quinta-feira, 9 de maio de 2013

Totalitarismo

Com efeito, as elucubrações teóricas que deram origem ao conceito de totalitarismo são pseudocientíficas e se sustentam sobre argumentações bastante frágeis. Grosso modo, elas partem de premissas não demonstradas (e não demonstráveis), como a crença de que as sociedades ocidentais democráticas (o que, para esses pensadores, pode ser considerado uma redundância, já que o Ocidente, eufemismo para EUA e Europa do Norte, lhes parece intrinsecamente democrático) são baseadas na liberdade e na igualdade emanadas pela soberania popular. Tal afirmação é discutível em uma série de aspectos, e não há necessidade de demonstrar aqui que se trata de um preconceito. Assim, também, outras formas de preconceito conferem a substância a partir da qual partem as teorias do totalitarismo: a oposição entre Ocidente e Oriente é uma delas, uma oposição dicotômica e abstrata que, de um ponto de vista rigorosamente científico e histórico, não quer dizer absolutamente nada. Outra forma de preconceito é a própria dicotomia enquanto estrutura lógica que atravessa, de cabo a rabo, todas as formulações dessa corrente. Entre os vários exemplos de raciocínio dicotômico que podemos encontrar nela, um é fundamental: a oposição diametral e absoluta entre democracia e totalitarismo. É curioso notar como tais preconceitos (que, como todo preconceito, não são questionados mas admitidos tacitamente pelos produtores de discurso e que conformam as premissas sobre as bases a partir da qual veem e compreendem o mundo) correspondem quase que perfeitamente às necessidades ideológicas da sociedade capitalista democrática e, sobretudo, norte-americana (e semelhante coincidência é ainda mais digna de nota quando vista à luz do contexto político internacional durante a Guerra Fria).

Em todos os sentidos, as teorias do totalitarismo não são ciência, mas ideologia sistematizada e racionalizada cuja finalidade é, ao procurar aparecer como ciência, também ideológica. Apenas uma única representante dessa corrente é digna de ser levada à sério, embora com ressalvas: a desenvolvida por Hannah Arendt. O resto é pura propaganda imperialista, especialmente norte-americana. Ao fazer tal afirmação não pretendo isentar o comunismo soviético de críticas: isso seria cair no extremo oposto da teoria do totalitarismo, que igualmente, pela sua própria natureza, é incapaz de olhar criticamente para si mesmo (outra característica essencial dessas teorias é, portanto, seu olhar etnocêntrico). O que não se deve e não se pode fazer é subsumir fenômenos histórico-sociais tão distintos quanto o fascismo e o comunismo sob uma mesma categoria, ainda que certas evidentes diferenças superficiais sejam preservadas. Além disso, as teorias do totalitarismo, partindo de conceitos abstratos e ideais como "democracia", "liberdade de expressão", "igualdade jurídica", "soberania popular", mostram uma cegueira total em relação à própria realidade social e política que elas tomam como parâmetro para julgar as sociedades totalitaristas (por coincidência, essa realidade social e política é a mesma em que seus autores vivem e escrevem). É por isso que se mostram tão relutantes a analisar, por exemplo, as relações que suas sociedades democráticas estabelecem, sem qualquer pesar moral, com regimes ditos totalitários (não apenas estabelecem com elas relações, mas, com efeito, até os criam em seu próprio interesse).
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