terça-feira, 18 de junho de 2013

O que significa a nossa Primavera (primeira tentativa de entendimento)

Ontem o Brasil virou a Grécia ou a Turquia, a Espanha ou o Egito. O brasileiro deixou de ver pela tevê as manifestações populares que há uns 3 anos batem-se no velho continente (ou em países vizinhos nossos, como o Chile) para ele mesmo sair às ruas. Acredito que seja este um momento histórico muito particular, um marco sobre o qual os historiadores daqui para frente terão de refletir. O que significa este momento? Evidentemente, ainda é cedo demais para dizer. Um processo qualquer só se revela integralmente post festum – ou, noutros termos, só se torna claro no dia seguinte, na ressaca. Até agora, ainda estamos em festa. Não pretendo aqui procurar apreender as relações entre o caso particular brasileiro e o processo mais geral do qual ele é um momento. Simplesmente, parto do pressuposto de que há relações intrínsecas entre eles.

Ontem o Brasil foi varrido por uma tempestade de manifestações populares. Em nada menos do que doze Estados, as pessoas saíram às ruas para manifestar seu descontentamento, seu desacordo, seu desejo de mudança. Algo que não se via há muito tempo por essas bandas. Com efeito, houve quem falasse, em rede nacional, estar surpreso com a onda de manifestações que parou o país, alegando que o brasileiro é um tipo cordial, pacífico, e que sua natureza não coaduna com os acontecimentos recentes. Mitos como esse, que deturpam a nossa visão e compreensão da realidade, são muito comuns, até mesmo entre a nossa intelligentsia. Que o brasileiro é um tipo apático e alienado no que se refere à vida pública, sem cultura e sem participação políticas, parece-me um fato, explicável historicamente com base na gênese e desenvolvimento do país e de seu povo, das características das classes e estratos que o compõem e das relações de poder e exploração entre elas. Gostaria de acreditar que esta situação está prestes a mudar; que, como diz uma das palavras-de-ordem do movimento, “o povo acordou”. Resta apenas saber o que isso significa exatamente. 

No entanto, apenas se deixar levar pelos encantos sedutores que a massa nas ruas exprime pode ser – e efetivamente é – perigoso; podemos cair na armadilha fatal de um canto de sereia. Passada a emoção inicial, é preciso também analisar, friamente, os fatos com raciocínio crítico. Aqui entra o pessimismo da razão, como diria Gramsci. Por exemplo: muito me alegra ver o embaraço da Dilma na abertura da Copa das Confederações diante das vaias do estádio todo. Esse Copa, assim como os demais megaeventos que o Brasil irá sediar neste e nos próximos anos, constitui um crime: foi feita para poucos, e poucos estão ganhando com ela, tudo com a benevolência do governo federal e dos demais governos; seja situação, seja oposição, toda a nossa “classe” política está de braços dados no interesse do sucesso desses eventos. Contudo, quem vaiou a presidente Dilma no Mané Garrincha não foram os diretamente afetados pela política de seu governo, mas a classe média tradicional, base eleitoral intransigente dos tucanos e de outras forças políticas conservadoras, cujo elitismo torna-lhes insuportável aturar um partido de base popular no poder. Portanto, é preciso saber quem é “a massa”, o que ela quer e quais os motivos e sentidos das suas ações. 

Eu estive em São Paulo ontem, durante o quinto ato contra o aumento da tarifa do transporte público. O que presenciei foi de dar arrepios de entusiasmo: uma juventude cansada dos meios tradicionais de participação política, ansiando mudanças e disposta a fazê-las através da organização e da luta popular nas ruas. Um dos cartazes dizia “saímos do Facebook”. Nada mais verdadeiro: trata-se de uma juventude sem histórico de participação política, de organização social, mas que demonstra a vontade de alterar este histórico. Não posso afirmar quem são, em termos sociológicos, os manifestantes, nem traçar seu perfil social com segurança, sobretudo em termos de classes. Tendo a crer que a maioria dos seus membros pertence à classe média e a determinadas frações da classe trabalhadora, especialmente aquela com melhor renda e nível de vida. O que se pode dizer com certeza é que se trata de um movimento composto predominantemente por jovens não militantes e não ligados a nenhuma organização política particular, e que se mobilizaram através das novas mídias sociais. A grande maioria desses jovens esteve numa passeata pela primeira vez na vida ontem. Portanto, é preciso ter em mente a característica específica deste movimento: a espontaneidade com que ele surgiu e cresceu está diretamente relacionada com as potencialidades criadas pelos meios virtuais de comunicação social. Portanto, muitos dos problemas que o movimento enfrenta – a falta de uma organização e de uma direção estruturadas e bem definidas – decorrem da sua própria natureza (mas nem todos: seu apartidarismo, por exemplo, tem origem em outras causas). 

