terça-feira, 11 de junho de 2013

Do que estava falando mesmo? Ah, da gentileza!

Observar a dialética das ideias e das ideologias é um prato cheio para qualquer investigador crítico da realidade social. É desconcertante como as ideias mudam rápido, cada vez mais velozes, como se o desenvolvimento de novas tecnologias fosse uma espécie de acelerador de partículas ideológicas. Este desconcerto não decorre, como se poderia imaginar, da velocidade estupefaciente típica com que se produz e circulam novas e velhas ideias numa sociedade que acostumamos a definir, de forma acrítica, como da informação. Não é disso que se trata, embora o ritmo alucinante com que as coisas mudam, com que as nossas pequenas certezas se esfumaçam diante de nossos olhos incrédulos, seja também parte ativa na produção do desconserto em questão. Aos olhos do cidadão pós-moderno – admitindo que essa terminologia não seja mera retórica vazia ausente de conteúdo e, assim, aponte efetivamente para um momento de transformação qualitativa da história (que não necessariamente significa a passagem de um modo de produção para outro, mas um marco no interior do modo de produção vigente) –, o ceticismo parece ser um princípio válido na medida em que a realidade não oferece mais parâmetros sólidos com os quais avaliar as situações, valorar as ações, fundamentar as opiniões. Tudo o que é sólido se desmancha no ar, e o mundo, tornado líquido, faz das nossas ideias a seu respeito também líquidas. O problema está no fato de que esse ceticismo não vem desacompanhado de outros princípios filosóficos. Uma postura cética é importante, por razões óbvias. Mas é algo muito diferente quando se é cético e cínico ao mesmo tempo porque se compartilha de uma visão niilista do mundo e, com isso, se permite uma postura oportunista em relação à ele. O ceticismo cínico e niilista sustentado para fins oportunistas parece-me uma postura típico-ideal de uma sociedade que recusa todo valor moral senão aqueles que justificam a aquisição e acumulação de dinheiro.

Quando digo que a dialética das ideias – se é que é correto chamar essa mudança permanente e cada vez mais célere de dialética – gira hoje num ritmo alucinante que desconcerta a todos nós, sujeitos viventes neste mundo, refiro-me a isto: às contradições, aos paradoxos, às inconsistências e incoerências que essa dialética produz. É desconcertante perceber – quando nos aventuramos para além da tranquilidade reconfortante das nossas meias-verdades, das nossas opiniões impensadas e quase sempre infundadas, e nos colocamos num plano mais elevado, onde a visão pode alargar-se em direção a horizontes maiores – o quanto é contraditório o nosso discurso, o quanto pontos de vistas e premissas absolutamente antagônicas convivem perfeitamente bem dentro de um mesmo argumento (e de uma mesma pessoa ou instituição social) sem se digladiarem e se anularem. O comportamento do indivíduo contemporâneo talvez possa ser definido como uma espécie de esquizofrenia social: por que não há mais bases seguras a partir das quais avaliar modos de ser e de agir, não dá pra dizer se alguém é bom ou mau, se age certo ou errado, e isso leva a uma condição de esquizofrenia de tal sorte que cada um de nós convive com identidades distintas dentro de si – somos todos psicopatas e benfeitores em potencial. Pode-se alegar que isso sempre foi assim – que sempre fomos assim, que a dualidade é uma condição humana. Pode-se, sem dúvida. Ora, agir no cotidiano é uma condição humana, e a ação típica no cotidiano é sempre limitada por contradições insanáveis. Ninguém age cientificamente no cotidiano, e nem acho que isto seja possível ou desejável. O fato é que a insegurança ideológica à qual estamos imersos hoje em dia tem servido perfeitamente, por uma incrível coincidência, à manutenção da ordem e à satisfação dos interesses por trás desta ordem. Por isso, para além do desconcerto suscitado pelo tempestuoso turbilhão de ideias, opiniões, crenças, atitudes, comportamentos, que caracterizam a nossa incerta e instável sociedade global, é preciso ver que nem todas as pedras podem ser arrastadas por esse vendaval, e que algumas delas permanecem solidamente assentadas; é preciso ver, portanto, que, sob a superfície agitada, mantêm-se plácidas as águas profundas do mar.

Em suma, para sintetizar tudo isso, o que estou querendo dizer aqui é que a diversidade ideológica que caracteriza a contemporaneidade é uma ilusão, é uma aparente, embora uma ilusão e uma aparência necessárias. Se formos capazes de ir além delas para encontrar, em seu âmago, aquilo que lhes é essencial, aquele desconcerto ao qual me referi será menos desconcertante, por assim dizer. Todas essas opiniões e crenças e ideias não são gratuitas. Existe uma base real sobre a qual elas surgem e se desenvolvem, muito embora não sejam desta base uma consequência direta, unilinear e inevitável. Dizer isso não é novidade; trata-se de um ponto pacífico para o pensamento marxista e sociológico não idealista. Mas acredito que nem sempre se pode avaliar uma ideia à luz da base social em que ela floresce. Elas jogam entre si, lutam entre si, muitas vezes de forma tão distante das estruturas sociais objetivas que parece realmente não haver ligação nenhuma entre ideia e realidade.

