terça-feira, 30 de julho de 2013

Contra a ideologia da perfeição: pelo direito ao corpo imperfeito

Somos todos nós, sem exceção, feitos de um amontoado de pequenas imperfeições. O curioso é que, paradoxalmente, o produto final, em alguns casos, pode ser muito bem confundido com a perfeição. Mas se você reparar bem, uma Gisele Bündchem da vida, terá não uma, nem duas, mas talvez várias imperfeições. Quem sabe tenha estrias na bunda, chulé, seborreia ou, quiçá, hemorroida. E isso para ficar apenas nas imperfeições físicas, sem mencionar aquelas que dizem respeito ao caráter, à personalidade, aos valores, etc. O fato é que ninguém é perfeito, nem física nem espiritualmente.

Por isso mesmo é estranho que chamemos as nossas imperfeições justamente de imperfeições, como se o padrão fosse ser perfeito e que o desvio da norma é que é imperfeito. Muito pelo contrário, somos seres imperfeitos cujo desvio é precisamente o aparecimento de algum eventual detalhe perfeito – se bem que, aqui ainda, a palavra perfeito é muito forte para ser aplicada à realidade humana. Isso não é um simples vício de linguagem para o qual não nos atentamos; antes, é uma expressão, bastante matizada, da nossa concepção sobre o mundo e sobre nós mesmos.

A busca pela perfeição, e a crença que tal busca é factível, remonta ao menos ao movimento iluminista, com sua fé na razão e na ciência, e com a sua refutação da ideia de que os homens são inferiores ao seu criador e que, portanto, não teriam como atributo a perfectibilidade divina. Ainda hoje continuamos crentes na oposição a essa ideia, e, baseados nos avanços da ciência e da tecnologia, acreditamos, ainda que tacitamente, que alcançar a perfeição humana é questão de tempo.

No que se refere à perfeição física, e não necessariamente em seu aspecto saudável mas, sobretudo, estético, a grande mídia, a indústria cultural, Hollywood, exercem fundamental influência na manutenção da ideologia da perfeição e, especificamente, no culto ao corpo perfeito. Seus modelos humanos tornam-se fetiches, embora não existam na realidade mas tão-somente nas telas e, especialmente, nas nossas cabeças, idealizados. Um modo de aferir esse fenômeno é observar o boom nos mercados de cosméticos, de produtos para emagrecimento, de academias e de cirurgias plásticas. Uma vez que a disjunção entre corpo ideal e corpo real não pode ser superada objetivamente porque o ideal simplesmente não existe, as consequências nefastas dessa ideologia e desse culto são óbvias e se expressam na obsessão patológica com o corpo e com a beleza, e em problemas psicológicos tais como transtornos de todo tipo.

Eu já passei por isso, e ainda passo. Como praticamente todos nós, eu também sou obsessivamente apegado à minha imagem e ao meu corpo. A diferença em relação à maioria é que eu simplesmente tenho consciência dessa obsessão, primeiro passo para a libertação. Contudo, na medida em que a libertação total é social e não individual, provavelmente eu, assim como a maioria de nós, morrerei sem ter superado totalmente essa ideologia. Mas espero que nossos filhos e netos não tenham que passar pelos traumas e sofrimentos desnecessários pelos quais passamos.

Eu conheço bem os dois lados da moeda – o de ser feio e o de ser belo; o de ser indesejado e o de ser desejado sensualmente –, e nenhum deles me parece bom. Até os 18 anos eu era magro de dar pena. Para se ter uma ideia, a primeira vez que botei os pés numa academia tinha 14 anos, porque eu não podia suportar a visão do meu corpo desde essa época – um menino! Tomei anabolizante também, e não foi com finalidades desportivas. Por sorte, ou por falta de dinheiro, tomei pouco, apenas algumas vezes, e isso me salvou do destino cada vez mais comum entre muitos jovens de hoje, isto é, destruir a saúde para ter um corpo belo. Não me arrependo, na verdade. Mas as coisas poderiam ter saído errado... A pergunta que eu coloco em relação a essa minha experiência, e que vale para muitas outras pessoas, é: até que ponto eu era feio fisicamente, e até que ponto eu me achava feio fisicamente, tornando-me, com isto, de fato feio? Se eu não tivesse sido traumatizado em relação ao meu corpo teria sido mais bonito? Creio que a resposta é sim.

Então, para nos ajudar a romper com essa ideologia da perfeição e com os traumas que ela suscita, proponho uma brincadeira. Que tal ironizarmos as nossas próprias imperfeições físicas? A ironia consiste na forma mais perspicaz que a linguagem possui para se fazer autocrítica. Trata-se, pois, de um bom remédio contra fetiches e preconceitos. Eu começo: por ter começado a fazer musculação cedo (ou assim eu suponho), meu corpo é torto de tal sorte que meu braço esquerdo é menor do que o direito; tenho aquilo que se chama de “estômago alto” e provavelmente vá ficar barrigudo quando mais velho; detesto a minhas mãos por serem demasiado pequenas, e meus pés por serem finos e ossudos; minhas costas têm tantas e tão fundas estrias que parece que eu fui seviciado num calabouço da Inquisição; meu nariz é estranho e tem uma bolota na ponta; peido fedido o dia todo, e meu ouvido produz cera em demasia. Que tal? Não dói, não. Tenta aí.
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