quarta-feira, 24 de julho de 2013

Você já ouviu falar em flash mob?

Descobri um conceito novo: flash mob. Para quem não sabe, flash mob – que, numa tradução livre, quer dizer “reunião instantânea”, “multidão instantânea” – é um conceito que designa uma espécie de intervenção artística feita diretamente no tecido social. De forma inusitada, sem aviso, porém previamente combinada, os artistas-interventores surgem ex nihilo para conduzir alguma performance qualquer, que pode ir desde danças coletivas até guerras de travesseiros – intervenção que está, obviamente, em contraste e em desacordo com as circunstâncias e o ambiente em que acontece. O conceito é, pois, genial, subversivo em suas próprias raízes.

Não apenas genial, mas sobretudo revolucionário. Flash mob é a melhor expressão para dizer que a arte é vida, e a vida é arte. Arte não é aquilo que se faz a portas fechadas e aos olhos de quem tem como pagar, espectadores que, curiosamente, não se mete a sujar as mãos com ela, mas tão-somente testemunhá-las. Nesta concepção de arte, é nítida a separação do que não se separa (do que não deveria se separar): separação entre artista e público, entre profissional e leigo; separação entre arte e vida, ambas não se misturando. Durante muito tempo a arte só foi considerada arte quando feita em espaços previamente delimitados, segundo cânones previamente estabelecidos. Quem determinava o que era ou não arte era, portanto, quem detinha tais espaços e quem definia tais cânones – e como toda posse resulta em poder, quem “possuía” a arte, por assim dizer, tendia a reproduzir sua posse. A busca pela ruptura desse academicismo é já antiga. Mas até hoje nos debatemos com ao menos duas valorizações da arte: de um lado, a arte por excelência, que passa pelo crivo dos espaços e cânones oficiais, cada vez mais submetidos à lógica do mercado, e, de outro, a arte marginal, feita à revelia desses espaços e cânones – feita para confrontá-los, na verdade, para romper-lhes os limites. 

A arte “marginal”, ou como quiser chama-la, não espera e não busca a sanção oficial. Ela busca novos espaços, novos conteúdos, novas formas e lógicas. Neste sentido, ela é livre, seja do dinheiro seja da injunção da fama, embora tanto o dinheiro quanto a fama, prêmios que a arte oficial dá para quem se submete a ela (aliás, dois elementos que a arte marginal despreza: ela é anônima, ou coletiva, e ela é pública, gratuita), procurem estender seus tentáculos sobre o terreno livre da arte marginal. Sob uma perspectiva histórica, talvez vivamos hoje no limiar de um dos momentos mais importantes para a arte. E devemos tudo ao grafite e ao teatro de rua, artes que resgataram a pintura das galerias e a dramatização dos teatros, para presenteá-las às pessoas comuns, no âmbito de suas vidas comuns. Devemos também aos inconformados da contracultura que lutaram contra a privatização e a mercantilização da vida. E, lest but not least, devemos ao refugo humano e social da sociedade capitalista, que se, por um lado, impediu a entrada de uma enorme parcela dos seres humanos no seu círculo privilegiado de consumo, entre cujas mercadorias figura a arte, jamais seria capaz de roubar dessas pessoas a humanidade e, portanto, a capacidade de produzir beleza. Quase tudo o que de mais bonito foi feito vem, justamente, das classes mais baixas, e isso não é, de modo algum, coincidência.

Mas voltemos a falar do flash mob. O simples fato de quebrar a monotonia do dia-a-dia, onde nada de extraordinário acontece, já é por si só revolucionário. Eu, por exemplo, não saberia o que pensar se, por um minuto, a minha aborrecedora vida de repente se transformasse num musical da Disney. E refiro-me a mim mesmo justamente porque a melhor palavra para definir esse conceito é o anonimato, tanto do espectador quanto do artista: pessoas anônimas, como você e eu, aparentemente também imersas na miséria de suas vidas, de repente se transformam em mágicos bailarinos. Quando a magia acaba, lá se vão eles embora, anonimamente, tão rapidamente quanto vieram. Terminado o número, vão-se embora e a vida retona ao seu fluxo normal. E fica-se com a impressão de se aquilo tudo realmente aconteceu. Mas alguma coisa aconteceu. Alguma coisa fica para contar a história. É um choque. Se a sorte me desse a oportunidade de presenciar um flash mob, eu ficaria pensando nisto pelo resto do dia. Depois disso, de um minuto de fantasia, como aguentar um dia inteira de obrigações, protocolos, injunções? Acho que eu sairia dançando pelo meu trabalho, entre as máquinas e escrivaninhas, tal como Bjork em Dançando no Escuro.

Flash mob é como um daqueles eventos da natureza que só acontecem de tantos em tantos mil anos, e que é preciso se estar no lugar certo e na hora certa para presenciar. Haja sorte. E o nosso senso do que é ou não importante foi tão pervertido que ficamos a nos perguntar se vale a pena tanto esforço empregado na produção de um espetáculo para que apenas um punhado de transeuntes dispersos presencie-o. Entretanto, quem planeja e executa um flash mob não liga para números. O que importa é o impacto. O que importa é o conceito. Um seu bom resultado se exprime não no número de espectadores diretamente alcançados, mas no modo e na qualidade com que atinge estes espectadores. E, de qualquer modo, se a questão for número, multipliquemos flash mob por aí! Multipliquemos as intervenções artísticas na vida cotidiana!

Este potencial revolucionário não se restringe ao flash mob, evidentemente. Emprego-o aqui como um exemplo, mas toda arte intervencionista, ou seja, que usa os mesmos meios e conceitos do flash mob, é uma arte revolucionária por natureza. A mensagem que ela passa é simples, clara, direta: “pare (com o que você faz mecanicamente todo dia), pense (sobre o que você não pensa todo dia), aja (diferentemente de como você age todo dia)”. A intenção aqui é a mesma que buscava Brecht com seu teatro épico: o estranhamento com o que é normal para, a partir deste estranhamento necessário, romper com a normalidade, uma vez que a normalidade é opressora, exploratória, injusta, e, como tal, inaceitável. Trata-se de técnica de desalienar as pessoas. Hoje em dia não faltam exemplos dessa arte, e arriscaria dizer que ela é o futuro da arte. As mensagens estão por todo lado, mesmo que em pequenos pedaços grosseiros de papel ou em garranchos feitos às pressas no muro. Além disso, todo festival de arte que se prese hoje exibe parte da programação na rua ou, ao menos, em locais públicos. 

E isto nos leva a uma última questão, cuja centralidade é inquestionável, que gêneros artísticos como o flash mob colocam: a cidade. Eles nos fazem repensar o papel e a natureza da cidade, do espaço urbano, das formas de convivência dentro dele. A cidade, tal como a conhecemos hoje em dia, se transformou num lugar feito à imagem e semelhança da economia; ainda mais: se tornou a célula vital da economia. E como hoje a economia dá as cartas como nunca dera anteriormente, a cidade só pode ser pensada como uma grande mercadoria, ou uma grande fábrica. É pensada e organizada para viabilizar produtos, dinheiro, trabalho. As cidades não são das pessoas. O que as artes intervencionistas fazem é por em questão essa lógica. Se a cidade é uma máquina, façamos dela um palco; se é cinza e monocromática, pintemo-la de cores vibrantes; se é barulhenta e cacofônica, façamos dela melodias e canções. Como dizem os pichadores: a cidade é um branco que a gente vai preenchendo com palavras.
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