quinta-feira, 16 de maio de 2013

Desabafo sobre o futuro da nossa juventude

Um desabafo jamais é – porque não pode ser – coerente. Trata-se de uma forma de expressar sentimentos que é, por definição, irracional, não sistematizada. Um desabafo acontece quando alguém vomita, por assim dizer, tudo aquilo que estava engasgado na garganta. Vem duma vez, em profusão, involuntária e intuitivamente. E é de um desabafo que aqui se trata. Desabafo sobre a situação da nossa juventude e, consequentemente, sobre nós mesmos, que um dia fomos jovens e que hoje somos responsáveis pela formação deles. Desabafo, consequentemente, sobre o medo do futuro. 

Para entender esse desabafo é preciso, primeiro, ter claro a situação da educação pública no Brasil. Dizendo de uma forma nua e crua, ela está basicamente falida. Diziam que a situação só ia melhor quando chegássemos ao fundo poço. Bom, o fundo do posso está aí, mas não há, num futuro próximo, qualquer sinal de melhora. O problema é que essa situação é tão irracional, tão absurdamente incompreensível, que se tornou admitida como inexorável. Grosso modo, quem trabalha com educação hoje quer apenas ganhar a sua vida. Se o papel do professor foi algum dia tido em alta conta, como uma profissão nobre, tal como o médico que cura e o bombeiro que salva, hoje não é mais. A nobreza da profissão encontra-se agora no fato de não desistir, e não no ato de educar em si. “Você é professor? Meus parabéns”. É essa a situação atual. 

Os adultos parecem supor piamente que os jovens são estúpidos, seres irracionais que se portam e comportam como bichos. Mas eles não são. São tão espertos do que qualquer um de nós. Talvez sejam, mesmo, muito mais vivos, criativos e dinâmicos do que nós, adultos preocupados, medrosos, conformistas. Eles sabem o que se passa. Nós os colocamos numa situação absurda, e o que esperávamos que eles fizessem? Que agissem cinicamente, tal como nós, adultos razoáveis e sensatos, agimos, fingindo que está tudo bem? Porque é exatamente isso o que fazemos. Cada um de nós que trabalha com a educação pública (não todos evidentemente, mas a maioria, sobretudo os mais conformados) age como se não estivesse acontecendo nada, como se tudo estivesse na mais perfeita ordem, embora, nos cochichos de corredor, nos papos reservados, não pestanejamos em admitir a falência geral da educação pública. Mas isso entre nós, e quase como se falássemos de um destino que se abatera fatalmente sobre nós e em relação ao qual nada se pode fazer. 

Esse comportamento cínico não passa despercebido entre os alunos. Basta parar um minuto para conversar francamente com eles para perceber o quanto estão insatisfeitos, o quanto eles, simplesmente, não veem sentido ou finalidade na instituição escolar. Eles sabem que nenhum professor mais quer dar aula, sabem que a administração não se preocupa com suas opiniões ou expectativas, sabem que estão lá apenas para cumprir uma ordem. Se a última coisa que se faz na escola hoje é educar, aprender, o que ela é? Uma prisão, no sentido mais imediato do termo. Uma prisão de meio período para os filhos da classe trabalhadora. Pode-se culpar uma pessoa por se opor à restrição da sua liberdade? Pretendemos realmente que os jovens aceitem passivamente a escola-prisão como inevitável e que, cordialmente, colaborem conosco, com seus carcereiros? Somos tão inocentes assim? 

Pode parecer brutal colocar o problema nestes termos, mas é a simples e dolorosa verdade. Todos sabem disso. Não é possível que não saibam! Mas, não obstante, continuam agindo como se não soubessem. Se houvesse sinceridade nesse mundo, todos os professores, secretários, coordenadores, diretores deste país trancariam suas escolas amanhã mesmo e só voltariam quando houvesse um plano verdadeiro e honesto de reestruturação da escola pública. Mas não se pode culpa-los por não irem às vias de fato. Todos nós temos um mecanismo interno de autoproteção que exime a nossa consciência de sentir culpa. Para isso, buscamos os culpados em outro lugar, criamos bodes expiatórios, apelamos para o destino ou para alguma força maior. E a sociedade moderna criou estruturas burocráticas de gerência da vida social de tal ordem que ficou fácil tirar o corpo fora. As causas de um fato qualquer se estiolam numa série interminável de microcausas. A cadeia de pessoas responsáveis pela educação, por exemplo, é tão ampla, tão fragmentada, que, do ponto de vista individual, torna-se impossível achar um culpado. Aí a gente culpa todo mundo, menos nós mesmos. 

