sexta-feira, 9 de agosto de 2013

O silêncio nosso de cada dia

Quebrar o silêncio que nos rodeia é difícil. Experimente chegar a um ponto de ônibus e dizer bom dia aos desconhecidos que nele encontrar. A reação alheia será, no mínimo, de surpresa. Alguns não responderão nada, outros dirão um bom dia mecânico, quando não de má vontade. E isso vale para outros lugares e outras abordagens: tente puxar papo na fila do banco, com transeuntes na rua, etc. Parece que as pessoas se sentem quase agredidas, violentadas, como se a tentativa de comunicação houvesse invadido, inadvertidamente, um espaço privado inviolável. Isso não vale para todo o mundo, nem para todo lugar, evidentemente. Existem espaços previamente definidos como de “socialização” (bares, por exemplo). Além disso, cada pessoa está inserida numa rede mais ou menos ampla de relações interpessoais (por exemplo, colegas de trabalho, vizinhos), em cujo seio a liberdade para romper o silêncio é mais ou menos consentida aos que nela (na rede) estão integrados. Fora desses espaços, existe um abismo entre as pessoas, entre estranhos e conhecidos. É neste abismo onde vige o silêncio. 

Primeiro, o que entendemos por silêncio? Com efeito, é difícil falar em silêncio quando este é um artigo cada vez mais raro nas médias e grandes cidades. A maioria das pessoas hoje desconhece o que vem a ser silêncio, imersas como estão numa barafunda estrepitosa, frenética, de motores, sirenes, buzinas, aviões, trens, helicópteros, etc. Não à toa, ao avanço da urbanização contrapõe-se o desejo, aparentemente bucólico, de buscar a natureza, os espaços não urbanos, como uma forma de, entre outras coisas, fugir da balburdia vertiginosa das cidades. À natureza associa-se o silêncio, a paz. Existe uma ruptura profunda, na cabeça das pessoas, entre cidade e campo. 

Mas não é a esse silêncio que me refiro aqui. Observe-se que a fonte do barulho citadino é mecânica, embora não menos humana uma vez que a máquina é, por óbvio, criação humana e elemento de um mundo humano, transformado pela mão humana. Acontece, entretanto, que as máquinas aparentemente se sobrepuseram sobre seus próprios criadores, ocupando espaços cada vez maiores na vida destes, ditando-lhes um modo exterior de viver, dominando-os com suas próprias necessidades. Aparentemente, parece que a criatura dominou o criador. É impossível imaginar um mundo sem máquinas. Tal como o senhor hegeliano, nós dominamos as máquinas, nossos servos sem alma, empregamo-las em função de nossos fins, mas, ao mesmo tempo, elas nos dominam porque não podemos mais viver sem elas; são elas que moldam nosso mundo e determinam nossas vidas tal como a conhecemos.

Um bom modo de pensar este problema complexo é olhar para as cidades. Em princípio, não existe espaço mais fundamentalmente humano do que a cidade, um agrupamento social altamente complexo, especializado, cooperativo, organizado; a cidade representa o ato especificamente humano de emancipação da natureza. Todavia, as cidades nos foram roubadas pelas máquinas, e não mais nos pertencem. Isso significa que a lógica e os processos que criam e recriam as cidades visam satisfazer necessidades não propriamente humanas, senão de forma mediada; isto é: pensamos as cidades segundo interesses e necessidades mercadológicos, industriais, monetários, etc., para que estas coisas, por sua vez, satisfaçam nossos interesses e necessidades (comer, habitar, vestir, conhecer, criar, festejar, etc.). Quanto a essa questão, o automóvel é emblematicamente ilustrativo. Afinal, o modo como organizamos e expandimos as cidades está profundamente determinado pela lógica automotiva do transporte individual-particular. São os carros os verdadeiros donos da rua, e não os pedestres. A diferença de poder, de prioridade, de espaço ocupado, etc., entre eles é evidente.

Portanto, quando chamo aqui a nossa atenção para o silêncio, ponho em evidência um paradoxo: embora estejamos cercados cada vez mais por uma barulheira infernal, levanta-se entre nós, em proporção idêntica, um muro de silêncio denso e isolante. Tal paradoxo se resolve no seguinte: o barulho que nos cerca não é produto imediatamente humano, e sim das máquinas, das coisas que criamos, ao passo que o silêncio que nos cerca é, ao contrário, um silêncio propriamente humano. Estamos cada vez mais calados, enquanto as máquinas cada vez mais eloquentes.

Para que isso fique mais claro é preciso atentar para outro paradoxo: o fato de vivermos na era da comunicação. Esta era é fruto de uma revolução no campo das tecnologias da informação, entre cujas consequências estão o estreitamento das distâncias, a interligação de todo o globo em tempo real, o barateamento e a consequente popularização das tecnologias de comunicação/informação, a possibilidade de seus usuários tornarem-se produtores de conteúdos e não somente receptores passivos, etc. Contudo, apesar das inúmeras potencialidades revolucionárias inauguradas nesta era, em relação ao que nos interessa aqui coloca-se a questão do isolamento que essas tecnologias também favorecem. Trata-se de um paradoxo: ao mesmo tempo que podemos nos comunicar em tempo real com qualquer pessoa no mundo, na vida cotidiana onde as pessoas agem concretamente entre si a comunicação direta se vê relegada a segundo plano. Ou seja: estamos sempre nos comunicando, cada vez mais rapidamente, cada vez mais volumosamente. Na maioria das vezes, todavia, essa comunicação dá-se por meios virtuais e não reais. Não é difícil perceber isso. Nos metrôs e ônibus, nas salas de espera, nas ruas, todos estão vidrados na tela do celular. Esse é, portanto, um fator poderoso de potencialização e propagação do silêncio.

O problema do silêncio e da incomunicabilidade – problema que assume a forma de um paradoxo, na medida em que o barulho e a comunicabilidade não foram tão potencializados – é extremamente complexo e se relaciona com vários outros problemas da sociedade contemporânea sob um ponto de vista global. O que eu procurei fazer aqui é simplesmente levantar o problema e sublinhar o fato de que o paradoxo sob o qual ele se mascara impede de vê-lo como silêncio e como incomunicabilidade. Termino afirmando a necessidade de nos colocarmos, de alguma maneira, contra esse processo desumanizador e alienante.
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