sexta-feira, 3 de maio de 2013

Para a crítica do pensamento marxista

O Estudo do fascismo e do nazismo oferece-nos um útil campo a partir do qual se pode problematizar uma série de conceitos e teorias presentes no pensamento marxista. Um desses problemas é o conceito de imperialismo. Outro problema que poderíamos levantar aqui diz respeito aos conceitos de classe e suas relações com a esfera político-institucional. Assim como acontece com o conceito de imperialismo, os marxistas costumam personificar as classes em entes abstratos: ao fazer referência às classes, à maneira de cada uma ser, estar, pensar e agir, os intelectuais marxistas geralmente homogeneízam-nas, tornam-nas entes monolíticos e unos, a tal ponto que chega a causar a impressão de que as classes são uma espécie de indivíduo que age conscientemente. 

Assim, pensando à luz do exemplo em questão, o fascismo muitas vezes é explicado como um regime político criado e implementado pela burguesia; ou como um regime político que, lhe sendo útil, foi por ela aceito; ou ainda como consequência de uma circunstância de crise social de magnitude tal que não resta à burguesia, incapaz de governar através das instituições liberais, senão a opção de abandonar a administração do Estado a um partido político capaz de governar “acima das classes”, impondo, assim, uma nova hegemonia a partir de cima e que preserve as bases da dominação burguesa. Na verdade, esses raciocínios não estão de todo errados: o que é errado é 1) excluir todo o enorme complexo de fatores explicativos de um fenômeno como o fascismo, reduzindo-o ao papel da burguesia e seus interesses, e 2) raciocinar como se a burguesia (ou o proletariado) fosse um sujeito consciente, livre, dotado de livre-arbítrio – ou seja, como se fosse uma pessoa. 

O conceito de classe é abstrato, de modo que as classes são uma abstração – mas uma abstração real: quer dizer, elas existem, porém não como seres pensantes e atuantes, e sim como uma espécie de lógica que estrutura a realidade. O fato de que as classes existam não quer dizer que se possa percebê-las agindo concretamente na realidade: o modo como elas existem só pode ser apreendido pela abstração. O mesmo vale, por exemplo, para o conceito de imperialismo. Portanto, explicar o fascismo em termos tais quais “a burguesia fez isso ou fez aquilo”, ou fazer dele um fenômeno quase que necessariamente produzido pelas contradições que o capitalismo engendra e que, sozinho, não consegue ele resolver, é um erro. Isso não significa que não é possível generalizar o comportamento dos membros de uma classe como um todo: quer dizer apenas que o sentido geral desse comportamento não está dado em cada membro ou setor considerado individualmente, mas é a síntese de uma infinidade de ações e motivações particulares que compõem, juntas, uma totalidade sui generis. Entretanto, tais ações e motivações não são absolutamente livres e gratuitas, mas estão determinadas pela lógica e pelas necessidades e possibilidades de uma determinada classe, de um determinado contexto histórico, social, cultural, etc. 

É isso o que são as classes: estruturas lógicas com existência concreta. São elas que fornecem a estrutura dentro das quais as infinidades de ações particulares dos sujeitos que as compõem agem. Dito isso, vemos que é possível explicar um fenômeno tendo por base teórica as classes sociais que o produzem. O que não é possível é personificar as classes a partir da explicação de determinado fenômeno. O fascismo não foi uma forma política por meio da qual a burguesia encontrou o meio para superar as contradições e as crises que ameaçavam devorá-la, muito embora a posteriori essa seja uma leitura possível de ser feita – ou seja, ainda que a burguesia não tenha lançado mão conscientemente do fascismo, visto a coisa retrospectivamente, de fato, o fascismo foi exitoso nesse aspecto. Cometer esse tipo de anacronismo é uma especialidade do pensamento marxista (como é possível perceber, faço aqui uma generalização, que, assim como a classe, não tem existência real, mas que, ao mesmo tempo, tem, uma vez que é a própria realidade que me fornece os elementos da generalização). 

Se analisarmos concretamente o fascismo veremos que, de início, apenas poucos setores apoiavam o movimento de Mussolini, basicamente por meio de contribuição financeira. O fascismo não era, nessa época, uma opção política para a maioria da classe capitalista. Alguns setores sentiam-se satisfeitos em ouvir as bravatas nacionalistas de Mussolini, mas seu programa político-econômico, bastante estatista e intervencionista, não empolgava. Por outro lado, à medida que a crise apertava o garrote sobre os lucros dos capitalistas, sobretudo dos pequenos, o discurso fascista angariava mais e mais ouvidos disposto a aceitá-lo. Além disso, embora a burguesia, como classe, seja a parcela da população mais poderosa e influente, ela não decide sozinha os rumos da sociedade. O que conta a seu favor e que a torna ainda mais poderosa é que a lógica da qual ela, a burguesia, é beneficiária, ou seja, de que a economia se organiza de modo capitalista, não é questionada, e, assim, mesmo governos que não se pretendem capitalistas acabam, de uma forma ou de outra, beneficiando os capitalistas ao gerenciar o capitalismo – isso significa que basta governar para o capitalismo para, de certa forma, governar para os capitalistas: a socialdemocracia, por exemplo, governa para os capitalistas porque procura gerenciar o capitalismo, embora se pretenda um governo das classes médias e trabalhadoras. 

O fascismo, antes da chegada ao poder, ainda que fosse considerado como uma opção por determinados setores da burguesia, essa opção não era nem unanimidade nem de todo desejável. Foram os acontecimentos reais que definiram como e quando a burguesia como um todo daria apoio total ao fascismo, e isso apenas quando este passou à qualidade de regime, ou seja, quando assumiu o pode de Estado. E, como dissemos, a burguesia não determinou sozinha esse processo: à medida que o fascismo se tornava consenso entre as classes médias e entre setores da classe trabalhadora, sobretudo rural mas também urbana, os setores da burguesia ainda reticentes não tinham outra escolha senão apoiar o movimento. Portanto, a burguesia nunca determina sozinha um fenômeno social: ela é parte na determinação do fenômeno, embora seja uma parte especial porque, afinal, cada classe tem seu lugar e sua função numa sociedade, o que significa que há diferenças entre elas e que tais diferenças se expressam no modo como elas determinam o fenômeno. 

Depois de instituído o fascismo, depois de construído sua hegemonia e seu consenso, a burguesia como um todo fechou com ele. Mas agora as condições eram outras: o fascismo havia mostrado efetivamente que a burguesia, notadamente seus setores monopolistas, só tinha a ganhar com ele. Contudo, cada setor experimentou de maneiras distintas o mesmo fenômeno. Portanto, para determinar a natureza do fascismo é preciso considerar, por exemplo, além do papel da burguesia na sua ascensão, a própria habilidade deste em explorar determinados sentimentos e ideais presentes na sociedade italiana enquanto nação. É preciso considerar, também, o papel ativo das camadas sociais diretamente ligadas à máquina do Estado, como a burocracia e o exército, ou, do mesmo modo, a posição das classes trabalhadoras em relação ao fascismo e sua relação com seus organismos representativos, como os partidos e os sindicatos. 

Pode-se perceber, portanto, o óbvio: todo fenômeno social é complexo e multideterminado. Nem toda determinação e toda causa, entretanto, se equivalem: o peso que cada uma possui só pode ser compreendido à luz do onde, do quando e do como elas se relacionam. Nada é mais mesquinho e enganador do que reduzir todo fenômeno a uma causa apenas, ou à ação de um único sujeito. Do mesmo modo, não se pode tomar categorias sociais abstratas como sujeitos conscientes.
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