quarta-feira, 8 de maio de 2013

Nota sobre a direitização da política

Para pensarmos o novo lugar e papel que a direita adquire na contemporaneidade é preciso partir do pressuposto de que as transformações que estão na base dessa contemporaneidade são de tal ordem que marcam profundamente essa realidade e, ainda mais, determinam de fato um novo período, fase ou estágio no desenvolvimento da sociedade capitalista. Resgatar a história dos anos 70, 80 e 90 é inventariar uma série complexa de fatos, presentes em todas as esferas da vida social, cujos efeitos são essenciais para a construção desse velho-novo mundo. Seja na esfera da economia, da política, da cultura, do cotidiano; em todas elas encontramos transformações não meramente superficiais, mas de uma profundidade ainda não plenamente esclarecida. A direitização da política – uma das expressões que se referem ao fenômeno bastante evidente, em vigor desde fins da década de 70, caracterizado por uma guinada à direita no cenário político dos países capitalistas centrais – só pode ser apreendido à luz da totalidade desses processos de mudança social, uma vez que é ela própria tanto consequência como causa deles. Ou seja, essa guinada à direita surge como um dos aspectos da transformação geral pela qual passou a sociedade capitalista mundial a partir de fins dos anos 70, início dos 80. 

No âmbito da política, o sintoma mais eloquente desse processo de direitização dá-se com a ascensão eleitoral de partidos de claro cariz nazifascista, como o MSI na Itália e o FN na França, os quais haviam ficado relegados ou à clandestinidade ou à condição de partidos pouco ou nada expressivos desde o fim da Segunda Guerra. A ascensão desses partidos foi tamanha que, tanto o MSI quanto o FN, chegariam, na década de 90, a compor gabinetes com as forças políticas conservadoras menos radicalizadas e/ou a obter resultados eleitorais expressivos, especialmente em eleições locais/regionais. Essa retomada do nazifascismo, aparentemente enterrados com a derrota histórica de seus representantes clássicos, é ilustrativo do processo de direitização da política mundial, mas não é seu único sintoma. Como a própria expressão já deixa transparecer, trata-se de uma direitização que abarca a totalidade do espectro político, não limitando-se apenas ao campo da direita tout court ou da extrema direita. O próprio nazifascismo é apenas um entre outros representantes da extrema direita. O que se tem ao longo desse processo é toda uma guinada à direita (toda uma direitização) efetuada por direitistas clássicos mas também pela centro-direita (democracia cristã) e centro-esquerda (socialdemocracia) e, até mesmo, por certos representantes da esquerda (socialistas). O nazifascismo ressurge dentro desse quadro pela oportunidade que o contexto lhe oferece. Mas não se trata, portanto, apenas do nazifascismo. 

Na Europa e nos EUA uma nova agenda liberal surge e ganha espaço dentro das condições favoráveis abertas pela estagnação econômica, mas não apenas: outros fatores emergem aí, os quais são, na verdade, uma intrincada rede que deve ser destrinchada. Entre esses fatores estão, por exemplo, as relações imperialistas do centro com o Terceiro Mundo, e, em segundo lugar, a ruína do bloco soviético e o fim da bipolaridade geopolítica mundial. O fato é que um novo consenso liberal, conhecido como neoliberalismo, permitiu a ascensão de forças conservadoras à ribalta do palco político nos países capitalistas centrais. O modo como essas forças determinaram a implementação desse consenso nos países capitalistas periféricos é de fundamental importância para a compreensão da hegemonia mundial alcançada na década de 90. Tais forças conservadoras adquiriram uma tal magnitude que romperam com todo o consenso estabelecido no pós-Segunda Guerra, pautado no ideal de justiça social dentro da ordem capitalista, da colaboração de classes e do Estado como terceira parte e mediador das relações capital-trabalho. A direitização dos aparelhos político-partidários cuja base social deriva do consenso socialdemocrata está, portanto, intimamente ligada à força adquirida pela nova direita na Europa. Uma vez que os socialdemocratas, bem como os socialistas reformistas, haviam abdicado da perspectiva revolucionária, eles acabaram reféns da prática eleitoreira e, com isso, se viram obrigados a adotar certos pontos programáticos da nova direita para não perderem completamente suas bases eleitorais. Até mesmo uma parcela dos comunistas se voltou para a direita por meio de uma nova orientação chamada eurocomunismo.
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