sexta-feira, 10 de maio de 2013

O que nós temos a ver com a tragédia em Bangladesh?


Aparentemente nada, é o que muitos diriam. Afinal, trata-se de um outro país, em um outro continente, com outras autoridades e outras leis. Sem dúvida que, deste ponto de vista, nada temos que ver com essa tragédia. A nossa culpa – e quando falo em “nós” me refiro ao mundo todo e, sobretudo, ao lugar que nós, ocidentais (especialmente os ocidentais do norte), ocupamos nesse mundo – se manifesta nas relações econômicas que estabelecemos com países como Bangladesh. Na verdade, falar em um pronome geral e plural como é o caso do “nós” é enganador. Com efeito, uns têm mais culpa do que outros, e muitos não têm sequer culpa alguma: o trabalhador brasileiro ou inglês, por exemplo, pouca ou nenhuma culpa tem do fato – são tão vítimas desse sistema quanto os trabalhadores bengaleses. A nossa culpa, no sentido a que me refiro aqui, pode ser traduzida como uma culpa da humanidade em geral por ainda não ter conseguido romper com um modo de produção absolutamente desumano e destrutivo como o capitalismo. Pior ainda, parecemos estar caminhando, contraditoriamente, no sentido oposto a essa ruptura: métodos de produção arcaicos, aparentemente superados, estão sendo novamente reempregados em grande escala. O desastre em Bangladesh é consequência dessa tendência. 

Houve um tempo em que a China era a grande reserva de força de trabalho da economia mundial. O país ainda não deixou de ser, mas hoje as coisas se mostram um tanto diferente quando do início do processo de reestruturação produtiva. Tal processo, que teve início nos anos 80 e ganhou impulso na década seguinte, se caracteriza pela expansão horizontalizada da cadeia produtiva, especialmente das grandes corporações transnacionalizadas. Isso significa que, atualmente, as grandes marcas que monopolizam determinados mercados não são mais do que isso: marcas. Para ser mais preciso, elas detêm, no limite, apenas marcas e ativos líquidos. O produção em si fica a cargo de uma série de empresas menores espalhadas por países de capitalismo dependente, como os do sudeste asiático, as quais fornecem a mercadoria acabada à empresa contratante. Se, antigamente, as empresas situadas nesses países produziam e forneciam matérias-primas para as empresas situadas nos países capitalistas centrais, cujo bem final estas últimas mesmas produziam, hoje aquelas produzem a própria mercadoria final da empresa detentora da marca, sob as especificações e controle direto desta. 

O lugar da China nesse sistema ainda continua sendo esse, embora ela esteja cada vez mais apta a criar e comercializar marcas próprias, não mais sob o controle das grandes companhias ocidentais. Contudo, à medida que o país desenvolve tecnologia e acumula estoques de capital na forma de uma indústria que produz mercadorias de alto valor agregado (computadores, máquinas, carros, etc.), os setores produtivos de menor valor agregado e, portanto, de menor margem de lucro são terceirizados para outros países da região. O crescimento da produção leva ao crescimento da renda nacional e, portanto, ao aumento do custo da força de trabalho, de modo que a China não é mais tão atrativa, em termos de valor da força de trabalho, quanto já foi, ou em comparação com outros países da região, bem mais atrasados tecnológica e industrialmente. Todavia, não é todo setor da produção que pode ser transferido para esses países. Os setores que empregam grandes quantidades de capital variável (força de trabalho) em relação ao capital constante (máquinas e instrumentos de produção), como é o caso da indústria de vestuário, terão retornos melhores quanto mais barata for a força de trabalho contratada. É por isso que Bangladesh, um dos países mais pobres do mundo, é hoje uma grande facção de confecção de roupas. 

