domingo, 25 de agosto de 2013

Bem-vindos médicos cubanos!

Esse país me envergonha. Somente no Brasil uma força tarefa praticamente humanitária seria escrachada, vilipendiada e posta sob suspeitas como tem sido com os médicos cubanos. São embaraçosas as declarações absurdas das entidades da classe médica, algumas delas, na melhor das hipóteses, antiéticas e, na pior, criminosas, como a que pede que os médicos nacionais não atendam eventuais casos de erro cometidos pelos estrangeiros. 

Nossos médicos, que pedem a comprovação da qualificação profissional daqueles, estão se achando muita bosta, e parecem esquecer que a medicina em Cuba é uma das mais avançadas do mundo – não tanto porque se apoiam em tecnologias e conhecimento modernos, mas antes de tudo porque se orientam segundo outros princípios. Entre esses princípios está a ideia de que medicina é um direito social e, como tal, um serviço público de inestimável importância a fim de que exista justiça social, de modo que as doenças devem ser combatidas com ações preventivas, comunitárias, e não com remédios, internações e cirurgias. O avanço das ciências médicas talvez esteja entre as maiores revoluções do século XX, mas esta revolução de nada adianta se serve apenas para alimentar uma indústria, uma indústria que necessidade de doenças para lucrar e que, portanto, não se interessa em combater suas causas mas tão-somente seus efeitos. 

No momento em que os médicos nacionais abriram a polêmica com o programa do governo federal – um programa que, diga-se de passagem, é limitado, imediato e pontual –, chamando a atenção para a falta de investimento e condições dignas de trabalho, acrescentaram positivamente à compreensão do problema, embora eu não consiga perceber a relação entre falta de condições de trabalho e a não vinda de médicos estrangeiros – isto é, embora seja fato que o problema não é apenas a falta de médicos, mas também o insuficiente investimento público no setor, não me parece que tal constatação impeça a contratação de médicos estrangeiros enquanto medida provisória para aumentar a oferta de serviços médicos no país, oferta que, como sabemos, é bastante desigual geográfica e socialmente. 

Mas a questão é muito mais profunda e complexa do que simplesmente a vinda ou não de médicos estrangeiros, ou a falta de investimento/prioridade estatal. A questão é também cultural. Tem muito a ver com o modo de fazer medicina por aqui. Tem muito a ver, também, com a imagem da profissão médica no Brasil, seu monopólio pelas classes médias, a posição social que ela garante a um estrato dessas classes médias. Ser médico, no Brasil, nada tem a ver com atuar numa área sensível de sustentação dos direitos sociais; antes, ser médico aqui é: lograr boa renda, e usufruir de um prestígio social alto. 

A questão, portanto, é o significado cultural do qual as profissões médicas se revestem no Brasil, o que é ensinado para esses profissionais ao longo da sua formação, os motivos que levam determinadas pessoas a se formarem em medicina. E isso foi comprovado pela própria categoria médica, que se traiu com as próprias armas que usou a fim de evitar a contratação de médicos estrangeiros. Ela conseguiu com que o governo recuasse e alterasse os critérios do programa, dando prioridade aos médicos nacionais. Quinze mil vagas foram abertas, mas as inscrições atingiram apenas 10% delas, e, se não me falha a memória, das mil e quinhentas inscrições, um terço dos médicos inscritos atuavam no exterior. Diante desse “fracasso”, o governo avançou na contratação de médicos cubanos. 

Isso deveria ter sido o suficiente para calar os detratores do programa, mas ao invés disso fez com que as entidades de classe do setor recrudescessem os ataques, até beiras as raias do absurdo, como pregar a omissão. Resta-nos especular sobre os motivos mais profundos dessa postura. Ora, faltam médicos, deu-se a chance aos brasileiros preencher as vagas demandadas, eles não se interessaram, então que venham os cubanos. Não era para ser simples assim? Porque essa atitude absurdamente corporativista das associações e conselhos médicos então? 

O mais fundo motivo que eu consigo entrever é duplamente econômico e social: a medicina é monopólio das classes médias e uma grande fonte de renda e prestígio social. A vinda de mais médicos não só é uma ameaça porque aumenta a concorrência, mas também contrapõe outra forma de fazer medicina a que se faz tipicamente por aqui. Como mostra o perfil dos recém-chegados, todos eles já participaram de missões humanitárias em outros países (e, sim, todos eles são bastante qualificados). Ora, os profissionais de medicina no Brasil, que sonham com sua própria clínica, branca, asséptica, tranquila, onde não haja pobres agonizando nos corredores, nunca sequer jamais pensariam em atuar no Haiti, por exemplo. Não é para isso que eles se formaram como médicos. Não era esse o motivo: praticar a solidariedade, como disse um dos médicos recém-chegados. No Brasil, quem cursa medicina é quem tem condições para tanto, ou seja, é a classe média, que pode educar seus filhos em escolas particulares, os quais não precisam trabalhar nem antes nem depois da escola. Quando eles se formam, após usufruir de um serviço público, vão ganhar dinheiro, e pronto. 

A coletiva de imprensa com os médicos cubanos recém-chegados é também muito elucidativa no que tange à mentalidade dominante no Brasil. As perguntas giram em torno de práticas e motivações que são tipicamente de mercado, além das acusações gratuitas de uma imprensa que se coloca a favor dos queixumes dos médicos nacionais: se fosse sincera, a pergunta não seria “qual a motivação de vir pra cá?”, e sim “já que vocês não vão ganhar dinheiro, qual o motivo?”. “Solidariedade”, foi a resposta. 

Mas e quanto ao trabalho escravo? Que trabalho escravo, pelo amor de Deus!? Essa acusação ridícula e sem fundamento é a expressão máxima de como Adam Smith reina por aqui: toda atividade pessoal, sobretudo profissional, tem que necessariamente de estar voltada para a satisfação de interesses pessoais, e motivada por egoísmos individualistas. Trabalhar para ganhar pouco ou mesmo ganhar nada, ainda que quem lucre seja a coletividade, é algo completamente incompreensível para as cabeças educadas na religião liberal, e é logo traduzido como “trabalho escravo”. A mesma acusação estúpida foi lançada contra o coletivo Fora do Eixo. Toda vez que os cânones do livre mercado e da livre iniciativa privada forem colocados em xeque a mídia burguesa estará lá para os defender. 

Minha sugestão: mandar os médicos nacionais para o estrangeiro e ficar só com os cubanos. Como não é possível, espero que aqueles parem de falar merda por um minuto e aprendam um pouco com estes.
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