações, nas teorias, de ninguém. Entre tantas ideias diferentes, que, vistas de longe, compõem um mosaico complexo do qual não se vê ordem, começo ou fim, eu tento abrir uma senda própria, definir um espaço único e só meu. Alguém me chamaria de “do contra”, outros veriam nisso um pensamento crítico, que não toma como verdade um dado senão antes avalia-lo conforme seus próprios critérios racionais; outros, ainda, chamariam essa postura de personalidade forte, destemida (que, quem a tem, compreende como é alto o risco de cair com ela na temeridade), que não segue senão aquilo em que acredita, ainda que ninguém mais acredite, podendo ser isto tão ruim quanto bom.

Diante do exposto, podem ser várias as causas dessa solidão intelectual. Pode ser causa de um simples temperamento patológico propenso ao egocentrismo, ao individualismo, à recusa de toda ideia coletiva, de tudo o que posso se confundir com “o outro”; uma busca incansável pela singularidade, por destacar-se diante da multidão. Espero sinceramente que não seja isso, conquanto é preciso aduzir a semelhante causa como meio de proteger-se a outra mesquinhez presente em todo ego: a autoindulgência. Não quero ser indulgente comigo mesmo, então preciso considerar a possibilidade de ser um maníaco egocêntrico idiota. Por outro lado, essa causa pode ser também uma necessidade interior e sincera de buscar e conhecer a verdade. A verdade é algo muito caro para mim, inobstante nem sempre, ou talvez mesmo poucas vezes, eu consiga sustenta-la, agir consoante a ela. Mas quando se trata dos fatos do mundo, da história e dos seres humanos, considerados sob uma ótica intelectual, a verdade é tudo para mim, e ela nunca deixa de estar presente como finalidade posta. Ou seja, acima de tudo, quero a verdade, doa a quem doer. Quando eu sou “do contra”, quando procura uma posição singular, equilibrada entre tantas outras posições não tão singulares assim, o que eu almejo é a verdade. É claro que nada pode ser absolutamente singular, tanto mais porque a singularidade pressupõe categorias universais e particulares. O singular não repousa no vácuo. A questão é que eu não adoto nenhuma ideia, nenhum postulado, nenhuma posição de terceiros, sem antes analisa-la segundo meus próprios critérios racionais, sempre tendo por norte a busca pela verdade. Posso equivocar-me amiúde com esses critérios e essa postura? Evidentemente que sim.

A solidão é consequência disso. Quase sempre me vejo em desacordo com todo o mundo, embora em certa medida e de certa forma eu esteja-lhes de acordo, isto é, em partes. É de cada um e de todos ao mesmo tempo que eu tiro minha própria síntese. Cada um tem algo pertinente a dizer, e todos juntos se aproximam mais da verdade do que cada um em separado jamais poderá. É por isso que é preciso considerar todas as vozes. Se de um lado isso me coloca em acordo com cada uma delas em particular, por outro me põe em rota de colisão com todas elas em geral. Donde não ser nem de esquerda, nem de direita, nem revolucionário nem liberal, nem marxista nem pós-modernista. Ninguém está comigo, se bem que eu esteja (ou queria estar) com todos. Não há outro jeito a não ser lidar com isso, com as consequências dessa postura, especialmente no que toca à solidão intelectual. Não ser bem-vindo, nem completamente malquisto; ser maldito, eis o anátema que tem de carregar pessoas como eu.
Postar um comentário