sábado, 18 de maio de 2013

Marxismo e movimentos sociais: por uma nova síntese

Meditando sobre essas novas formas de militância política – os chamados novos movimentos sociais, típicos de uma sociedade que se convencionou chamar, por determinadas correntes teóricas contemporâneas, de pós-industrial ou pós-moderna – de repente vieram-me à mente certas ideias que antes parecer-me-iam esdruxulas. Tenho passado por verdadeiras inflexões ideológicas relâmpagos; ideias que antes cuidava serem irretocáveis hoje me parecem não apenas mais palatáveis, como de fato contributivas ao conhecimento da realidade e da história humanas. Deixei de lado um marxismo rígido, quiçá doutrinário, para adotar um marxismo flexível, aberto, sempre pronto a apropriar-se de todas as contribuições teóricas, ideológicas e culturais que me parecerem pertinentes. Esse é o intuito, na verdade. Há muita leitura a ser feita. Há muito preconceito a ser rompido. Mas o caminho já está dado. O certo é que o marxismo, por si só, não me satisfaz mais, independentemente das diferenças entre as várias versões que constituem essa corrente de pensamento moderno. Creio que semelhantes inflexões fazem parte do desenvolvimento intelectual de qualquer um. 

Digo isso porque, de supetão, compreendi que os chamados novos movimentos sociais têm muito a contribuir não apenas para a atividade política e para os processos de mudança social, mas também para a compreensão teórica da realidade social contemporânea. Contudo, semelhante compreensão não implica na exclusão dos pressupostos marxistas que estão profundamente arraigados em meu modo de ver o mundo. Trata-se aqui de uma relação dialética. Um fato inegável é que sem Marx não se compreende este mundo que aí está. Quem o negligencia in totum deixa de apropriar-se de uma ferramenta científica de ímpar proficuidade – mais do que isto: uma ferramenta absolutamente necessária. Não menos verdade é que o Marx por si só tampouco permite essa compreensão do mundo. A teimosia em explicar tudo através dos conceitos marxistas – para não dizer que a teoria marxista, por uma pré-disposição interna, emoldura-se em torno de princípios dogmáticos – é o tipo de atitude que mais me irrita entre os seguidores de Marx. Trata-se de uma corrente de pensamento bastante heterogênea para ser-me possível pintar as coisas aqui de forma tão generalizada, o que implica sempre no risco de cair em conclusões equivocadas. Mas de modo geral pode-se dizer que há dentro do pensamento marxista um impulso próprio em negar construções teóricas edificadas sobre outras bases que não a marxista. Há, ao menos, duas razões para isso: em primeiro lugar, porque o marxismo tende a cair em explicações monocausais da realidade; e, em segundo, porque ele funda-se numa perspectiva totalizante, ou seja, pretende explicar todo e qualquer aspecto da realidade a partir de certos pressupostos gerais, como, e.g., a luta de classes enquanto motor da história. 

Não era minha intensão inicial problematizar o pensamento marxista neste texto. Deixei escapar algumas críticas pessoais apenas para exemplificar a revolução pessoal pela qual passa meu pensamento. A palavra de ordem é: integrar o pensamento marxista a outras correntes de pensamento, por mais burguesas, liberais, formalistas, pós-modernas, ou qualquer outro epíteto que se possa imaginar. Senão integrar, ao menos não descartar nenhuma delas a priori, sem um exame detalhado de suas potencialidades. As correntes que exaltam os novos movimentos sociais, e que veem neles uma força histórica de mudança social que surge em substituição ao proletariado enquanto sujeito histórico próprio à época do capitalismo em expansão, podem contribuir em muito quando integradas à perspectiva marxista. Os movimentos sociais estão aí, são uma realidade objetiva, e em muitas áreas e contextos substituíram as classes trabalhadoras como protagonista dos processos de mudanças sociais. Não são, naturalmente, perfeitos, infalíveis. Do ponto de vista marxista, os novos movimentos sociais são problemáticos, têm limites. Mas, do ponto de vista dessas novas formas de organização e luta políticas, o marxismo tradicional, ortodoxo, também tem problemas, também tem limites. Vemos assim como a dialética histórica é espantosa: tanto os novos movimentos sociais quanto o pensamento marxista tomados isoladamente são, atualmente, limitados e, ipso facto, inócuos; integrados, superam-se, apresentam novas potencialidades, apontam novos caminhos. 