Todo esse movimento complexo entre ideias/realidade, fatos/explicações, valores/comportamentos, etc., talvez possa ser melhor visualizado através de um exemplo concreto. É disso que se trata aqui: o conceito de gentileza enquanto imperativo moral. Muito em voga atualmente, a gentileza virou uma espécie de bandeira que se levanta por um mundo melhor, sem que seja necessário pautar esse mundo novo pela luta coletiva e revolucionária, pela organização e mobilização de classe, por uma palavra-ordem que aponte para uma transformação radical, tal qual o socialismo. Não é a toa que essa bandeira surge num contexto de individualização extrema dos fenômenos que acontecem em sociedade, de suposto fim das metanarrativas, de fragmentação da realidade em um mosaico de cotidianos não articulados por fios comuns. Mudar o mundo hoje, quando as utopias coletivas parecem ter chegado ao fim, é responsabilidade individual, de cada um de nós, através de pequenas ações cotidianas, no trabalho, na escola, em casa, no bairro. É evidente que alterações nos comportamentos individuais produzem transformações que são propagadas por ondas concêntricas, que se acumulam, represam, extrapolam limites, e que acabam configurando padrões mais gerais. No entanto, pequenas alterações que desembocam em grandes alterações (ou alterações significativas) têm acontecido desde que o capitalismo é capitalismo, e desde que uma alternativa a esse sistema foi proposta, sem, no entanto, resultar numa transformação qualitativa essencial que, segundo a terminologia marxista, chamaríamos de superação do modo de produção vigente.

A despeito de um certo determinismo histórico, e de um objetivismo material, presentes na teoria marxista, o que o socialismo científico propôs de tão inovador para a história ideológica da humanidade é precisamente a possibilidade dos seres humanos tomarem as rédeas de seu próprio destino, ou seja, parar de contar com transformações sociais cujo sentido eles não têm controle, para que eles próprios assumam conscientemente esse papel, que um dia foi dado à Deus, à natureza ou à Razão. Se isso é possível ou não, pouco importa para a nossa discussão aqui (o que é mais utópico, a afirmação de que os seres humanos chegaram a um estágio tal do seu desenvolvimento que se lhe tornou possível assumir o papel de demiurgo da história, ou que esse papel é impossível, dada a inalcançável complexidade das tramas que formam o tecido social?). O que importa é que a ideologia das ações individuais ressurge e ganha enorme força no contexto atual, quando as esperanças perdidas com as utópicas metanarrativas chegaram, supostamente, ao fim. Como se vê, isso não é um acaso. O indivíduo isolado é novamente chamado a fazer história; é novamente investido da responsabilidade pelo destino de todos, embora reste a ele apenas esperar que todos se comportem como ele. Assim, a contaminação e o esgotamento das nossas reservas de água não é articulado, ao nível teórico, com um modelo global de produção e consumo, mas tão só com o consumo individual, ou melhor, o consumidor final. Salvar os rios é uma tarefa minha e sua, e ninguém espera que eu altere a, ou me desvie da, minha rotina diária para isso: querem que eu salve os rios a partir do meu trabalho, da minha vida privada, dos meus momentos de lazer. Se esse ideal não é uma nova utopia, mas se, ao contrário, ele é considerado realista, factível, exequível, está aí justamente a prova de que se trata de uma utopia com bases reais, ou seja, uma ideologia que cumpre uma função: desacreditar e desautorizar outras formas de intervenção na realidade. Evidentemente, não estou dizendo aqui que não podemos ou não devemos preocuparmo-nos em consumir com responsabilidade, em imprimir uma certa ética em nossas ações individuais, cotidianas. Ignorar que podemos e devemos agir assim (em conformidade com as mudanças que buscamos a longo prazo) a partir de agora é incorrer ou em um messianismo, e esperar pelo dia da Segunda Vinda, quando os bons se mostrarão bons e os maus se mostrarão maus e tudo será magicamente corrigido, ou é se posicionar de forma cínica e oportunista, pregando modos de comportamento segundo os quais não se está disposto a agir consonantemente. É preciso ser, contudo, cético e realista em relação aos limites de toda ação individual que não se aglutina consciente e ativamente num corpo coletivo amplo. Em tese, uma ação não exclui a outra, mas antes a complementa: cada uma tem seus limites e seus campos de atuação específicos.

Para as pequenas narrativas de hoje, não há espaço ou razão – já que a história teria demonstrado a sua ineficácia – para outros meios de mudança social que não a conscientização e a ação individuais. O que é interessante nisso tudo é como a dialética das ideias se realiza: a crítica às metanarrativas, a demonstração de seus limites, a procura por novas bases para agir em sociedade, são válidas e trouxeram novas perspectivas e novos problemas que enriqueceram a experiência contemporânea; mas, por outro lado, foram apropriadas, por assim dizer, por forças conservadoras, arrastadas no torvelinho dos conflitos sociais e ressignificadas em armas ideológicas para serem de novo lançadas no campo de batalha. Todas as ideias, que só podem surgir em sociedade, estão submetidas, invariavelmente, à luta que se trava no interior de toda sociedade, não sendo nenhuma delas neutra. Mas o ponto ao qual procuro chamar a atenção aqui é que as ideias não surgem apenas como armas ideológicas (disse “apenas” porque há também ideias que surgem e são pensadas deste modo desde o início), mas são disputadas e apropriadas pelos sujeitos em disputa (sejam eles classes, grupos, ou quais categorias forem), ao mesmo tempo em que são instadas a se pronunciarem sobre o mundo que as cerca.

