quarta-feira, 19 de junho de 2013

Carta aberta aos recém-chegados

Nota de esclarecimento: deixo aqui minha manifestação de solidariedade aos companheiros do PSTU, hostilizados indignamente por determinados setores que se somaram tardiamente às recentes manifestações que tomaram conta do país, e a todos os demais companheiros que tiveram suas bandeiras aviltadas, sejam elas quais forem. Não dialogo aqui com um partido em especial, nem com um movimento político, e nem com uma classe específica. O papo aqui é com os indivíduos que compartilham das ideias que justificam e fornecem o motivo para as ofensas em questão. Essas ideias não pertencem a determinadas classes ou organizações em particular. Elas são compartilhadas por indivíduos que ocupam posições diferentes e, muitas vezes, antagônicas na estrutura social. Se você se identifica aqui com as ideias contra as quais se volta a minha crítica, é para você que eu falo. Compreendo também que nem todos vocês sejam radicais ao ponto de agredirem fisicamente algum militante portando bandeira. Mas basta o fato de existir pessoas como vocês, compartilhando as ideias que vocês compartilham, para que atos extremos surjam como consequência dessa existência; ou seja, chegar às vias de fato é simples consequência de uma posição anterior, menos radical, de modo que, portanto, não existe uma diferença qualitativa nem uma dualidade entre a posição menos radical e a sua consequência extremista; existe apenas uma diferença de grau. Por fim, para que não haja dúvidas, meu interlocutor aqui é o cidadão não-politizado e não-organizado, que nunca participou de qualquer movimento coletivo, e que acaba de chegar à cena política impulsionado pelo rico momento histórico pelo qual atravessa o Brasil.

* * *

Estou absolutamente indignado com o rumo que as manifestações de massa no Brasil tomou. Quero acreditar que ainda há tempo de corrigir o curso; que ainda é possível recuperar o sentido de uma luta que foi, literalmente, sequestrada. Acima de tudo, estou enojado com o reacionarismo de uma parcela da população brasileira, fiel à visão de mundo pequeno-burguesa. Estou enojado com as agressões e ofensas que militantes honestos e abnegados, que dariam a vida por aqueles que os hostilizam, sofreram justamente num momento em que era para serem apoiados, ouvidos, fortalecidos. E, antes que me acusem de ser militantes do PSTU, poderia elencar aqui uma série de desacordos com ele, todos eles de caráter teórico e estratégico, jamais de caráter moral. A última coisa que o cidadão-pagador-de-impostos – um analfabeto político que, de hora pra outra, se acredita um revolucionário profissional e se dispõe a dar aulas de civismo (é assim que eles veem as passeatas; manifestações cívicas, exercício de cidadania) – pode acusar o PSTU é de oportunismo.

Quem é oportunista aqui? Um partido construído por gente que lutou contra a ditadura, que não se vendeu à corrente majoritária conciliatória e pequeno-burguesa do PT e que foi expulso por isto, que se colocou ao lado de todas as lutas populares deste seu surgimento; ou quem resolveu sair de casa só agora, sem nunca ter participado uma única vez de um protesto na vida, sem jamais ter se organizado num coletivo de bairro que seja, e já acha que está pronto para mudar o mundo? Que arrogância é essa? Antes de tudo, se essa indignação e vontade de mudança é sincera, tenham respeito por um partido que sofreu todo tipo de repressão e, ainda assim, nunca abaixou sua bandeira; ouçam e aprendam com a sua experiência de luta, que pode muito bem vir a calhar para que vocês, marinheiros de primeira viagem, não caiam em erros banais e grosseiros, nem nas artimanhas marotas das elites políticas, midiáticas e econômicas.

