terça-feira, 16 de abril de 2013

Tensão na Venezuela após o pleito presidencial

A situação é tensa na Venezuela após o pleito presidencial de domingo, e tal situação não favorece um projeto político-social à esquerda do chavismo. Servirá apenas para polarizar ainda mais a já polarizada sociedade venezuelana, entre os setores que apoiam a continuidade do chavismo e os setores que apoiam o candidato da direita, Henrique Capriles. Eu não apostaria que uma tal situação evoluísse para um cenário de radicalização da luta de classes, mas antes para um cenário de conflito ou mesmo de guerra civil entre dois grupos em disputa pelo poder – ou seja, há diferenças essenciais entre luta de classe e disputa entre grupos pelo poder. Portanto, mesmo mantendo a nossa independência política em relação ao chavismo, um governo que é tudo menos socialista, devemos nos comprometer com a defesa da democracia venezuelana numa eventual tentativa de golpe por parte da direita. 

Um golpe é improvável, de qualquer maneira. Diferentemente de 2002, quando a alta cúpula do exército esteve envolvida até o pescoço no golpe de abril, hoje a direita e a burguesia não possui a maioria no exército, e elas não sabem subverter a ordem senão pelas forças armadas. Muitos dos oficiais hoje, cuja ascensão se deu através do chavismo, são oriundos das classes populares. Estão, pois, comprometidos com o projeto chavista, e já deram mostras disso. A forma de radicalizar a polarização e o conflito à qual pode recorrer a direita na Venezuela atualmente é a violência nas ruas. E isso ela vai fazer. Vai tentar a todo custo deslegitimar o processo eleitoral de domingo para instigar e jogar sua base eleitoral, que cresce cada vez mais, contra o governo. Se este não souber lidar com a situação é provável que a violência nas ruas se traduza no descrédito do novo governo do PSUV e, com isso, no crescimento da base eleitoral do MUD. 

Uma desestabilização política e social na Venezuela, para não dizer um conflito interno aberto, não interessa a ninguém, exceto à burguesia e aos setores da direita. Num sistema democrático formal a democracia deve ser respeitada ao menos na forma, de modo que Capriles tem todo o direito de pedir a recontagem de votos – embora não exista qualquer fundamento para isso, já que não houve incidentes que justificassem a suspeita de fraude eleitoral. A grande maioria dos aparelhos de Estado está nas mãos dos chavistas, e eles podem se negar a admitir a recontagem dos votos. Entretanto, com isso estarão apenas jogando lenha na fogueira inimiga. Capriles e o MUD são os grandes responsáveis pela violência nas ruas. Mas contê-las apenas via manu militare, ou seja, abafar os protestos dos direitistas apenas através da repressão militar, não resolve o problema. Apenas o respeito à formalidade do processo democrático pode legitimar, ao menos do ponto de vista democrático-liberal, o governo chavista daqui para frente.
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