quinta-feira, 4 de abril de 2013

O marxismo vulgar e o marxismo

Três coisas que o marxismo vulgar costuma fazer:

1) encaixa todos os fenômenos sociais em um modelo teórico predefinido (não importa o quanto tal modelo tenha sido construído com base na realidade: nenhum modelo pode esgotá-la, e todo modelo deve ser uma estrutura viva, dinâmica e aberta);

2) raciocina de forma anacrônica, isto é, aplica sobre um fenômeno passado o que se sabe sobre ele atualmente (um exemplo típico é o processo que levou ao surgimento do trabalho assalariado; o raciocínio anacrônico opera da seguinte maneira: havia necessidade de um tipo novo de trabalho, o trabalho assalariado, para o desenvolvimento das forças produtivas capitalistas, e, em função disso, tal trabalho foi criado, dando substância às relações sociais capitalistas nascentes; se não houvesse trabalho assalariado não haveria indústria, então essa forma de trabalho foi criada, etc.). Aqui entra também o impulso para teologizar a história;

3) costuma personificar complexos fenômenos sociais em entidades abstratas que parecem ter vida própria, ou seja, que parecem constituir um sujeito consciente (fala-se no capital, na burguesia, no imperialismo). Isso não significa que tais entidades abstratas não existam enquanto abstrações conceituais, enquanto categorias de pensamento. Tais abstrações não existem apenas na cabeça de quem as pensa, pois que são objetivamente reais, mas partir disso para dizer "o" (artigo definido no singular) capital, "o" imperialismo, etc., é um salto de morte, onde se perde toda a concretude da realidade.

O meu medo é que esses problemas fundamentais do marxismo vulgar não estejam presentes apenas em certas variantes do marxismo, em certos indivíduos ou escolas para as quais se pode apontar e qualificar como vulgarização do marxismo; o meu medo é que tais problemas estejam presentes, em maior ou menor medida, no próprio núcleo teórico do marxismo. O marxismo deu bons frutos, e tenho certeza que dará muitos bons outros ainda. Mas é preciso ser duro com ele; é preciso transformações radicais; é preciso abandonar o marxismo para continuarmos sendo marxistas.
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