sábado, 8 de junho de 2013

Elogio à transgressão

Tudo o que está em oposição a essa nossa atual sociedade burguesa me atrai. Tudo o que, de alguma maneira, parece se opor a ela, mesmo que venha a ser por ela apropriado, fascina-me ou inspira-me simpatiza, respeito, admiração. O próprio ato de transgredir é, em si mesmo, um valor absoluto, mesmo quando eu o relativizo à luz de determinados momentos e fatos concretos nas quais toda transgressão, tal como todo dado real, se dá. Contra a sociedade do tédio, da mesmice, da monotonia, da pasmaceira paradoxalmente tumultuosa que fervilha nas grandes cidades-símbolos do capitalismo altamente desenvolvido, eriçada de edifícios que rebrilham em vidro e aço polido o ego exaltado, megalomaníaco, do homem capitalista; contra essa sociedade sem graça, no preciso sentido de ausência do (porque recusa o) lúdico, do prazer, do ócio criativo, a transgressão não é apenas um ato de rebeldia, não é apenas uma demonstração clara de que nem todos estão completa e irremediavelmente submetidos, ou de uma tomada de consciência e de uma retomada orgulhosa da autonomia e liberdade roubadas pela máquina que nos aniquila diariamente (não sem antes no utilizar em seu benefício e propósitos inumanos). A transgressão é também e sobretudo a prova de que os impulsos libertários, imaginativos, revolucionários (num sentido o mais amplo possível), presente nos corações e mentes dos seres humanos, não podem ser silenciados por completo, por mais massacrantes, sufocantes e renitentes que sejam as forças que procuram silenciá-los. Há uma força viva dentro de nós que não permite que a história estaque, que recusa todo dado, todo ser, e que procura fazer de tudo um devir, um estar. Mas por mais necessário e construtivo que seja esse impulso, a transgressão é quase sempre vista com maus-olhos, como uma força maligna, inerentemente corrompedora, conspurcável, depravadora, dissolvente, e como tal deve ser afastada, deve ser evitada. À ordem, hoje como ontem, confere-se-lhe um estatuto de dignidade e imprescindibilidade maior do que a própria história, e é isso que dá substância ao discurso que acredita que os seres humanos buscam a ordem por natureza. Define-se um estado do mundo, um modo de estar no mundo, como o normal. Contudo, toda normalidade só pode existir como dualidade; ou seja, tudo o que é normal só o é porque existe o seu oposto, a anormalidade. Dividir o mundo em normal e anormal, embora seja uma ideologia, é um procedimento que tem parentesco com a esquizofrenia: como podemos definir o que é normal e o que é anormal? Como posso agir muitas vezes anormalmente quando me considero uma pessoa normal, e vice-versa? Como impedir que o anormal exista e venha a se sobrepor ao normal? Considerar que existe uma dimensão anormal da existência, pouco importa se latente ou manifesta, é acreditar que o mundo está sempre doente, e que métodos profiláticos devem ser aplicados constantemente para evitar que a doença se propague. Aí entra os mecanismos de controle que toda sociedade lança mão para proteger sua parte sadia. Invariavelmente toda transgressão social esteve associada a essa parte doente, como se se tratasse de uma faceta corrompida e insidiosa que deve, por isso, ser eliminada. Em primeiro lugar, toda analogia entre sociedade/cultura e natureza/biologia é enganosa, e sabemos bem a que tipo de equívocos ela conduziu. Em segundo lugar, se não fosse a transgressão não haveria história, não haveria sociedade, não haveria seres humanos. Estaríamos ainda absolutamente subsumidos à natureza, incapazes de transgredir o seu domínio. Não se pode, pois, definir a sociedade em termos de normal e anormal. Não existe um estado fixo, pronto, acabado, ao qual se pode atribuir o selo de normalidade. E ainda que existisse, o normal um dia foi anormal, o instituído um dia foi transgressor. A história é, ontologicamente, um encadear permanente de transgressões. É preciso transgredir. É preciso valorizar o transgressor. 
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