Não se trata apenas do PSTU. O mesmo vale para outros partidos de esquerda, que também foram vilipendiados por boçais proto-fascistas – indivíduos ignorantes social e politicamente, salivando preconceito, cujos ressentimentos servem como veículo ideal para partidos e movimentos autoritários. O mesmo vale para qualquer movimento social que tenha tido – ou poderia ter tido – sua bandeira insultada (com tantos exemplos de comportamentos machistas e homofóbicos manifestados nas passeatas, não teria sido surpresa que os movimentos LGBT e de mulheres, por exemplo, tivessem sofrido a mesma hostilização). Porque o problema desses revolucionários de Facebook não é exatamente contra uma determinada bandeira, e sim contra a cor das bandeiras socialistas. O problema não é exatamente ser o PSTU um partido, porque não se trata simplesmente de uma revolta contra todos os partidos em geral. O problema é o PSTU, enquanto partido socialista revolucionário, lutar por ideais que esses setores conservadores desprezam. O problema é o que a bandeira vermelha simboliza: a luta pelo fim da exploração, pela acesso a terra, contra a propriedade privada, por uma verdadeira democracia.

Existe um ressentimento contra todos os partidos? Existe. Mas duvido muito que esses anticomunistas em potencial deixarão de votar em seus candidatos e partidos políticos nas próximas eleições. A questão, portanto, é: se por um lado existe um rechaço a todos os partidos de modo geral, por outro lado, tal rechaço é feito de forma seletiva; por que essa seletividade? Se alguém levantasse a bandeira do PSDB na passeata seria também e tanto quanto rechaçado? Talvez sim; não é impossível. Mas e se fosse um partido neofascista, do tipo do novo ARENA, que se apresentasse como uma terceira via, nem capitalista, nem socialista, possivelmente fascista, insuflando os desavisados de nacionalismo, ordem e progresso – seria este partido também rechaçado? Eu tremo de medo ao imaginar a resposta para esta pergunta. E aqui entra outra questão: por que em toda manifestação popular, em toda luta coletiva, de massa, voltada para os interesses dos trabalhadores e dos mais pobres, nunca apareceu uma bandeira dos partidos de direita? E, igualmente, por que em toda manifestação de caráter popular despontam sempre bandeiras vermelhas, seja de partidos, seja de movimentos sociais? Cadê o oportunismo?

Voltando ao tema do oportunismo, como podem ser tão hipócritas? Esse governo que aí está, seja situação ou oposição, e contra o qual vocês agora se voltam, é o governo de vocês e não dos militantes de esquerda. Se vocês estão bravos com a situação social deste país, voltem-se contra aqueles que estão no poder, avalizados pelo voto de vocês mesmos. E o que exatamente significa “estar bravo com a situação social deste país”? O que é, para vocês um problema, não necessariamente é para os outros; ainda mais: não necessariamente é um problema para o Movimento Passe Livre. Se há oportunistas aqui, estes são vocês, que pegaram carona num movimento popular, com uma pauta específica e centrada na luta por um direito que é do interesse, sobretudo, dos trabalhadores. Não só pegaram carona e usaram do movimento para apresentar uma pauta própria (suponhamos que vocês tivessem uma pauta própria e bem definida), como procuraram jogar para escanteio a causa principal. Não digo que vocês fizeram isso conscientemente. Muitos de vocês acham que estão somando forças, alargando horizontes, enriquecendo propostas. Mas não estão. Primeiro porque vocês, não entendo nada de luta coletiva, desconhecem a importância de uma organização disciplinada e de uma pauta claramente definida. Segundo porque muitas das pautas que vocês pretendem agregar são incompatíveis com a pauta do movimento em si e com os interesses que essa pauta representa, ou seja, os interesses dos trabalhadores. Não é possível trazer todos e tudo indistintamente para uma mesma luta. Se nos unimos agora, foi em torno de um ponto comum: a revogação do aumento da tarifa. E é só. Trata-se de uma união meramente tática. Não esperamos que vocês vão mais longe do que isso conosco. Vocês perfilar-se-iam conosco pela estatização do transporte público, por exemplo? Portanto, essa luta não é sobre seus interesses, suas necessidades, seus anseios. É sobre os interesses, necessidades e anseios dos trabalhadores.