Mas as grandes companhias detentoras de marcas como Zoomp, Levy, etc. não são atraídas apenas pela baixa remuneração salarial dos trabalhadores bengaleses, por exemplo, mas também por toda uma ampla gama de vantajosas condições garantida pelo poder público nesses países: fraca ou nenhuma legislação ambiental, fraco ou nenhum controle sobre os fluxos de capital, fraca ou nenhuma fiscalização no que se refere às condições e práticas trabalhistas. E tudo isso tem consequências humanas de enorme importância, como a falta de segurança no trabalho, tanto jurídica quanto física. O desabamento do prédio Rana Plaza, que até o momento contabilizou algo em torno de mil mortos, é uma dessas consequências humanas; é a síntese e a manifestação concreta das péssimas condições sociais, econômicas e políticas que estão dadas em países dependentes e subordinados no interior das relações globais da economia capitalista. Para satisfazer às necessidades implicadas nessa relação de subordinação e dependência, as empresas contratadas em países como Bangladesh devem violar as mais elementares normas de segurança, bem como os direitos historicamente garantidos aos trabalhadores assalariados. Soma-se a elas o Estado, que garante a violação dessas normas e direitos, em especial impedindo os trabalhadores de se organizar em sindicados. 

Toda a construção, bem como o uso do edifício em questão estava irregular. Os quatro andares superiores não poderiam jamais ter sido construídos porque a base do edifício não fora feito para suportá-los. Além disso, o prédio não havia sido feito para operar como uma fábrica, mas como fornecedor de serviços, de modo que a estrutura não aguentou o peso e a vibração das máquinas. Isso sem mencionar a falta de saídas de emergência e extintores de incêndio, por exemplo. A adaptação de fábricas em prédios têm se tornado comum em Bangladesh. Junto a essa tendência, e como consequência dela, têm aumentando proporcionalmente os desastres e acidentes: em novembro do ano passado, por exemplo, um incêndio em outro prédio-fábrica matou mais de 100 pessoas e feriu mais de 200. A fábrica Tazreen Fashion, situada em um prédio de nove andares, produzia roupas para grandes varejistas como Wal-Mart e Carrefour, assim como para conhecidas marcas como C&A. Desnecessário dizer que a causa do fogo foi as péssimas condições de manutenção do edifício. Do mesmo modo, o Raza Plaza abrigava empresas que produziam roupas para várias marcas mundiais famosas, como a Benetton Group e a Joe Fresh, e para lojistas como o Wal-Mart, que revende muitas dessas marcas. 

Essas grandes companhias se responsabilizam por tais acidentes, causados pela busca incessante por mais lucros? Evidentemente que não. Uma das vantagens que a terceirização da produção confere às grandes companhias transnacionais é desresponsabilizá-las em relação ao que acontece no âmbito das suas terceirizadas ao mesmo tempo em que lucra com isso. Sempre quando acontece acidentes de tais proporções, o roteiro é invariavelmente o mesmo: as grandes companhias alegam desconhecer as irregularidades das suas contratadas e, portanto, se eximem de toda a culpa em relação a elas; dizem que vão investigar as irregularidades e fazem ameaças vazias que sabemos servir apenas para desbaratar a opinião pública; as autoridades civis prometem instituir novos mecanismos de prevenção mas nada fazem. Mas não pense que a responsabilidade das grandes companhias é apenas indireta (devido às suas exigências de prazo e custo): elas não apenas sabem o que acontece no chão da fábrica das suas terceirizadas como, muitas vezes, elas próprias interferem diretamente na gestão dessas terceirizadas. No incêndio da Tazreen Fashion, por exemplo, o Wal-Mart atuou diretamente para barrar reformas no sentido de um incremento nas condições de segurança da fábrica. Um dia antes do Raza Plaza vir a baixo, rachaduras haviam sido identificadas no edifício, mas a Ether Tex, uma das maiores contratadas das multinacionais, ameaçou os trabalhadores de corte de salário caso eles não viessem a trabalhar por temer um desabamento. 

Sendo assim, a etiqueta de nossas roupas baratas não diz, mas elas trazem em si o sangue de milhões de trabalhadores asiáticos empregados na sua fabricação – assim como toda mercadoria esconde, em maior ou menor medida, o sangue e o suor dos trabalhadores que as produzem. O consumo cada vez mais frenético e a busca de custos produtivos cada vez menores tem criado uma situação trabalhista que imaginávamos ter ficado no século retrasado: trabalhadores sem direito à organização, sem proteção legal, trabalhando em jornadas típicas de trabalho escravo com remunerações baixíssimas. São esses trabalhadores que fazem a roupa que nós compramos aqui – muitas vezes sem ter necessidade alguma. E, então, ainda acha que nós não temos nada a ver com a tragédia dos bengaleses?
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