sábado, 22 de junho de 2013

Que perigos se escondem neste momento histórico?

Pessoal, mais uma vez quero deixar claro aqui qual é o problema a ser enfrentado. Há muita confusão quando se fala de extrema direita, neofascismo, golpe, conspiração, etc., assim como há quando se fala de revolução, insurreição popular, etc. Nenhum desses termos, por si só, explica o que está acontecendo.

Falar em perigo fascista não significa – pelo amor de Xangô! – que estamos à beira de uma Marcha sobre Brasília. Tampouco existe conspiração de qualquer tipo – seja midiática, militar ou partidária – em favor de um golpe. A mídia só está fazendo aquilo que ela sempre fez e que é da sua natureza fazer, ou seja, agir como um partido na tentativa de disputar e dirigir o movimento de massas e a opinião pública a seu respeito. A Rede Globo fez isso, sem sucesso, em 1984, na campanha pelas “Diretas Já!”, e com sucesso em 1992, por ocasião do “Fora Collor”. Esse alarmismo cego é reducionista – ou seja, reduz o atual momento histórico a uma reação conservadora das elites face a um processo de mobilização popular que poderia ameaçar seus interesses particulares (uma espécie de golpe preventivo), sendo incapaz de compreender o que as massas nas ruas têm de legítimo, progressista, histórico – e contraprodutivo – porque isola a vanguarda de esquerda das massas não-organizadas, e corta, deste modo, qualquer possibilidade de diálogo com elas. 

Quanto ao ponto de vista contrário – isto é, que sempre e em quaisquer circunstâncias em que as massas saem às ruas é necessariamente um fenômeno progressista e/ou revolucionário – também está equivocado. Basta olhar para a forma que esse fenômeno assumiu para nos darmos conta que se também estão presentes potencialidades revolucionárias, por outro lado também existem enormes potencialidades reacionárias. As agressões lamentáveis contra militantes de partidos e movimentos sociais não são atitudes isoladas de uma minoria, mas antes são a expressão extrema de um sentimento compartilhado pela multidão como um todo. De um modo ou de outro, essas agressões foram justificadas e aceitas por todos ou quase todos. Não podemos ser inocentes, e não se pode esconder isso. 

Estou convencido que devemos partir do princípio de que as massas nas ruas não são nem de esquerda, nem de direita; nem revolucionárias, nem conservadoras/reacionárias. Se elas gritam palavras de ordem de esquerda ou de direita, isto não basta para enquadrá-las neste ou naquele campo político, tanto mais porque as massas gritam tanto palavras de esquerda quanto de direita. No entanto, também não é possível dizer que as massas não tem orientação nenhuma, que a complexidade e a variedade de pautas diferentes, muitas delas contraditórias entre si, não nos permite apreender traços essenciais e gerais. Penso que o povo brasileiro (assim mesmo, em termos abstratos) é, por razões sociológicas e históricas, acima de tudo conservador, e que esse conservadorismo está se exprimindo agora nas ruas. Mas isso não significa que o movimento de massas seja conservador. Para que fique claro: o povo é conservador e está expressando seu conservadorismo nas ruas, mas o movimento que dá corpo a essa expressão não é conservador e, ainda mais, ele põe em pauta demandas progressistas, historicamente defendidas pela esquerda. Difícil de entender, mas é isso o que está acontecendo. 

Portanto, temos de partir do princípio de que não há um sentido definido para o movimento de massas em curso, e que tudo o que podemos visualizar até o momento são tendências diversas. Essas tendências diversas são resultados de projetos variados que se embatem na busca por hegemonia. Nada está decidido; ao contrário, o movimento ainda está em disputa. Mas é possível observar tendências mais fortes do que outras, ou seja, é possível ver que existe um projeto levando a melhor nessa disputa por hegemonia. Esse projeto é aquele que defende o caráter “apolítico” do movimento (algo impossível por princípio) e, junto com ele, o anti-partidarismo, a oposição dicotômica povo/políticos, o ideal de nação, etc. Não existem organizações definidas e estruturadas por trás desse projeto potencialmente vitorioso. Ele brotou espontaneamente, por assim dizer, dos sentimentos, crenças e ideias que o povo brasileiro, enquanto massa indistinta, compartilha entre si de forma difusa, inconsciente e não sistemática. Como esse projeto serve aos interesses das elites constituídas, serve à manutenção do status quo, essas elites, através de seus aparelhos ideológicos, esforçam-se para garantir a vitória deste projeto dentro do movimento. E, efetivamente, é essa a visão que tem prevalecido. 