Claro que podem existir – e efetivamente existiram e ainda existem – partidos oportunistas cuja bandeira também é vermelha. Entretanto, não é a bandeira vermelha que, por si, indica oportunismo. Ao contrário, é muito mais provável que o oportunismo esteja na bandeira azul dos democratas liberais, na verde dos ecocapitalistas, etc. Mas não é essa a questão. A questão é: a compreensão de quem é quem no campo da política e na luta de classes só se resolve na prática, no embate e no debate, na agitação e na denúncia, na propaganda e na ação concreta. Sob este ponto de vista, deveria ficar muito claro, para quem tem um conhecimento mínimo de histórica política, que o oportunismo não é uma condição inerente a todo partido e a toda política. Há diversas formas de fazer e diversas formas de conceber a política e, portanto, o partido. Nem todos os partidos são iguais. O oportunismo é o traço principal que iguala todos os partidos que jogam dentro dos limites da ordem institucional liberal-democrática, seja tal partido um PT, seja um PSDB. Quem quer romper com essa ordem, quem não joga segundo suas regras, está muito menos propenso ao oportunismo, à falta de princípios, ao clientelismo, ao toma-lá-dá-cá. E como para saber quem é quem nesta guerra é necessário olhar para a realidade, observando como os partidos se comportam na prática, então essa compreensão só se manifesta através do debate. E para haver debate é necessário que haja liberdades democráticas mínimas. Portanto, você que é intolerante e intransigente, que exige que se abaixe esta ou aquela bandeira, você antecipadamente se coloca numa posição de impossibilidade de entendimento. Sem entendimento não há tomada de posição consciente possível, ficando assim facilmente aberto o caminho para que você abrace movimentos e bandeiras (veja só, bandeiras!) que satisfaçam seus medos mesquinhos e seus preconceitos estúpidos. Isso já aconteceu antes na história, já aconteceu aqui no Brasil também, e não vamos deixar que aconteça de novo.

Assim, o que deveria ser a característica fundamental de movimentos populares, espontâneos e de massa, é a sua diversidade, sua pluralidade de vozes – e é justamente contra isso que você atenta. É nessa hora que todas as bandeiras devem ser levantadas. É nessa hora que se revela quem é quem na luta de classes. Que se testa as capacidades e as habilidades desta ou daquela organização em conduzir o movimento através de formas de ação eficazes, de propor soluções às dificuldades que surgem, de organizar e mobilizar as massas. Para isso acontecer, como já disse, deve haver debate, deve haver liberdade de organização e de expressão. Deve haver liberdades democráticas mínimas. E, algo muito curioso, é o fato de que você, que se opõe à bandeira vermelha, nem desconfia de que as liberdades democráticas que lhe possibilitam sair às ruas para protestar foi garantida por esta mesma bandeira vermelha. Se não fosse a luta dos socialistas e comunistas do mundo todo, a luta histórica dos trabalhadores, não haveria a liberdade da qual você se vale; não haveria classe média nas ruas exigindo menos impostos, repressão ao crime organizado, combate à corrupção. Sabe por que a nossa bandeira é vermelha? Porque ela carrega o sangue de muitos companheiros que morreram na rua contra as forças que você apoia para garantir um direito do qual você se vale. Como você espera contribuir para uma mudança positiva se você se coloca contra um direito básico, contra o direito à livre associação e expressão? Porque é isso o que você faz: ao exigir que se abaixem as bandeiras você não está se colocando contra um determinado partido, mas contra direitos fundamentais conquistados com a dura luta feita por partidos que, curiosamente, você despreza. Assim, o que você quer é retroceder aos tempos sombrios do autoritarismo!

Para resumir, você, recém-chegado, é bem-vindo, desde que chegue – como é mesmo que diz o bom malandro do samba? – no sapatinho. Saiba ouvir, observar. Tenha paciência e humildade para aprender. Deixe de lado essa arrogância toda. A arrogância é a irmã da hipocrisia, que é a mãe do oportunismo. E se mesmo assim você não concordar conosco; se mesmo assim você achar que estamos errados, que tudo o que fazemos e dizemos é burrice, idealismo, infantilidade. Vá lá, você está no seu direito. Mas, então, tenha a coragem e a decência de parar de se esconder por detrás desta máscara mal disfarçada de povo e desta ostentação ufanista ridícula de símbolos nacionais. Seja coerente com sua ideologia política, porque ela não é nova; não é a primeira vez que ela aparece na história, nem você é o inventor da roda: ela chama-se fascismo. Pode levantar a sua bandeira. Aí sim, às claras, a gente resolve nossa oposição nas ruas.
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