E aqui entra o contraponto ao otimismo: também vi muita coisa ontem que me preocupou e que aumentou meu ceticismo em relação ao momento histórico em questão. Vi as poucas bandeiras partidárias levantadas serem atacas ferozmente, e seus carregadores serem hostilizados e instados a abaixá-las, até mesmo com ameaças físicas. Além de ver bandeiras de partidos combativos cujo histórico é digno de todo respeito serem ofendidas, ouvi muitos preconceitos machistas e homofóbicos. Vi muitas bandeiras do Brasil, e o canto entoado com maior vigor foi o hino nacional e o “eu sou brasileiro”. Isso demonstra a profunda ignorância política, prática e teórica, dos participantes do protesto. Não havia a compreensão mínima da estrutura de classes de uma sociedade capitalista como a nossa, as relações entre elas e entre a esfera política, o papel dos partidos e das instituições públicas. Poucos ali sabiam onde se situam nesta sociedade, e como muitas das pautas em que o movimento toca interferem justamente nas bases das relações de poder das quais eles se beneficiam. Tudo foi diluído no “povo”. Tanto é que, para a maioria das pessoas, quem estava na rua era o povo e não uma determinada classe, lutando por direitos que são do povo e não de determinada classe. Se o povo está nas ruas, lutando, pressupõe-se que haja um inimigo, e tal inimigo só pode ser, suponho, a classe política. Esta é precisamente a ideia mais corrente no senso-comum, quando se trata de construir um discurso a respeito da política: o povo versus os políticos. E os anarquistas levam essa ideia abstrata a uma expressão mais sistemática ao defender o argumento de que o “povo unido, não precisa de partido”. Talvez eles não desconfiem disso, mas esse argumento serve muito bem aos interesses das forças conservadoras, convivendo perfeitamente bem com a visão de mundo pequeno-burguesa. O resultado é que, sob essas circunstâncias, havia na manifestação tantas pautas quanto possível, uma anulando a outra, sem qualquer compreensão de como essas pautas se relacionam com a estrutura da sociedade, e, muito menos, de como toda luta política necessariamente se organiza em torno de organismos coletivos, tal como o partido. 

Foi essa visão de mundo pequeno-burguesa que prevaleceu ontem. Ora, não há nada de surpreende nisto. Sabemos que as ideologias mais compartilhadas e com maior poder de mobilização numa sociedade são as ideologias da sua classe dominante. E isso não em função de um determinismo abstrato, mas por razões muito concretas: é essa classe que tem nas mãos os meios de comunicação, as instituições científicas, etc., ou seja, os meios através dos quais incutir valores, ideias, crenças; numa palavra: propagar a sua visão de mundo. No Brasil, esse fenômeno se manifesta de forma particularmente aguda, sobretudo na esfera da política. A ignorância e a alienação políticas manifestaram-se de forma clara no levante popular que tomou conta das ruas das principais cidades brasileiras ontem. Não a vergonha nisso, e não estou aqui fazendo qualquer acusação ou repreensão. Apenas constato um fato. Quero acreditar que tais manifestações tenham sido um primeiro passo no sentido de romper com essa ignorância, alienação e a apatia. O fato de que os manifestantes sejam incapazes de diferenciar partidos como PSTU e LER-QI, que desde o início apoiam e se somam ajudando a construir o movimento, de partidos burgueses tradicionais como PT e PSDB, não deveria surpreender. Há algo de particularmente nefasto nas ideologias políticas nacionalistas, já que elas suprimem a diversidade e o debate em seu interior, calando todas as vozes sob uma única voz pretensamente de todos, ou seja, que se pretende a voz do povo. O nacionalismo é intrinsecamente antidemocrático, e foi essa antidemocracia que prevaleceu ontem, na medida em que tentou-se silenciar determinadas vozes. 