Mas essa visão é necessariamente conservadora e/ou reacionária? Não necessariamente. Já vimos que ela vem acompanhada de demandas progressistas históricas e de uma busca sincera por mudanças sociais e políticas, além de um ressentimento contra determinados setores da população (as elites) aos quais são atribuídos a culpa pela situação. É a síntese de tudo isso que vai dizer se o sentido para o qual o movimento aponta é ou não reacionário. Por exemplo, o sentimento anti-política pode ser bom quando ele se opõe à política tal como vem sendo feita pelos partidos tradicionais, mas é ruim quando atrelado à ideia de que o povo unido não precisa nem fazer política, nem de partido. O próprio sentimento de união popular pode ser bom, mas quando ele perde de vista as classes que constituem um povo torna-se ruim. A demanda por políticas públicas que garantam direitos sociais básicos também é algo bom, mas quando ela não põe em questão a estrutura econômica capitalista torna-se problemática. Tudo depende da habilidade e das oportunidades de cada ator social em disputa para imprimir o sentido que prevalecerá no movimento. 

Tentando sistematizar tudo isso que foi dito, temos o seguinte: o que caracteriza as manifestações de massa no Brasil, compostas por diversos setores da sociedade e impulsionadas por insatisfações de toda ordem e por um desejo legítimo de mudança social, é a luta por direitos e reformas variadas, sendo que entre elas encontramos muitas das bandeiras sustentadas historicamente pela esquerda, como a que deu ensejo para as manifestações. Tudo isso forma um caldo extremamente complexo, turvo e revoltoso, cuja substância e sentido ainda não podem ser determinadas. Além disso, é preciso separar as ideologias compartilhadas pela maioria da população como um todo, que são, em grande parte, conservadoras, das pautas que essa mesma população põe na cena política através da mobilização nas ruas. Por fim, como a sociedade é composta por vários atores políticos, todos eles buscam intervir no processo com o objetivo de disputar espaço, consciência e direção. Por hora, existem apenas tendências despontando, e nada está decidido porque, evidentemente, esse processo acabou de começar. Apenas foi dada a largada. 

E aqui entra a questão central: essa situação não pode permanecer nessa indefinição para sempre: alguma tendência terá de se afirmar sobre as demais; a insatisfação e o desejo de mudança terão de se coagular em ideologias e projetos políticos sistematizados e bem definidos; a mobilização espontânea terá de se cristalizar em organizações estruturadas capazes de levar adiante os projetos políticos em disputa. E isso mesmo se todo esse rico momento histórico der em nada, ou seja, mesmo se acabarmos voltando à situação anterior. Portanto, até mesmo os antipartidários terão, ora ou outra, que tomar partido. Pouco importa se vão se voltar aos partidos tradicionais ou se surgirá em cena um novo ator político capaz de capitalizar para si o processo em questão. 

Talvez alguns exemplos concretos nos ajudem a entender isso. Na Espanha dos Indignados, foi muito bonito ver o povo, acossado pela crise social e descontente com o modo como as elites políticas e econômicas procuravam resolvê-la, se mobilizar e ocupar espontaneamente a Praça do Sol. Mas a falta de um projeto político específico e de um ator político capaz de sistematizar e encaminhar esse projeto levou a que a maioria da população recolocasse a direita no poder, derrubando o governo que ela identificava como diretamente responsável pela crise, ou seja, o dos “socialistas” (na verdade, socialdemocratas). Qualquer semelhança com o caso brasileiro pode ser mera coincidência, mas uma comparação ajuda a pensar o que aconteceria aqui no Brasil caso não surgisse um novo ator e um novo projeto político capaz de afirmar sua hegemonia. Não temos em mãos as crises que os espanhóis enfrentam, mas os indicadores econômicos estão cada vez piores e, se a tendência se aprofundar, não é impossível que em 2014, ano eleitoral, o governo (socialdemocrata), desgastado e deslegitimado, se veja seriamente ameaçado por seu concorrente tradicional (os liberais). Na falta de um ator político novo, não resta dúvida que os tucanos seriam reconduzidos ao poder. 

