quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Fascismo e metodologia de estudo

Tal como De Felice, acredito que o problema mais grave na extensa bibliografia acerca do fascismo é sua unilateralidade, sua parcialidade. Ao mesmo tempo que essa é a sua fraqueza, porquanto limita-se a determinas aspectos do fenômeno e, destarte, não consegue ter dele uma visão de conjunto, é também sua força. É sua força porque permite que compreendamos a magnitude da complexidade do fascismo. Com efeito, pode-se analisa-lo segundo variegadas óticas e com variados objetivos, desde psicossociais, passando por históricos e culturais, até econômicos e políticos. A princípio, nenhum deles é verdadeiro em si, embora cada um deles forneça uma chave específica e necessária ao desvelo do todo. É preciso, então, fazer a síntese dessa vasta bibliografia. Creio que tal empresa ainda está por ser feita. Por ora, apontemos apenas uma questão: o conceito de luta de classes é importantíssimo e, sem o qual, não se compreende a gênese nem a natureza do fascismo. Mas, por si só, ele não basta. Para que surgisse o fascismo foi necessária a confluência de uma ampla gama de fatores variegados. Até mesmo a questão do conflito social não se reduz às categorias totalizantes de classe, porque envolve também, além do conflito entre burguesia e proletariado, uma série de fraturas, tensões e conflitos sociais entre categorias menos amplas mas nem por isso menos importantes, como é o caso do ressentimento contra os intervencionistas que respingava sobre os ex-combatentes. Havia, portanto, tensões e conflitos mais ou menos abertos entre vários e diversos grupos sociais, e não somente entre classes. De resto, na esteira do que se propõe metodologicamente aqui, não somente interesses econômicos estavam colocados como condição da ascensão do movimento fascista. Fatores de ordem política (e.g., a fragilidade das instituições republicanas e o crescente desapreço pelos liberais), psicossocial (como ressentimentos de toda espécie decorrentes de uma grave crise moral), etc.; tudo isso influenciou e concorreu para o resultado final. A Primeira Guerra foi o cadinho onde fundiram-se esses vários ingredientes, o que equivale a dizer que antes dela, e antes da crise que ela desencadeou, já se apresentavam algumas das mais fundamentais condições para o surgimento e empoderamento do fascismo. É difícil dizer, mas sem a guerra provavelmente não teria havido fascismo.
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