Por outro lado, é preciso olhar para o movimento, embora ele seja recentíssimo, de um ponto de vista que dê conta das suas mudanças temporais: as manifestações de ontem não eram a mesma das de quinta, que não eram as mesmas da de terça. Se não fosse o erro tático das forças conservadoras (governo estadual e prefeitura da capital), talvez não houvesse o peso numérico que vimos ontem, peso que por si só já faz do movimento um evento histórico. A terrível repressão redirecionou a opinião pública e serviu para levar água ao moinho do movimento, e junto com ela vieram novos manifestantes e novas pautas políticas. O movimento inicial que era pela redução da tarifa e pela Tarifa Zero, se diluiu em meio a uma série de outras lutas, que vão desde o descontentamento com a Copa enquanto balcão de negócios, até a preocupação em relação à inflação, passando pela necessidade de garantir direitos sociais fundamentais, como saúde e educação. Mas nisso tudo o movimento se perdeu: havia desde tipos visivelmente conservadores, que saíram às ruas porque são simplesmente antipetistas, até militantes da esquerda revolucionária; assim, havia desde camisas brancas pedindo paz e impeachment da presidente, até a defesa da estatização do transporte público. Fica difícil saber quem é quem aí. Muitos ali, sobretudo os jovens que aderiram pelo Facebook, estavam protestando por protestar. O fato de que tenham saído de casa é ótimo, de que tenham deixado seu mundinho confortável de apartamento, mas isso não apaga por si só a ignorância política e a inconsciência social em que estão mergulhados. Eu sou extremamente pessimista quanto à capacidade política da minha geração e das que virão. Esse pessimismo foi confrontado ontem com o fato de esta juventude ter saído às ruas para protestar, para pedir direitos. Ponto para a juventude. Mas também as ideologias e preconceitos que ela manifestou nas ruas serviram também para reforçar esse pessimismo. Sei que é um erro tratar a questão como se fosse um problema geracional. Mas também não se pode dizer que se estivesse ali apenas os filhos da classe trabalhadora a situação seria diferente. Não há relação direta e determinista entre pertencimento e consciência de classe. 

Em suma, sob determinado ponto de vista, é possível ver as manifestações de ontem como a expressão da falta de participação na vida pública, da ignorância política e da inconsciência social, e da força dos preconceitos e ideologias tipicamente burgueses. Ficamos irritados e desapontados com a intolerância e – porque não dizer? – a burrice da maioria dos manifestantes, mas essas atitudes não evidenciaram senão o que já sabíamos. Evidenciou-se também a fragilidade do movimentismo quando atrelado a meios de mobilização e organização puramente virtuais. Não basta sair às ruas para protestar. Parece simples, mas o mundo não é simples, e as coisas não mudam através de boas intensões. É preciso ter organização, direção, disciplina, estratégia, e ter tudo isso com base em decisões coletivas e democráticas. É preciso, também, educar-se politicamente, e isso só se faz na luta concreta, construindo organismos políticos, fazendo agitação, levantado bandeiras, etc. Pode ser que ontem tenha sido um primeiro passo no sentido de romper com a condição atual. É cedo para dizer. Esse tipo de movimento social espontâneo, enraizado em insatisfações de toda espécie, tem potencialidades múltiplas, na medida em que é feito de múltiplas classes, ideologias e propostas diferentes. Cabe às vanguardas revolucionárias (aquelas mesmo hostilizadas pela maioria dos manifestantes de ontem), sejam partidos ou sejam movimentos sociais de caráter classista, elevar a consciência das massas através da propaganda ideológica, da agitação e da denúncia da ordem e de seus interessados. Só assim, disputando consciência, será possível imprimir uma direção correta às manifestações populares que explodiram espontaneamente no país.
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