quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Mais sobre o Mais Médicos

A gente precisa parar de confundir os problemas, além de misturá-los a determinadas posições ideológicas e/ou interesses políticos que só nos fazem ver parte deles e não o todo.

Quando a esquerda socialista faz sua contumaz denúncia do governo, neste caso ensejada pelo programa Mais Médico, joga luz sobre quais seriam as reais motivações desse governo com tal programa, uma vez que se trata do mesmo governo que não questiona os alicerces fundamentais que sustentam a precária situação da saúde pública tal qual está (a falta de investimento material e humano e a política privatista), mas que, milagrosamente, depois das jornadas de junho, resolveu sanar os déficits em saúde pública com panaceias miraculosas, como se alguns milhares de médicos cubanos pudessem salvar todo o mundo.

Quanto aos setores que apoiam o governo e acusam a mídia e as organizações médicas de travar uma campanha corporativista e difamatória, joga luz, por sua vez, sobre os atavismos culturais de uma classe média virulentamente elitista, preconceituosa e apegada aos seus privilégios sociais.

Vejo méritos em ambos argumentos, os quais têm, de resto, em mira alvos diferentes, e nem por isso eu me coloco contra ou a favor do governo. Neste momento, me indigna mais a atitude dos setores contrários à medida, e sua cruzada inescrupulosa e imoral, do que a esperteza política do governo petista. É preciso denuncia-la, assim como é preciso mostrar a verdadeira face protofascista das pequenas e médias elites.

Quanto ao programa Mais Médico, considerando-o em si, isto é, à parte das demais questões pertinentes à saúde pública e dos interesses políticos governistas, eu acho-o muito válido, sobretudo porque de pronto, e com poucos gastos, provavelmente dará excelentes resultados. Isso quer dizer que eu acredite na jogada do governo? Não. Mas também não significa que eu descarte ela.

A gente devia parar um pouco de discutir entre nós para ouvir os camaradas recém-chegados. Enquanto a direita chama-os de escravos, e a esquerda acusa o governo brasileiro e cubano de lucrar – o primeiro politicamente e o segundo economicamente – com seu trabalho precário, os médicos dizem que não vieram aqui para ganhar dinheiro, mas por solidariedade, por amor à medicina e aos pobres.

Enquanto todos nós ficamos especulando o que é essencial ou não para o funcionamento satisfatório do sistema público de saúde – se é ter máquinas ou médicos –, os médicos cubanos nos dão uma pista: segundo eles, o trabalho que vieram realizar aqui não depende de grandes investimentos e equipamentos sofisticados. Isso nos exime de investir em infraestrutura e recursos? Obviamente não, mas também não impede a vinda dos médicos cubanos, muito pelo contrário.

Que fiquem para sempre! Talvez com eles a gente aprenda um pouco do que importa realmente ou acima de tudo: não é política, e muito menos é dinheiro; é agir solidária e abnegadamente em prol de um coletivo a partir de valores humanistas que nascem de dentro e não se impõem de fora.
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