sexta-feira, 14 de junho de 2013

O que se passa no Brasil e no mundo? Uma hipótese sobre o atual momento histórico

É necessário olhar para os eventos de ontem a partir de um ponto de vista amplo e de longo alcance. Uma visão superficial é incapaz de compreender a singularidade e as potencialidades inscritas na atual quadra histórica mundial e nacional. Não se trata apenas nem de protestos normais, nem da repressão normal. Não se trata apenas da truculência ingênita da polícia brasileira, nem apenas da maneira típica pela qual nossos governantes sempre trataram as demandas populares. É preciso compreender esses acontecimentos a partir de seu contexto histórico e político.

Parece que, enfim, chegou ao Brasil o clima de insatisfação popular que vem levantando ondas poderosas do outro lado do Atlântico há alguns anos. Portanto, em primeiro lugar, é possível constatar um processo de acirramento nas lutas de classes em todo o mundo, em especial nos países imperialistas centrais, onde o modelo econômico do capitalismo avançado se esgota rapidamente, gerando crises sociais e de legitimidade institucional que tendem a se traduzir em movimentos políticos espontâneos, independentes, de massas. A onda de protestos, de organização e mobilização popular, de retomada dos espaços públicos e de busca por novos meios de participação política não é, portanto, gratuita. Há determinadas causas e condições históricas gerais que perpassam movimentos tão distantes e aparentemente díspares como a Primavera Árabe e as greves gerais na Zona do Euro. Essa atmosfera propensa a incendiar a luta de classes não é nova na história. Já aconteceu antes, e parece estar acontecendo de novo.

Tampouco esse processo pode ser considerado artificial, como opina parte dos formadores de opinião, acusando organizações partidárias “extremistas” de estarem instigando-o e conduzindo-o. É evidente que partidos políticos interessados na radicalização da luta de classes procuram se inserir e participar ativamente desse processo, mas nada disso seria possível sem condições históricas favoráveis. Os partidos burgueses tradicionais, sejam de esquerda ou de direita, geralmente associados ao centro do espectro político (democracia cristã e socialdemocrata), são tão incapazes de lidar com ele que não apenas vacilam diante da mobilização popular, abrindo espaço para a extrema direita, como mesmo nem viram a onda chegar. E ela chega assim mesmo, de repente. Se a situação evoluir neste sentido, o canto de morte dos partidos tradicionais está decretado. A questão é o que por em seu lugar.

Como todo fato histórico de proporções globais, a onda montante de protestos e mobilização popular a que temos assistido nos anos recentes é espontânea, surge sem aviso prévio, a partir de múltiplos epicentros e desencadeada por diversas causas locais e imediatas. Não existe um “cérebro” detrás dela, tal como a mentalidade conspiratória dos ideólogos da direita gostaria que fosse. Todo esse processo é ainda incipiente, vacilante, indefinido; não sabemos para onde vai, ou como tentar conduzi-lo a partir de agora; as possibilidades são múltiplas, e tudo depende de nós; tudo pode se perder sem mesmo ter começado, ou pode crescer, desenvolver-se, preencher todos os espaços.

Assim também acontece com o Brasil, que, após uma década de ilusões petistas pequeno-burguesas, parece estar despertando para esse momento histórico. Os trabalhadores do campo e da cidade, os estudantes, a vanguarda intelectualizada das classes médias, estão atinando para o fato de que, afinal, o PT não era exatamente o que esperavam; que as esperanças depositadas nele estão sendo fraudadas; que não se trata de um governo popular. Mesmo aqueles que ainda não abandonaram de vez toda a fé concedida ao PT estão se colocando, cada vez mais, na posição de voto crítico em relação ao partido e ao governo, ou procurando fazer-lhe oposição dentro da ordem. O crescimento da economia brasileira, que havia revivido os velhos sonhos de “Brasil potência”, ameaça estacar e tem acumulado decepção após decepção. O atual modelo político-econômico, que segue como pedra de toque inquestionável, não pode cumprir aquela promessa.

Por outro lado, à economia não pode ser atribuída o fator principal na crescente insatisfação e mobilização popular, uma vez que o desemprego segue baixo e o consumo vigoroso. Mesmo assim, a ridícula distribuição de renda e diminuição da desigualdade social, tão jactada pelo governo, mostrou-se completamente insuficiente quando se trata de sanar dívidas históricas. O povo não está morrendo mais – ou pode estar morrendo menos – de fome. Mas não é só disso que se trata. O povo quer mais. Quer participação política. Quer voz. Quer ser ouvido. Estamos frustrados com a falta de diálogo com o governo. Enquanto PT alicia e integra à estrutura de poder as direções sindicais, a base permanece esquecida, vendo-se traída corriqueiramente. Enquanto o governo faz negociatas com a bancada ruralista (e com qualquer outra que lhe oferecer dividendos políticos imediatos), os trabalhadores e lutadores do campo não veem nem a cor da reforma agrária. Ao mesmo tempo em que promove o Minha Cada Minha Vida, prometendo moradia aos mais pobres, Dilma satisfaz os interesses de empreiteiras e especuladores imobiliários, além de desalojar centenas de milhares de pessoas sem dar-lhes acesso a moradia adequada. Vemos imagens do Lula de mãos dadas com o Maluf, chegamos à conclusão de que o PT privatiza tanto quanto o PSDB, ficamos sabendo dia após dia de novas falcatruas, às quais pareciam ser exclusividade dos partidos das elites. E, para divulgar tudo isso, novas mídias nos ajudam a romper o cerco da grande mídia sobre a informação.

Diferentemente do que se passa em países como a Grécia, a Espanha e Portugal, o problema que está em pauta aqui no Brasil é menos econômico do que político-social: o os recentes protestos e mobilizações pões em evidência é a crise de legitimidade que as forças políticas tradicionais enfrentam. O povo parece não saber mais quem é quem. E parece estar cansado do mais do mesmo. A situação quer preservar a aceitação que ainda tem para vencer as eleições de 2014. A oposição de direita não sabe que projeto apresentar e, ainda que soubesse, nele não incluiria dar voz e espaço aos movimentos e às pautas populares. O Brasil caminha para uma situação que, na política, se chama desgoverno ou crise de governabilidade. E isso é ótimo, porque abre espaço para organizar as classes trabalhadoras e populares por fora do espaço institucional e por fora dos aparatos tradicionais de representação política.
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