segunda-feira, 29 de julho de 2013

A universidade é injusta, antidemocrática e excludente

A universidade é uma instituição fundamentalmente injusta, antidemocrática e excludente. E digo fundamentalmente – ao invés de dizer eventualmente – porque, por um estranho paradoxo, embora se pretenda o último bastião da civilização e do pensamento racional, seus espaços estão estruturados de forma desigual e excludente. Pode ser que isto não faça dela uma instituição fundamentalmente desigual e excludente; ou seja: pode ser que baste engajamento político e mobilização de toda a comunidade universitária para alterar essa situação. Conduto, passa ano, entra ano, nada muda.

Para se ter uma ideia de como a universidade é antidemocrática, basta considerar a distribuição desigual de participação eleitoral das diversas categorias de sua comunidade, onde o poder esmagador encontra-se nas mãos dos professores em detrimento dos discentes e funcionários. Outro exemplo: a eleição para reitor ainda está submetida à interferência externa do governador do Estado, que pode escolher livremente entre os três candidatos mais votados. Uma herança da ditadura. E isto não decorre apenas de um Estado centralizador que invade e não respeita o princípio de autonomia da universidade. A comunidade universitária tem parte na culpa, e ela não muda a situação porque não quer, porque não vê motivos.

Como e porque a comunidade acadêmica ainda não se libertou de amarras tão ditatoriais? Ora, simplesmente porque a comunidade acadêmica é conservadora por natureza. E isto se relaciona com a composição social desta comunidade. Aqui entra outro paradoxo: embora a camada mais instruída da população seja estatisticamente mais aberta a novas ideias, e a pautas progressistas como legalização do aborto e do casamento gay, por exemplo, a comunidade universitária, habitada justamente pela camada mais instruída da população, é extremamente conservadora, à exceção de alguns minoritários setores de esquerda, quando se trata de seus próprios interesses particulares.

Socialmente, quem pertence a essa comunidade acadêmica? A classe média (a classe média de verdade, tanto em termos de renda quanto de lugar ocupado na produção social), que cultiva valores que – hoje, vistos à luz de uma sociedade estruturalmente desigual e cuja estrutura, sabemos, reproduz ad eternum a si própria – podemos classificar como conservadores: meritocracia, individualismo, Estado mínimo, etc. Em partes, é por isso que essa comunidade, que se crê guardiã dos valores mais caros da humanidade (ciência, ética, racionalismo, etc.), se opõe a políticas mais efetivas que visem a redução da desigualdade que vige em seu próprio meio. 

Tal desigualdade não pode, todavia, ser eliminada completamente no interior de uma sociedade desigual; daí que é impossível igualar as a composição social da universidade em relação à composição social da sociedade: ou seja, não é possível, dentro de uma sociedade desigual e injusta, colocar tantos pobres na universidade quantos existam na sociedade, proporcionalmente. Assim, não sendo a universidade uma ilha de justiça rodeada por um oceano de misérias, a composição social do meio acadêmico espelha fielmente a estrutura desigual da sociedade na qual se inscreve, só que ao contrário. Se você não acredita em mim, vá até uma para comprovar com seus próprios olhos. Você não vai ver negros, índios, pobres, migrantes, senão uma pequena minoria que contrasta gritantemente com a grande maioria, composta – e isto é evidente – pelos filhos da classe média branca. Repare nos funcionários: eles sim são, explicitamente de classes mais baixas, e a diferença de tom de pele é, igualmente, manifesta. Quem nega essa verdade evidente é cego, hipócrita ou ignorante, ou todas as alternativas ao mesmo tempo.

Daí a necessidade das cotas, das políticas de afirmação inclusiva; mas não apenas: sem incentivo à permanência com moradia, alimentação, bolsas, e sem verbas, a fim de financiar tudo isso, o padrão de desigualdade e exclusão continua se reproduzindo. Apenas facilitando-se o acesso (e note-se que tal facilitação está ainda longe do ideal) sem dar condições para que o aluno pobre, negro, migrante, etc., permaneça na universidade após ingressar nela, ainda continuamos presos à lógica da responsabilização individual: ou seja, cabe ao estudante, tanto pobre quanto rico, manter-se na universidade. Ora, a injustiça de semelhante lógica é evidente, mas a maioria da comunidade acadêmica, composta pela classe média, impregnada como está de meritocracia, não a compreende, e tem dificuldade de engolir tais políticas. 

As medidas de ampliação (dizer universalização seria muita bondade) do acesso à universidade, postas em prática na era petista, impactaram positivamente em alguma medida nesse quadro. Entretanto, não apenas tais medidas são tímidas e superficiais, na medida em que não tocam em problemas essenciais – tais como a garantia da permanência e a privatização do ensino –, como também, e por força disto, já mostram claramente sinais de esgotamento. Ou seja, seus limites são enormes, e dificilmente resultariam numa mudança substancial a médio prazo, quem dirá a longo prazo.

Em resumo, o argumento aqui é que a universidade não pode ser uma instituição justa e democrática no interior de uma sociedade injusta e antidemocrática. Uma das causas disso é que quem justamente compõe a maioria da comunidade acadêmica pertence a classes que, senão diretamente interessadas em manter a sociedade tal como está, ao menos estão imbuídas de valores e ideias que são fundamentais para a manutenção dessa sociedade tal qual está. E isso fica grotescamente evidente na arrogância com que os acadêmicos se arrogam guardiães da razão, ao passo que não são capazes de perceber a exclusão, injustiça e desigualdade que lhes esfrega a cara em seu próprio meio. De resto, todo mundo na academia busca sucesso e realização pessoal, e ninguém quer dar coisa alguma à sociedade – devolver então, para eles, seria um escândalo (devolver o que se tudo o que eu conquistei, inclusive a vaga na universidade, foi por mérito pessoal?), esquecendo-se como são desiguais as oportunidades e o ponto de partida entre ricos e pobres, brancos e negros, etc.
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