quinta-feira, 6 de junho de 2013

Marxismo, socialismo e filosofia da história

Existe uma contradição lógica na teoria marxista, especificamente entre o conceito de socialismo e a premissa filosófica da história enquanto processo humano aberto e, a um só tempo, limitado. Esses dois elementos contraditórios não estão, por si mesmos, necessariamente errados. É preciso, portanto, escolher. Tentemos compreender isso.

O conceito de socialismo filia-se àquela tradição filosófica moderna que vê no progresso e no avanço linear da história uma necessidade. Note-se, entretanto, que essa necessidade não é absolutamente necessária – o que, sob a lógica dialética, está correto. Ou seja: a necessidade é dada pela história, mas tão-somente como potencialidade; sua efetivação real depende de um sujeito, posto que a história, em seu devir, não é um acontecer mecânico e passivo, dependendo como depende de escolhas e ações humanas.

Até aqui não há contradição entre esse conceito e a premissa onto-filosófica da história: a história como potencialidade está implícita na ideia de que ela é um processo aberto; por sua vez, a história enquanto efetividade depende da ideia de que ela é, ao mesmo tempo, um processo fechado, posto que ela se dá em condições determinadas, concretas, as quais não dependem, em última análise, da ação humana consciente. É isso o que Marx diz quando afirma que os homens fazem a sua história, não a fazendo, todavia, como desejam, mas sim como podem.

Sintetizando tudo isso temos o seguinte: para Marx, a história é um processo aberto porque depende de sujeitos conscientes (ou inconscientes, porém sujeitos), mas é fechada porque o produto da atividade desses sujeitos é herdado, e não escolhido à revelia. Tal produto, enquanto condição da atividade humana, encontra-se já dado ao mesmo tempo em que agimos.

É preciso compreender também que a contradição não está evidente no conceito de socialismo. O socialismo, em termos lógicos, não é um conceito rígido, como um esquema, uma fórmula. Ele, portanto, contempla a premissa da história aberta. Ora, não sendo uma necessidade absoluta a transformação do capitalismo em socialismo, conforme deixou bem claro Marx, logo não há contradição. Onde está a contradição à qual me referi de início?

Aqui entra a questão: como o socialismo contempla a premissa da história como processo aberto? De duas formas. Em primeiro lugar, o socialismo depende de um sujeito, como já dissemos. Logo, na ausência desse sujeito não há socialismo. Em segundo lugar, é impossível determinar a forma concreta que o socialismo assumirá, mas tão-somente sua ideia geral, abstrata. O problema todo consiste no fato de que, mesmo permitindo essa flexibilidade e indeterminabilidade teórica, o próximo passo da história continua sendo dependente da realização do socialismo. Isso equivale a dizer que enquanto não se realiza o socialismo, através da ação consciente de um sujeito, a história permanece estagnada (no interior do quadro escatológico marxista). O que equivale também a dizer que não há outra possibilidade senão o socialismo. Ou ainda, noutras palavras: embora o socialismo não seja uma conclusão mecânica do capitalismo, ele é uma conclusão necessária, ainda que não suficiente.

A contradição consiste, portanto, nisto: o socialismo como potencialidade não pode ser pensado, sob o ponto de vista da história como processo aperto, como como a única possibilidade inscrita dentro da história capitalista. A contradição reside, portanto, no fato de que o marxismo postula a abertura da história mas na hora de tirar as conclusões necessárias deste postulado cai no procedimento inverso, ou seja, a fecha. Isso se explica porque ele, enquanto corrente de pensamento datado, filia-se às ideologias do progresso e da linearidade histórica características do século XIX, não obstante o fato de que tais ideologias apareçam nele de forma menos rígida, passiva e formal do que aparecem nas suas formulações clássicas. Não importa que os marxistas gritem contra a acusação de conceber o socialismo como uma fórmula determinista – oposição inteiramente razoável, já que o socialismo não é uma fórmula, nem um dogma. Não obstante, permanece o socialismo como único horizonte inscrito potencialmente na realidade capitalista.



O meu desacordo com esse raciocínio é que a história é mais aperta do que isso, e ela oferece possibilidades variadas, muitas das quais nem mesmo conseguimos enxergar. Eis aí a contradição que vejo entre o conceito de socialismo e a premissa da história como processo aberto e, não obstante, fechado. O socialismo é uma entre várias possibilidades. Não reconhecer isso é cair em contradição. É preciso escolher: ou defendemos com unhas e dentes o socialismo, ou abraçamos a história em toda a sua complexidade, indeterminabilidade, multiplicidade. Eu fico com este último princípio (o que, vale dizer, não significa que eu não acredite no socialismo, ou que não o deseje: quer dizer apenas que mantenho meu campo de visão desimpedido para outras possibilidades que possam surgir). E não vale dizer, quando um mundo novo surgir, em tudo distinto do capitalismo, o seguinte: então é isto o socialismo! Se assim for, socialismo não significa nada, senão apenas a ideia de que um novo mundo é possível.
Postar um comentário