Já na Grécia a situação é diferente. O pano de fundo de crise econômica e social é praticamente o mesmo da Espanha, assim como seus reflexos na esfera política: aos olhos do povo, os partidos tradicionais gregos também estão completamente desacreditados, e a crise de legitimidade do Estado é profunda. Há no ar um desejo de mudança, de algo novo. Essa mudança ainda não se verificou, mas, diferentemente da Espanha, novos atores surgiram e estão sendo bem-sucedidos em capitalizar esse desejo compartilhado pela população como um todo. Entre eles, o Syriza, uma coalização de partidos da esquerda socialista, já é o principal partido de oposição ao governo de direita eleito no ano passado. Mas quero chamar atenção aqui para o avanço espantoso da extrema direita neofascista – isto num país onde a ideologia fascista nunca tinha encontrado eco. O partido Aurora Dourada havia conquistado 0,3% dos votos na eleição de 2009, ainda no começo da crise. Em 2012 já abocanhava 7% do eleitorado nacional, e pesquisas recentes indicam que as intenções de voto no partido subiram para 11 ou 12%. Trata-se de um gigantesco crescimento para um partido autoritário e antidemocrático, nacionalista e militarista, com um inegável cariz fascista. A questão é: de onde vieram esses fascistas? O povo grego é potencialmente fascista? Uma reposta possível é que o discurso neofascista do Aurora Dourada, pautado na ideia de nação e de povo, encontrou eco em alguns setores da população, dentro do contexto de crise social que vive a Grécia, porque ele mobiliza valores e crenças com os quais a população se identifica, ainda que ela não seja fascista. Para que esse discurso seja acolhido é preciso que as massas tenham certas afinidades com ele. 

É precisamente neste sentido que se pode falar na possibilidade de uma ameaça fascista no Brasil. Não se trata apenas de um problema grego, mas mundial, ou seja, trata-se de um problema histórico, enraizado nas condições do nosso tempo. O fascismo não é um demônio do passado já exorcizado. O fascismo é um vírus asqueroso e mortal que só precisa de condições ideais para iniciar uma pandemia. Mas é também um problema que depende das condições particulares de cada país. Para que isso aconteça no Brasil é preciso que surja um partido de tipo fascista e que ele seja bem-sucedido em arrebanhar corações e mentes para seu projeto político. A possibilidade deste sucesso está determinada pelas ideias, valores e crenças que circulam entre as massas e que podem ser a porta de entrada para o discurso fascista. Diante das ideias dominantes presentes nas manifestações brasileiras não é despautério afirmar que essa possibilidade existe. Também na Itália pós-Primeira Guerra o descontentamento com a classe política como um todo, especialmente por temas como a corrupção, e a perda de legitimidade das instituições políticas eram visíveis; o orgulho nacionalista também estava exaltado diante do que o povo considerava uma traição dos aliados após a vitória contra as potências centrais; também havia a percepção de que os grandes capitalistas exploravam a maioria da população e barravam a distribuição da riqueza mas que, todavia, o socialismo não era a melhor solução. Mussolini foi capaz de capitalizar todo esse ressentimento e vontade de mudança através de ideologias nacionalistas, antidemocráticas (entre elas o antipartidarismo) e populistas (entre elas a fachada trabalhista e o paternalismo estatal). 

Comparando esses exemplos com o caso brasileiro pode-se compreender que não é impossível que um partido fascista, ou simplesmente autoritário, seja capaz de mobilizar o atual processo histórico a seu favor. Portanto, é neste preciso sentido que podemos falar numa ameaça fascista/autoritária no Brasil: trata-se de uma ameaça em potencial, ou seja, uma tendência possível entre tantas outras. Para que ela se efetive é necessário um conjunto complexo de condições. Até o momento essa tendência é mínima, e a possibilidade de que venha a se fortalecer é longínqua. Entretanto, ao colocar isso em discussão, não estamos sendo alarmistas. Trata-se de manter em mente os ensinamentos da história para não sermos apanhados de surpresa quando os camisas verdes estiverem marchando sobre a Paulista.
Postar um comentário