Assim acontece com o preceito moral da gentileza. Não que a bandeira da gentileza tenha sido em algum momento revolucionária. Ser gentil é um truísmo lógico. Todo mundo quer ser alvo da gentileza alheia, o que impõem o imperativo que todos sejam gentis. Não é assim que acontece na prática. E isso não porque por mais que desejamos o bem somos vítimas constantes de um nosso lado obscuro – instintivo ou pecaminoso, tanto faz. É por causa das condições sociais em que nossas ações estão dadas. Não basta, portanto, querer ser gentil. Posso dar o meu assento para um idoso sentar no ônibus, mas isso não muda o fato de que o transporte público é de péssima qualidade. Posso cumprimentar o porteiro do prédio, mas isso não muda o fato de que ele segue sendo um trabalhador mal pago e explorado. Posso pagar um café para o mendigo que fica todo dia em frente à padaria, mas ele continuará sendo mendigo, não importa quantos cafezinhos lhe pague. Além disso, nem sempre é possível colocar um sorriso no rosto, quando na cabeça só temos preocupação, angústia, insegurança, raiva, revolta. Esses sentimentos, que medram tão livremente nos corações das pessoas, submetidas como estão ao massacre diário de uma rotina estafante e dissaborosa, não podem ser apagados simplesmente porque existe um imperativo moral que recomenda observar a gentileza. Ao contrário, a grande maioria das experiências da vida cotidiana os reforça. Assim, levantar a bandeira da gentileza não tem outra finalidade do que tornar menos cruel e brutal uma existência em tudo cruel e brutal; serve como paliativo, como analgésico que combate efeitos e não causas, ou como sucedâneo do mundo melhor que queremos mas que não encontramos na realidade.

Isso significa que devemos nos entregar à barbárie completa? Absolutamente não. Por mais que a gentileza seja só apenas uma petição de princípio que não encontra meios reais de se efetivar, o princípio continua valendo por si mesmo, tal como a igualdade, a liberdade, a honestidade, etc., são princípios válidos por si mesmos. E mesmo enquanto princípio, a gentileza não é, assim como nenhum outro princípio o é, desprovida totalmente de implicações concretas, reais. Nesse sentido, a bandeira da gentileza possui um lado progressista: por mais que ela seja incapaz de alterar substancialmente (ou mesmo quiçá superficialmente) nossa realidade social, ela surge não necessariamente como arma ideológica cuja finalidade é preservar essa realidade social, mas surge antes como uma reação honesta a um contexto humano cada vez mais desumano; é neste contexto, onde o individualismo, o isolamento, a competição, beiram as raias da loucura, que alguém resolve levantar a bandeira em prol da gentileza. Isso vale também para a campanha por mais amor em São Paulo, por exemplo. E a despeito disso, a gentileza também assume a forma de um entrave que barra formas de lutas mais efetivas, mais coletivas, uma vez que pressupõe as ideologias do fim da história. A beleza da dialética da ideologia da história, neste caso, é que uma vez feita a defesa da gentileza e do amor com base num contexto ideológico onde as grandes narrativas sociais não tem mais lugar, essas grandes narrativas não podem voltar a se colocar no cenário histórico sem incorporar os elementos críticos colocados por suas ideologias inimigas.

Portanto, a reação se faz situação, que se faz reação, assim por diante, sem esquecer que toda reação é também situação, e toda situação reação. Todo ente, real ou imaginário, é ambíguo, ambivalente. Por fim, uma outra constatação interessante com relação à questão da gentileza é que hoje ela começa a ser combatida por outras ideias: se durante as últimas décadas o voluntarismo, a solidariedade, o engajamento individual foram exaltados, juntamente com ONGs, trabalhos voluntários, doações financeiras, hoje esse tipo de apelo sofre a acusação de ser politicamente correto – isso sem que a gentileza seja completamente abandonada; é isto que me parece esquizofrênico na nossa sociedade pluralista em termos de vozes. Contra a bandeira da gentileza, hoje o indivíduo comum que se crê mais conectado com seu tempo, que acha que surfa na vanguarda das classes médias, é aquele que ironiza o politicamente correto. Ao fazer isso, ele não faz mais do que cair, dentro de um novo contexto histórico, de novo nos postulados mais intrínsecos que o capitalismo engendra enquanto ideologia própria: competição, insensibilidade em relação ao outro, individualismo, cinismo. Prega e reforça, a barbárie, mas também nos lembra ou nos faz ver o quanto é limitado, do ponto de vista de uma superação real dos problemas históricos, o bom-mocismo da gentileza.
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