sexta-feira, 21 de junho de 2013

Por que acender a luz amarela de ameaça fascista?

Acho que estamos olhando errado para o problema. Quem olha de forma apenas otimista para o “gigante” que acordou, não percebe quão gritante e ameaçador é o potencial reacionário que ele traz consigo. Quem olha de forma apenas pessimista não consegue apreender as questões progressistas que esse movimento (refiro-me às massas na rua e não ao MPL) põe na ordem do dia.

Mesmo aqueles que pesam os dois lados da balança não estão olhando corretamente para o problema. Não se trata simplesmente de um movimento progressista, contaminado por uma pequena parcela antidemocrática e reacionária que, no computo geral, não tem representatividade alguma. Tampouco se trata simplesmente de um movimento progressista que foi cooptado pelas forças da direita. Menos ainda se trata de um movimento originalmente de direita, conservador, estrategicamente pensado para fomentar um golpe ou coisa que o valha.

Portanto, não se trata de um movimento de esquerda que está sendo disputado pela direita, nem de um movimento de direita que objetiva desestabilizar e, no limite, tirar a “esquerda” do poder.

Esses são raciocínios dicotômicos incapazes de aprender a complexidade contraditória de todo fenômeno social. O ponto de partida deve ser a constatação do fato: trata-se de um movimento legítimo que surgiu espontaneamente, e cujas raízes estão fincadas numa crescente insatisfação social, política e econômica. Sua base social é composta por várias classes e estratos da estrutura social: desde os trabalhadores, passando pela classe média, até a pequena burguesia. Seu horizonte ideológico é de esquerda, no sentido de que as bandeiras que o movimento levanta são as bandeiras históricas da esquerda socialista.

Entretanto, isso não significa que o movimento seja de esquerda. E aqui entra a chave para compreendermos o problema: não há um único caminho para a direita. Um movimento de direita, portanto, não necessariamente deixa transparecer esse viés, mas pode escondê-los sob uma fachada democrática.

Pode muito bem acontecer que, dentro de um contexto de crise, cujos atores políticos tradicionais não estão aptos a dar resposta, certos setores da sociedade que possuem mentalidade e posição política conservadora (de direita) abracem bandeiras de esquerda. Quem já pesquisou sobre as causas e o contexto do surgimento do fascismo nos anos 20 sabe que três das suas características essenciais são: o verniz popular com que, sob a ideia de nação, ele pinta sua face antidemocrática e elitista; o impulso revolucionário com que ele maquia seus objetivos contrarrevolucionários e reacionários; e seu suposto viés de esquerda, que nada mais é do que uma caricatura das bandeiras igualitárias e libertárias da esquerda socialista.

Essa conversa de anticapitalismo, anti-elites, nem esquerda nem direita, anti-partido, somado a nacionalismo ufanista, ordem e progresso, autoritarismo político em nome da nação, etc., são justamente os elementos centrais no discurso fascista. Ou seja, a extrema direita se caracteriza justamente por ser a direita radical travestida de esquerda, como se ela se situasse acima das classes em prol dos interesses da nação como um todo. Eis aqui as bandeiras da esquerda que o fascismo se apropria (sem sua necessária concepção classista): saúde e educação gratuitos, trabalho para todos, anti-imperialismo, contra o Estado, etc.

Isso significa que a maioria das pessoas que aderiram às manifestações são fascistas? Que o Brasil todo é praticamente fascista? Que o fascismo está na iminência de tomar o poder? Não! Significa apenas que a maioria das pessoas está, em nossa sociedade capitalista, imbuída de crenças e preconceitos de direita, e que, quando num momento de crise, essas crenças e preconceitos podem adquirir um caráter esquerdista, o que nada mais é do que a receita para a extrema direita. O senso-comum é conversador por natureza, já que é uma forma pela qual o pensamento dominante se manifesta na realidade. Mas às vezes ele quer mudanças, quer reformas. Para que sua insatisfação não se encaminhe por sendas socialistas, a extrema direita é chamada para exercer seu papel histórico: fazer uma revolução passiva, ou seja, mudar tudo para que tudo continue como está.

Portanto, um movimento espontâneo e de massas não é nem de esquerda nem de direita. Esse é um sentido que tem que lhe ser dado e que só a luta de classes pode lhe dar. No entanto, o movimento atual tem um potencial muito maior de pender para a direita do que para a esquerda. É por isso que cabe aos socialistas intervir para disputar consciência na tentativa de forçar o movimento para a esquerda.
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