sexta-feira, 19 de abril de 2013

Dia do índio?

Hoje é o dia do índio, mas, assim como tantos outros dias "comemorativos", deveria ser chamado dia da hipocrisia e do cinismo. E não digo isso porque há 500 anos atrás um tal de homem branco aportou por aqui trazendo a civilização e o progresso – um projeto no qual os indígenas não tinham lugar, senão como escravos. O que foi, foi; é passado. Cabe a nós, humanos do presente, olhar para o passado a fim de tirar linhas de ação para o presente com vistas a um futuro diferente. Eu digo isso baseado no presente – e quando digo “presente”, refiro-me ao presente presentíssimo. 

Em um ano que tem se caracterizado precisamente pela luta indígena, com ações contra Belo Monte, com a resistência à desocupação do Museu do Índio, com o grito desesperado e indignado das tribos do Mato Grosso do Sul, vítimas da ganância e da crueldade; em um ano como esse, falar em comemoração pelo dia do índio soa mais do que ridículo: é uma ofensa. 

O Estado que institui o dia do índio é o mesmo que rouba ou legaliza o roubo das suas terras, que lhe tolhe a cultura e o direito à autodeterminação, que o deixa à margem e o torna presa fácil ao progresso excludente de natureza capitalista. É como se o Estado tripudiasse dos indígenas dizendo: nós lhe roubamos tudo, porém damos, em troca, um dia só seu! É impressão minha ou isso lembra o escambo injusto da época da colonização, quando se trocava espelhos por ouro, apenas travestido numa versão moderna? 

Veja como vocês, indígenas, são especiais para nós! Na frente das câmeras lembraremos orgulhosamente do nosso passado e das nossas raízes indígenas, jactando-se da nossa rica cultura; faremos atividades extracurriculares nas escolas para ensinar às nossas crianças como vocês são especiais; a mídia vai passar programas pautados no tema; quem sabe até façamos alguma parada pelas ruas. Pouco importa se vocês continuam sendo os párias dos párias da nossa sociedade; que vocês morram miseravelmente por falta de alimento, tanto físico, quanto espiritual, cultural; que vocês sejam empurrados para pedaços cada vez menores da terra que antes era sua. O que importa é essa ideia abstrata e fantasiosa de que temos sangue indígena, de que nos orgulhamos disso, de que existiu em um tempo distante uma civilização brava e guerreira, harmoniosamente integrada à natureza, e que hoje constitui um pilar firme dos brasileiros. Mas e esses índios que vemos pelas ruas, pedindo dinheiro, vendendo cestas a troco de banana? Que semelhança têm esses índios com aqueles idealizados que representam nosso passado? Ah, mas esses aí não são índios. Não existem mais índios no Brasil. Esses aí caíram do bonde do progresso, têm de ser resgatados. Índios de verdade só mesmo aqueles que existem na nossa imaginação, aqueles dos quais nos fala os livros de história. 

Bom, se é assim, feliz dia do índio senhor governador! Feliz dia do índio, senhor senador! Feliz dia do índio, senhora presidente! Feliz dia do índio, excelentíssimo juiz! Porque é exatamente disso que se trata: até mesmo o dia do índio, a única coisa que lhe dêmos em troca de toda a sua existência, tomamos de volta; até o dia do índio foi feito para nós, homens brancos: não passa de uma glorificação às avessas do nosso passado, de um ode à cegueira do nosso presente, de um consolo para nossa consciência culpada. Que os índios gritem bem alto: esse dia é nosso!, ao afirmarem com altivez a herança de sua cultura e identidade. E, para nós, que seja menos um dia de comemoração hipócrita e mais um dia de luta.
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