sexta-feira, 10 de maio de 2013

Reflexões sobre o adolescente

Após uma década fora da escola, volto a ela, agora na qualidade de professor. E o que vejo? A mesma personalidade egoísta, vaidosa e mesquinha; os mesmos impulsos a explosões irracionais de fúria, sarcasmo e medo; a mesma tendência a comportamentos coletivos irrefletidos; a mesma individualidade autocentrada porém, paradoxalmente, estreitamente dependente da turba. Difícil encontrar uma existência mais contraditória do que a do adolescente. Este só tem realidade no coletivo, um coletivo onde a individualidade não tem lugar senão na figura do líder. Todavia, embora só exista no coletivo, o adolescente só pensa nele mesmo, só tem olhos para as suas próprias vontades, desejos e sonhos. É claro que falo aqui de maneira muito geral, e esta generalidade sem dúvida implica em problemas à objetividade da análise. Trata-se daquela generalidade típica do senso-comum: isola-se algumas características, com base na experiência pessoal, em função de determinados preconceitos, tomando-as por determinantes. E o que é determinante para mim pode não ser para você. Dependendo dos meus preconceitos e da minha experiência particular posso definir o modo de ser do adolescente como sendo de tal ou qual maneira.

Isso por um lado, pelo lado do sujeito. Abstraindo os diversos olhares possíveis temos que, por outro lado, pelo lado do objeto, não se pode pensar nenhum comportamento humano, mesmo o mais irracional e, aparentemente, instintivo, fora do quadro social e histórico em que se inscreve. O adolescente comporta-se, muitas vezes, como um bicho, mas nem por isso se trata de um tipo alheio à esfera do ser social. O modo de ser do adolescente está inscrito, sempre, em um determinado tempo e em um determinado lugar. Aqui, já encaminho o problema pela senda em que, segundo penso, deve ser respondido: a perspectiva histórica e sociológica, ou se se preferir, a perspectiva das humanidades em termos gerais. Basta, por exemplo, pensar o quanto deve ter sido diferente a adolescência dos nossos pais e avós em relação à nossa ou à dos nossos filhos. Por trás do comportamento de um adolescente contemporâneo esconde-se toda uma complexa teia de fenômenos sociais que são historicamente determinados. Portanto, de certo modo, não posso culpa-lo por ser assim ou assado, mas devo, antes, compreender porque é assim e não assado. Apenas alargando o olhar sobre o contexto social e histórico em que ele vive e age é possível compreender seu comportamento.

Mas o que me intriga, no momento em que escrevo este texto, é a diferença gritante que há entre a criança e o adolescente, mesmo num mesmo tempo, lugar e modo. A linha divisória entre o ser criança e o ser adolescente parece muito nítida, sob certos aspectos – não sob todas, naturalmente: penso aqui nos aspectos relacionados ao temperamento e à personalidade. Se é verdade que o adolescente segue sendo criança, ou melhor, infantil, em uma série de aspectos, a diferença de temperamento e personalidade entre ele e a criança, em sentido estrito, parece-me muito acentuada. A criança é de fácil trato, enquanto o adolescente interpõe entre ele e o mundo barreiras difíceis de franquear. A criança quase nunca mostra-se hostil, como o adolescente, ao contrário, é via de regra carinhosa e receptiva. O adolescente é mesquinho, vaidoso e egocêntrico, enquanto a criança é solidária e não conhece vícios como a vaidade. Ainda que se mostre hostil e autocentrada, é fácil suprimir esses traços na criança, ao passo que no adolescente não. É claro que se trata aqui de um adolescente datado e situado: estamos falando de um adolescente que nasce em determinado lugar, se relacionada em determinados espaços, vê o mundo e age sobre ele de determinada maneira. Falamos do adolescente de hoje, sem dúvida. E não falamos de todos, evidentemente, mas de um tipo ideal. O mesmo vale para a criança. As características sugeridas aqui são ideais no preciso sentido de que na realidade não aparecem em estado puro e, portanto, tampouco têm as fronteiras entre si absolutamente definidas.

Mas a diferença tão manifesta entre a criança e o adolescente – o primeiro ainda em processo de descoberta do mundo pela socialização, e o segundo aparentemente colocando-se na direção oposta – me faz pensar em questões ontológicas a respeito da passagem da infância à adolescência: o que faz com que em determinado momento do desenvolvimento de uma criança ela deixe de ser criança para se tornar adolescente? Essa passagem parece ser 1) rápida, imediata, e 2) descontínua, isto é, como se entre a criança e o adolescente houvesse um abismo que os separasse em entes em tudo distintos e opostos. Ressalve-se, contudo, que essa própria passagem não é determinada puramente por razões ontológicas. O fato de que ela seja rápida e antagônica é também social e histórico. Mas a diferença é tão radical e a ruptura é tão abrupta que a impressão que dá é que há também razões intrínsecas implicadas aí. Isso suscita velhas questões filosóficas: o homem é bom ou mau por natureza? A julgar pela relação criança-adolescente, o homem nasce bom e a sociedade o corrompe. Mas, admitido que isso seja verdade, outra pergunta se impõe: e o que é a bondade? O que é a maldade? Não é aqui o lugar de entrar nesse problema. A questão é: se sem dúvida há suscetibilidades de tipo inato, consideradas em si elas nada significam: é preciso um meio no qual possam vir a se desenvolver; mais ainda: o meio e o próprio modo de desenvolvimento podem transformar esta ou aquela suscetibilidade inata em alguma outra coisa completamente diferente de si mesma.

Chegamos assim ao cerne do problema: que forças são essas que existem em nossa sociedade contemporânea capazes de transformar a tal ponto o adolescente que, quando comparado à criança, ele surge como um ser completamente novo; ou seja: a criança e o adolescente são de tal modo diferentes que este não parece surgir daquele, mas antes ex nihilo. Não parece haver transição ou processo envolvido na passagem de um a outro. A pergunta que eu faço, portanto, é: quais são as causas sociais implicadas nessa ruptura tão profunda quanto rápida? Para traduzir essa pergunta em questões mais concretas, pergunto nos seguintes termos: o que transforma o adolescente nesse ser violento, competidor, insensível (quando não sádico), leviano? Parece, à primeira vista, que o adolescente incorpora, de forma transparente e direta, todos os valores cultuados pela nossa sociedade capitalista moderna: o individualismo, o niilismo, a competição, a agressividade. É interessante notar como o adolescente configura-se quase como uma versão caricata do homo economicus moderno: quer a vitória acima de tudo, não mede esforços e não observa escrúpulos para alcança-la; não tem qualquer respeito ou consideração por valores e vontades alheias à sua, os quais enxerga como simples obstáculos à consecução de seus próprios fins pessoais; não acredita que haja qualquer norma ou preceito que balize a busca dessas finalidades. (Essa vitória não necessariamente identifica-se com a vitória que busca o adulto (sobretudo dinheiro), em sintonia com os desígnios da sociedade capitalista. Pode ser simplesmente prestígio e status superior dentro do grupo ao qual pertence, uma vez que prestígio e status são capitais dentro cuja posse dão, para os membros do grupo, acesso aos bens considerados por ele valiosos.) O adolescente, assim como o homem capitalista, é um ser amoral e predador.
Postar um comentário