quarta-feira, 12 de junho de 2013

Sexo e corpo

Queremos um novo mundo prenhe de possibilidades para a satisfação das nossas necessidades sexuais. Talvez seja equivocado falar em necessidade nestes termos, como se se tratasse de um instinto puramente animal. E, a despeito disso, às vezes me parece que os seres humanos são a espécie mais sexualizada em todo o reino animal. Isso não significa, suposto correto o raciocínio, que o natural prevaleça sobre o cultural quando se trata de sexo entre humanos. Não se pode jogar tudo na conta da biologia; ao contrário: ela explica muito pouco. Se assim fosse, como explicar a repressão sexual que dominou a atmosfera racionalista e moralista da época vitoriana, ou o sucesso de concepções religiosas como o puritanismo e o protestantismo? Permanece de fundo, entretanto, a questão de se é ou não natural o impulso sexual, e se a sociedade apenas refreia ou liberta este impulso. Creio que mais do que refrear ou libertar o impulso sexual, a sociedade dá forma a ele. Do contrário, seríamos apenas macacos transando de quatro ou de papai-e-mamãe, sem preliminares, sem sacanagens, sem diversão. Embora poder-se-ia supor que existiria, sem dúvida, o mesmo impulso sexual, o sexo seria apenas para fins reprodutivos. A característica própria que faz dos seres humanos humanos é justamente a capacidade de fazer daquilo que é natural e necessário uma futilidade (do ponto de vista biológico-evolucionário); ou seja, é a capacidade de transformar nossas necessidades naturais em outras coisas que não são nem necessárias nem naturais, e criar, com isso, novas necessidades, desta feita puramente culturais. Nós adornamos, por assim dizer, essas necessidades com penduricalhos culturais. O sexo deixa de ser, assim, mera finalidade reprodutiva para se tornar um jogo, uma brincadeira, uma atividade lúdica (e isso vale para todas manifestações humano-sociais: o trabalho, por exemplo, em sua dimensão ideal não-alienada, deveria ser fonte de satisfação, humanização, criação viva; ou seja, o trabalho deveria ser, de certo modo, um ócio criativo, e não uma condenação, um fardo, uma tortura, como diz etimologicamente a palavra). E até mesmo o fato de transformarmos o sexo num pecado é também, evidentemente, algo cultural. Portanto, e isso não passa de outra obviedade, o sexo é múltiplo: varia de cultura para cultura, de época para época, de lugar para lugar. Hoje, neste nosso mundo interconectado em tempo real, o sexo parece estar num limiar paradigmático. Quer extrapolar séculos de amarras morais que condenaram o corpo, como fonte de pecados, a uma existência de privação, penitência, mutilação. Como diria Galeano, o corpo é uma festa. Festejamos, então!
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