quinta-feira, 20 de junho de 2013

Sobre vandalismo

Duas são as grandes questões que as recentes manifestações de massas no país colocaram em pauta: a situação do transporte público, e o vandalismo. Quero tecer algumas considerações aqui apenas sobre esta última.

Diante dos casos de vandalismo, as opiniões têm se dividido em duas: aquelas que não compactuam de forma alguma com depredação e saques, e aquelas que toleram o vandalismo ou mesmo o incentivam. Eu particularmente não me encaixo em nenhum destes pontos de vista – e, no que se seque, tentarei explicar o porquê.

É difícil ter certeza de quem exatamente está participando dos atos de vandalismos. A única certeza que se pode ter é que se trata de uma minoria que, claramente, não respeita a vontade coletiva que é manter o caráter pacífico dos protestos. A minha opinião é de que tais atos estão sendo tomados por três grupos: 1) grupos anarquistas, organizados segundo a estratégia black blocs; 2) indivíduos não-politizados e não-organizados que, no calor do momento, espontaneamente são tomados pela vontade de destruição; 3) indivíduos de baixa renda que se aproveitam da confusão para saquear. Falo aqui em indivíduos porque, evidentemente, eles compõem grupos isolados que não representam as classes e estratos sociais aos quais pertencem. Além disso, embora não concorde, posso entender os motivos que cada um deles tem para tomar parte nos atos de vandalismo – seja a revolta pura e simples com as condições de vida, seja uma filosofia política definida, ou seja ainda o aproveitamento de uma situação oportuna para adquirir bens.

A primeira coisa que deve ficar clara é que vandalismo é um termo incorreto, necessariamente enviesado e carregado de preconceitos. Uma coisa é sair quebrando as ruas num dia qualquer, outra bem diferente é fazer isso durante uma revolta popular. Vandalismo, baderna, e outros termos aparentados, não são imparciais; na verdade, encarnam uma visão a respeito dos movimentos sociais, da luta coletiva, da participação política de massas. Trata-se da visão conservadora que criminaliza toda e qualquer luta dos “de baixo”. Assim, não podemos considerar como vandalismo os atos de destruição que necessariamente surgem num momento de revolta popular e que são muito difíceis de evitar, por mais que a maioria dos revoltosos não apoie tais atos. Se assim o fizermos, compactuaremos com o discurso dos inimigos.

O que seria do movimento ludista, ainda nos inícios da revolução Industrial, sem a quebradeira generalizada das máquinas que simbolizavam os grilhões dos trabalhadores modernos? Chamaríamos os ludistas de vândalos? Para as classes dominantes, eles eram vândalos, ao passo que para os trabalhadores se tornaram heróis. E a violência que explodiu durante a Revolução Francesa, com a tomada da Bastilha e do palácio de Versalhes, chamaríamos de vandalismo também? E não precisamos ir tão longe para compreender, senão a justeza, ao menos a razoabilidade do vandalismo (vou continuar a usar este termo, por falta de um melhor) em momentos de revolta popular. Quem não se lembra dos distúrbios que irromperam na Europa nos últimos anos, especialmente na França e na Inglaterra (se não me falha a memória, nos anos de 2005 e 2010, respectivamente), quando centenas de carros foram incendiados, lojas saqueadas, prédios depredados? Independente das causas imediatas ou de fundo que levaram a explosões como essas, como acusar uma população marginalizada pelo poder público e explorada pelo poder econômico-privado por, num momento de febre, se levantar e dar vazão à sua ira destruindo tudo em seu caminho? Parece-me que se trata, neste caso, de uma violência legítima: a violência que decorre do direito inalienável de preservar a sua própria vida, sendo que deste direito decorre o direito de lutar por direitos. Se isso muitas vezes se traduz em violência impensada e passional, a culpa não é dos “vândalos”, mas das pessoas que, embora não tendo nada com isso diretamente, os reprovam e que justamente são as que apoiam esse sistema nocivo que os oprime. É como se eu prendesse um cachorro na coleira a vida toda e quando ele, um dia, resolvesse me morder eu o acusasse de brutalidade. Cachorros são muito dóceis até a hora em que resolvem morder.

A história até hoje se fez a ferro e fogo, e muita coisa construtiva surgiu da destruição. Como disse Marx de forma lapidar, a violência é a parteira da história. Seja como for, não é a minha intenção aqui entrar em querelas sobre filosofia da história, e muito menos sobre a natureza do ser humano. Apenas limito-me a deixar claro que não sou um pacifista exaltado; que entendo os motivos e necessidade da violência, e, especialmente, da violência pensada, de caráter classista, levada a cabo de forma organizada. Não acredito que necessariamente mudanças substanciais possam ser alcançadas na base da conversa, das manifestações pacíficas. Pode ser que sim, pode ser que não. Mas se não for possível, defenderei com unhas e dentes a necessidade da luta armada, da violência coletiva organizada. Porque enquanto o pacifista se ilude com um princípio moral absoluto, o Estado e as classes dominantes investem contra ele com total e irrestrita violência – uma violência que o Estado chama, ao contrário da violência exercida pelo povo, de legítima.

