segunda-feira, 8 de abril de 2013

Réquiem para Margaret Thatcher

Morre a “Dama de Ferro”. Não choremos – embora tenha sido a primeira mulher a ser eleita para o cargo mais alto do Estado inglês, ela não era uma das nossas. Mas também não comemoremos – a semente que ela plantou floresceu, cresceu ao longo das últimas três décadas, e deu frutos amargos dos quais ainda hoje nos alimentamos, embora sua árvore se mostre cada vez mais fraca e sem viço. O respeito à morte, seja de quem for, é um imperativo moral de valor universal – se bem que, no íntimo e em determinados casos, soltamos fogos de artifício. 

Não obstante, não temos uma só palavra de condolências a expressar em relação à morte de Thatcher. Aqueles que as têm, sem mencionar aqueles que clara e profundamente se condoem do fato, traem-se, pondo de manifesto o lado de que se colocam na luta de classes, tanto no plano político, quanto no da perspectiva ideológica – Cameron referiu-se a Thatcher como uma “grande líder”, enquanto Obama disse que os EUA perderam uma “verdadeira amiga”. 

Não que existam apenas dois lados, mas, entendido o campo político como um espectro bidimensional, sem dúvida Thatcher e seus acólitos se posicionam junto à extrema direita contemporânea. Ela, no Reino Unido, e Reagan, nos EUA, foram os grandes mestres dos atuais “neocons” (os neoconservadores do Tea Party e os Tories do Partido Conservador), que combinam uma linha econômica liberal – a qual, diga-se de passagem, não tem nada de progressista – com uma postura conservadora, ou mesmo reacionária, em questões políticas, sociais e culturais – o epíteto “Iron Lady”, aliás, era muito do agrado de Thatcher. Foram eles os precursores do neoliberalismo enquanto agenda política e, por conseguinte, econômica, responsáveis por traduzir a ideologia neoliberal, cujas raízes remontam à década de 1940, em programa de governo. 

De certa forma, Thatcher, que era também membro da nobreza, ajudou a moldar o mundo que conhecemos hoje e que tanto ansiamos por mudar – esse mundo onde cada vez menos indivíduos monopolizam parcelas cada vez maiores da riqueza social; onde a miséria e a injustiça social ameaçam arrebentar com o “contrato social”; onde a corrupção política grassa pelos gabinetes políticos impulsionada pela promiscuidade entre poder público e empresas privadas; onde a crise econômica tornou-se norma, emergindo em ciclos cada vez mais rápidos, espocando aqui e ali, e solapando as condições de vida obtidas a duras penas pela classe trabalhadora ao longo da segunda metade do século XX. Parafraseando uma declaração sua que ficou famosa, podemos sintetizar a política thatcherista da seguinte forma: onde houver Estado, nós devemos trazer o mercado. 

Foi ela quem mostrou o caminho às classes e governos burgueses de todo o Ocidente de como derrotar o movimento trabalhista e os sindicatos – um dos pilares centrais, senão o central, da agenda neoliberal –, caminho que ficaria exemplarmente demonstrado durante a longa e encarniçada greve dos mineiros em meados dos anos 80, derrotada pela mão de ferro de Thatcher. Era notória também sua simpatia com regimes autoritários, como o pinochetismo no Chile, cuja duvidosa honra de ser o primeiro laboratório de testes do neoliberalismo no mundo era muito elogiada por Thatcher – durante o processo movido contra o ex-ditador chileno, e que pedia sua extradição, pelo promotor espanhol Baltasar Garzón, Thatcher interviu ativamente para que o governo inglês concedesse-lhe asilo político. 

A direita radicalizada (ou extrema direita) também deve muito a Thatcher. Afinal, os extremistas de direito de hoje são menos nacionalistas em termos econômicos do que seus pares de meados do século passado, combinando uma linha liberal e não-intervencionista no campo da economia – um não-intervencionismo que, para além de um sonho de verão da burguesia, não passa de uma palavra retórica: por trás da bandeira de não-intervenção escondesse a opção por uma outra forma de intervenção, que reduza o poder de barganha dos trabalhadores e que sustente as novas regras do jogo econômico, baseada na socialização dos prejuízos e das exteriorizações oriundas do mercado, garantindo assim a alavancagem dos lucros; se havia alguma dúvida de que essa palavra de ordem é puramente retórica, a longa crise financeira de 2008 eliminou essa possibilidade –, com um programa altamente conservador (pró-família, pró-cristão, pró-nação) no plano cultural e social. O crescente poder eleitoral de partidos como o Frente Nacional, na França, e o Partido da Liberdade da Áustria desde os anos 80 encontra apoio no thatcherismo, e pode-se dizer que, de certa forma, são seus herdeiros. 

Mas também os partidos tidos por “esquerda”, especialmente os socialistas no continente e o Partido Trabalhista na Inglaterra, devem muito a ela – devem num sentido negativo, poder-se-ia dizer. Sua política direitista foi tão bem-sucedida ao inaugurar uma nova era que fez do Partido Trabalhista, antes uma agremiação socialdemocrata de tipo keynesiano, um partido tão neoliberal quanto o Partido Conservador – como o Novo Trabalhismo de Tony Blair, e seu apoio entusiasta ao “Novo Século Americano”, tornou tão evidente. Com efeito, o trabalhista Blair foi não apenas um grande apoiador da Guerra ao Terror, como um defensor intransigente da política neoliberal. 

Thatcher ficou 12 anos no poder – o tempo mais longo entre todos os primeiros ministros ingleses –, sendo que os marcos desse período são bastante emblemáticos no que se refere à era que ela ajudou a criar: assume o posto em 1979, um ano marcado pelo segundo choque do petróleo, pela Revolução Iraniana e pela invasão do Afeganistão pelos soviéticos, e entrega-o em 1990, durante o ocaso da URSS e a explosão da primeira Guerra do Golfo. Junto com o fim do gabinete de Thatcher vieram as teorias do “fim da história”, da vitória do capitalismo, do Ocidente, etc. 

Conhecemos o legado do thatcherismo de cor e salteado. O que precisamos fazer é enterrá-lo, assim como enterraram hoje a sua artífice.
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