Esse insight aparentemente banal, veio-me de repente, e, todavia, ao mesmo tempo em que veio de repente compreendi também que o “de repente” não surge do nada, mas é resultado de um processo de gestação mais ou menos longo, do qual muitas vezes não se tem conhecimento. Se tal insight pôde surgir, a mim, somente agora de forma clara, não significa que eu esteja falando aqui de alguma novidade. Ao contrário. Muitos movimentos sociais, assim como muitos partidos socialistas e comunistas, já chegaram a essa conclusão, e chegaram a ela através da prática e da observação arguta das transformações histórico-sociais em curso, cujas consequências nos colocam e um mundo muito diferente do que existia a cem ou cinquenta anos atrás – um mundo diferente, porém, paradoxalmente, igual. A nova central sindical que surgiu no Brasil em 2004 (CSP-Conlutas), por exemplo, apresenta como proposta radicalmente diferente das antigas centrais sindicais justamente a política de integrar os movimentos sociais sob a sua organização. Partidos como o PSTU também se colocam nesta mesma perspectiva: assim, constrói e encaminha sua luta em união com movimentos sociais cujas pautas e bandeiras são justamente aquelas preteridas pelas esquerdas tradicionais ao longo de praticamente o século XX todo, como o movimento de mulheres, negro, LGBT, etc. Para isso acontecer, uma nova interpretação do pensamento marxista tinha de ser feita, algumas práticas correntes e há muito arraigadas tinham de ser deixadas de parte, uma nova leitura da realidade contemporânea devia vir ocupar o lugar das leituras ortodoxas. 

Tudo isso para dizer que agora eu apoio a luta daqueles que se organizam para defender os direitos dos animais, por exemplo. Foi pensando justamente nesse caso que esse meu insight surgiu. Antes, eu tinha um preconceito enorme com esse tipo de bandeira – não porque eu seja insensível ao tratamento desumano (desanimal?) dado aos animais, ou porque eu não ache que eles tenham direitos a serem preservados. Tinha preconceito porque muitas das formas pelas quais essa bandeira tipicamente pós-moderna se expressa são extremamente contraditórias, incoerentes, pobres teórica e ideologicamente. Partilham de muitos preconceitos liberais, como a suposta maldade ingênita dos humanos em contraposição à bondade animal, ou como a responsabilidade pessoal do indivíduo em relação à sua sorte. Assim, muitos dos defensores dos animais sensibilizam-se com a dor que nós, os humanos, impingimos-lhes, enquanto são capazes de manterem-se surpreendentemente impassíveis em relação à dor que o ser humano causa em seus semelhantes. Até agora eu me concentrava neste aspecto negativo, e isso bastava para que eu impugnasse toda essa vertente de militância social contemporânea. Hoje ela me apareceu sobre uma outra luz, e pude perceber que há também aspectos positivos nela a serem considerados. O principal destes aspectos negativos é que, tendo o capitalismo roubado, por assim dizer, o sentimento de coletividade e a solidariedade que existiam entre os indivíduos das sociedades pré-industriais, é na empatia que sentimos em relação aos animas onde muito daquele sentimento de solidariedade se preservou. Mais do que sentimento de solidariedade: a própria capacidade de sentir pena, de sentir comiseração, sentimentos tão escassos nesta nossa sociedade do egoísmo, da competitividade. 

Portanto, mesmo um movimento social – e ainda que não sistematicamente organizado – aparentemente bobo, piegas, tipicamente pequeno-burguês, tem um lado positivo que deve ser sublinhado. Nesta medida, tem ele algo a contribuir no que tange à ruptura com essa nossa sociedade desprezível e hipócrita, ainda que timidamente. Sem o marxismo não me seria possível ter essa visão dialética e profundamente compreensiva que une duas coisas tão opostas quanto os partidos socialista e os movimentos sociais que militam em prol de bandeiras rebaixadas, localizadas e não revolucionárias. União dos opostos, mas, principalmente, união entre o velho e o novo. Finalmente, compreendo agora que é preciso integrar não apenas o novo ao velho, mas também o velho ao novo.
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