A questão do vandalismo envolve, portanto, outras questões como a função e a natureza do Estado, os limites de um determinado regime político (o liberalismo democrático), a concepção que se têm da estrutura social (conflitiva ou harmoniosa), do papel da mídia em orientar a opinião pública segundo seus interesses, as ideologias dominantes em nossa sociedade, as estratégias teóricas e políticas traçadas pelas classes em luta, etc. Não vou entrar em todas essas questões. Vou resumi-las numa única questão: em suma, para mim, todo o problema se resume no modo como olhamos para a questão do vandalismo.

Minha posição diante do vandalismo é concreta, no sentido de que é dada pela experiência empírica, pelos fatos. Trata-se de uma posição que não se identifica com nenhuma petição de princípio; não vê, portanto, o vandalismo como um princípio absoluto, ou o antivandalismo como pacifismo hipócrita ou covarde. Ao invés de me posicionar aprioristicamente em relação ao vandalismo, tiro meu posicionamento dos fatos, porque os fatos são objetivos e impõem a necessidade de que o tratemos como tal. Abordo o problema, portanto, do ponto de vista pragmático, ou seja, da sua eficácia, dos seus resultados, da sua qualidade enquanto meio para atingir determinado fim. Noutras palavras, o que eu estou querendo dizer aqui é que, ao invés de tratar a questão do vandalismo como um problema filosófico ou teórico – seja respondendo a ele com filosofias pacifistas ou, ao contrário, com filosofias anarquistas –, trato-a como um problema estratégico e tático. Em suma: se for útil quebrar, defendo que quebre, se não, defendo o contrário.

Para avaliar como a melhor resposta ao problema é dado pelo ponto de vista estratégico e tático, basta olhar para os próprios eventos que deram origem a essa verdadeira revolta popular que vivemos agora. Antes da última quinta-feira a opinião pública ainda estava receosa e desconfiava da justeza do movimento, embora considerasse a sua causa justa. Essa posição se explica pela campanha de desinformação da grande mídia, responsável por deslegitimar e criminalizar o movimento. Qual é o argumento central em que ela centra fogo? Precisamente no vandalismo – e olha que até quinta nem tínhamos presenciados atos de vandalismo como os que vimos nesta semana. Ou seja, a mídia usava do vandalismo, que nem existia, para criminalizar o movimento e deslegitima-lo aos olhos da população – e ela vinha sendo bem sucedida nisto, tal como, aliás, na maioria das vezes o fora. Tudo mudou quando na quinta-feira uma manifestação pacífica foi brutalmente reprimida pela Tropa de Choque em São Paulo. A grande mídia tentou esconder, mas com os novos meios de comunicação e informação virtuais tornou isso impossível, ela foi obrigada a tomar o lado dos manifestantes. Mesmo porque era impossível para ela esconder de qualquer jeito o que tinha acontecido, já que a repressão caiu também sobre mais de uma dúzia dos seus jornalistas. Foi a solidariedade e a indignação surgida a partir daí que engrossou o caldo do movimento e levou dezenas de milhares de pessoas às ruas na segunda-feira. E a esmagadora maioria dessas pessoas que se somaram não foi atrás de baderna; ao contrário: juntaram-se por solidariedade a uma manifestação pacífica que foi alvo de violência estatal e que foi acusada injustamente de vandalismo.

Vemos assim que defender o vandalismo nas atuais circunstâncias é taticamente equivocado, tanto porque isola o movimento, quanto porque municia o inimigo. Ao fazer isso, abrimos mão da nossa única arma, ou seja, o fato de termos a maioria da população do nosso lado. Além disso, não passa de sectarismo defender intransigentemente o vandalismo, porque assim se fecha qualquer canal de diálogo com a população. Não estou aqui indo contra o direito de alguém defender a necessidade da violência. Mas essa defesa não pode ser feita senão dentro do coletivo como um todo; não pode ser ação de grupos isolados que não representam o movimento como um todo. Precisamos saber nos defender, é claro, já que, com efeito, o Estado não tem pudor em nos violentar. E é por isso mesmo que a nossa violência tem que ser pensada, coletiva, organizada. Não podemos desconsiderar a possibilidade de a violência ser necessária, especialmente quando considerada de um ponto de vista estratégico. Mas não creio que seja, de um ponto de vista tático, o caso. Existem, assim, diferenças entre considerar o vandalismo à luz de uma estratégia ampla e à luz de um posicionamento tático imediato, o que também reforça a conclusão de que não é possível adotar nem o pacifismo nem a violência por princípio. Em suma, a violência ou a não-violência não são simplesmente princípios morais ou políticos, mas posicionamentos estratégicos e táticos que surgem na práxis da luta.
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