Não estou defendendo uma perspectiva individualista que dissolve toda uma estrutura social objetiva, existente fora dos indivíduos, em uma infinidade de ações individuais. Não estou dizendo que se cada um fizesse a sua parte a situação melhoraria. Estou expondo um dos mecanismos psicológicos pelos quais o indivíduo se exime de qualquer responsabilidade em relação ao todo. E esse mecanismo é produto, justamente, da própria ultra divisão do trabalho, da ultra especialização da vida social. Há sempre outros tantos indivíduos, tanto faz se em cima ou em baixo, para a gente culpar. Paradoxalmente, cada um de nós se reconhece como uma peça que faz essa gigantesca engrenagem de moer gente funcionar, mas nenhum de nós se crê responsável pela gente moída no final do processo. O conceito de alienação é precisamente isso: participar de um todo, sem compreendê-lo plenamente, mas também sem ter compreensão de como a sua parte no todo afeta o todo como um todo (perdoem-me a redundância). Talvez essa força – a alienação – seja a causa primeira, o impulso motriz, que mantém as coisas tais como estão por inércia. Ninguém é responsável, todos somos responsáveis: logo nada muda. 

Digo tudo isso porque, para mim, é difícil ser cínico, é difícil mentir. Não consigo entrar em sala e ameaçar os alunos com um futuro terrível caso eles não estudem. Estudando ou não estudando, o destino da maioria ali está traçado. Não consigo chamar a atenção deles dizendo que se eles estão ali é para estudar. Como posso dizer isso se a escola não provê estudo? Como eu disse, o jovem não é idiota. Se eu o culpo por não estudar, ele me lança na cara o fato de que faltam professores, de que muitas vezes, numa única disciplina, haverá três ou quatro professores ao longo de um período letivo, de que não há um espaço pedagógico decente que crie um ambiente propício ao ensino e aprendizagem. Talvez eles não saibam disso. Mas eu sei, e isso basta para me impedir de agir como mais um hipócrita. A nossa sociedade hoje está tão alienada, e as pessoas agem de forma tão mesquinha e inconsequente, que o futuro está ameaçado. Dói-me de preocupação e tristeza a incerteza diante do futuro, do futuro desses jovens, do nosso futuro enquanto humanidade. A alienação maciça e sufocante também se expressa nesse tocante: todo o mundo lava as mãos em relação a essa juventude, acreditando que os efeitos dessa irresponsabilidade se manifestam apenas individualmente. Manifestam-se, sim, individualmente, mas não apenas. Noutras palavras, todo mundo acredita que cada um é responsável por si mesmo nesta selva de pedra que é a sociedade capitalista contemporânea. 

Se a juventude não quer saber de estudo, o problema é dela, não? Não. O problema é nosso. É devido à nossa estreita e míope visão que cada um de nós se preocupa com seus próprios filhos, desresponsabilizando-se pelos filhos alheios. Ora, a sociedade é feita pelos filhos de todos; se todos caírem, cai o teu filho também. Por isso, eu não digo para meus alunos que se eles não estudarem não vão ser “alguém” na vida, e que a culpa será deles mesmos. Não é a juventude que está se condenando ao fracasso: somos nós que estamos. Se todo o mundo lava a mão, se desobriga, se desresponsabiliza dessa juventude, acreditando confortavelmente que o problema é apenas dos jovens e não nosso e que os efeitos disso só vão sofrer aqueles que, individualmente, tomaram a decisão de não se comportar como nós achamos que eles deveriam ter se comportado; se todo mundo se sente confortável com isso, eu não me sinto.
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