terça-feira, 30 de abril de 2013

Fascismo enquanto fenômeno burguês e imperialista: uma polêmica marxista

Uma ideia importante que tem de ser desenvolvida é a relação do fascismo, seja enquanto movimento seja enquanto regime, com as classes sociais. O fascismo não é um movimento político burguês, e isso deve ficar muito claro. O fascismo, embora surja com uma retórica anticapitalista ou, ao menos, antiliberal, não vai além da sociedade de classes de tipo burguês, ou seja, ele mantém as bases essenciais da dominação capitalista. Mas dizer isso é diferente de dizer que se trata de um movimento político burguês. Sua base social não é burguesa, e ele não surge do meio burguês. Pelo contrário, surge desafiando a própria ordem burguesa, que, em condições ideais, é democrática e liberal. É a burguesia, não unitariamente em bloco mas com contradições em seu interior, que, em determinadas circunstâncias (quando está enfraquecida na luta de classes, ou quando não consegue propor soluções para as contradições que ela mesma engendra), apoia e dá seu aval a esse movimento. É por isso, também, que não se pode falar que a burguesia "lança mão" do fascismo quando necessita: ela o alimenta, mas tem pouco controle sobre ele. Num contexto específico, pode ser que haja e pode ser que não haja um movimento fascista habilidoso o bastante para tomar o poder. É à luz desse contexto, dos atores em jogo, que a burguesia (sempre de forma contraditória e fragmentada, e jamais coerente e monolítica) toma parte ao lado de um ou de outro ator que ela julga ser eficaz na preservação de seus interesses. A peça já existe, portanto, no tabuleiro, não sendo ela que a cria. Além disso, a burguesia é uma grande jogadora e possui grandes poderes (na comparação com o xadrez ela seria a dama), mas ela não determina sozinha os rumos do jogo. Pode ser que ela sozinha tenha peso para influenciar o desenvolvimento de um fenômeno político de tipo fascista, pode ser que ela tenha de se aliar a outros setores, ou pode ser que ela pouco possa fazer em relação a ele. Se as classes médias e trabalhadoras decidem tomar parte do fascismo, este não precisa se apoiar na burguesia para se sustentar. Portanto, há uma série de atores, forças e interesses distintos dentro de um cenário de disputa pelo poder, o qual não pode ser reduzido a uma oposição dual entre burguesia e proletariado, nem pode ser simplificado ao ponto de apagar as distinções entre as diferenças camadas e grupos sociais. Outra questão importante, relacionada à ideia geral aqui em discussão, é que o fascismo não é um fenômeno fruto do capital monopolista e da fase imperialista. Não existem fases isoladas e estanques na história do capitalismo, e sim o desenvolvimento de determinados traços essenciais, presentes desde a origem até seu ocaso. O imperialismo e o monopólio são categorias inerentes à própria natureza e lógica interna da reprodução do capital. Ao mesmo tempo, são categorias históricas, que delimitam uma alteração qualitativa no desenvolvimento do capitalismo. É por isso, também, que não se pode dizer o imperialismo, no artigo definido do singular, como se se tratasse de um ente concreto. Praticamente toda relação internacional econômica e política se dá sob a lógica imperialista, seja na relação norte-sul, seja na relação sul-sul. Ademais, as relações entre Estados não são redutíveis às necessidades imperialistas postas pela monopolização do capital, mas integram outros elementos. Dito isso, não se pode dizer que o fascismo é um fenômeno político próprio da fase imperialista: ele é um fenômeno do capitalismo, e ponto. Pode ele surgir num tempo histórico não capitalista? Essa é uma pergunta desprovida de sentido, porque não se pode determiná-la cientificamente, mas apenas conjecturar sobre ela. Pode-se dizer que, antes de ter surgido na primeira metade do século XX, o fascismo não seria possível, mas que, uma vez surgido na história (e sendo a história, ao mesmo tempo, memória social), pode ele surgir de novo enquanto farsa, ou seja, enquanto imitação consciente, numa outra situação que já não aquela que conformou o fascismo clássico.
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