sábado, 6 de abril de 2013

Carta à Maiakovski

Camarada Maiakovski,


Não sei se lhe é do agrado o tratamento “camarada” – de fato, a motivação que me leva a escrever-lhe tem muito a ver com isso. Tenho a impressão de que você foi o poeta bolchevique menos bolchevique de todos os poetas – e você também era um anti-poeta por excelência, para não mencionar anti-Maiakovski, não estou certo? E por que suicidar-te? Por que os poetas têm verdadeira mania pelo suicídio e obsessão pela morte? Será porque a substância da qual são feitos consome-se em contato com a realidade? A vida não lhes basta? É preciso saber; é preciso conhecer o fundo de tudo isso; é preciso conhecer o desconhecido, e a morte é o desconhecido por excelência. São tantas as perguntas. Mas tudo ao seu tempo. Comecemos do início – ou seja, de onde se quiser começar.

Trata-se de uma verdade lógica bem assente desde a filosofia aristotélica que as categorias de universalidade e de particularidade se excluem mutuamente, e que quanto mais universal, menos profunda e mais simples é a verdade de um ser, ao passo que quanto mais particular, mais profunda e mais complexa é essa verdade. Foi somente Hegel quem postulou o problema de colocar o particular dentro do universal e o universal dentro do particular, sem reduzir a síntese à análise e a análise à síntese; trata-se de um problema posto, porém não exatamente resolvido. Mas estou digredindo (e você já deve estar aborrecido)... 

Tudo isso para dizer que, se Hegel estava certo com sua dialética, o vate é a expressão mais concreta e mais singular da universalidade. O poeta é um ser que se coloca conscientemente à margem, que se coloca contra tudo e todos, nadando contra a corrente. É um bicho arredio que grita contra a multidão, e que se sente contemplado quando a multidão grita-lhe de volta. Por que os poetas são tão singulares? Há quem chame-os de excêntricos. A excentricidade nada mais é do que a expressão de dois elementos: a busca pelo novo e a recusa do ajustamento. O ser do poeta é um ser essencialmente criador, e suas criações são essencialmente iconoclastas; poetizar é, portanto, a arte de criar a partir do nada. Ora, uma vez que para criar ex nihilo é preciso destruir o já construído, por abaixo todas as convenções, costumes e regras, o mínimo que se pode esperar de um poeta é ser excêntrico. Você era assim, Maiakovski, um futurista e um revolucionário. 

Fico imaginando o que você diria se tivesse vivido para ver no que a revolução, que com tão vigor e abnegação tomaste parte, se converteu. Nada poderia ser menos do teu apreço e mais avesso a tua pessoa do que o bloco monolítico em que se converteu a burocracia partidária, o Estado operário, a ideologia comunista, fazendo da promessa de um mundo novo, sem classes, sem explorações e opressões de qualquer tipo, uma promessa vazia. O que terias dito? Não bem o dito, já que se pode supor isso com razoável grau de segurança, assim como o que terias feito; antes, o que ter-lhe-ia ocorrido? A verdade é que tu não terias sobrevivido ao terror do stalinismo, como muitos, cuja têmpera era da mesma estirpe que a tua, não sobreviveram. 

Sua poesia nasceu e cresceu em relação orgânica com o processo revolucionário, como uma doença crônica que evolui coevo ao corpo que hospeda. Não me entenda mal: para a burocracia do regime, para a concepção estética oficial, para os manuais mortos, descurados, sisudos como um formulário, tua poesia, pulsante, arrebatadora, indomável como um cavalo selvagem das estepes, era uma doença. Uma doença como essa poderia ter salvado a Rússia da mesquinharia que orbita as escrivaninhas de ministros (ou comissários), as repartições públicas, os galardões afixados a impecáveis fardas; tê-la-ia salvo da velhacaria que se esgueira pelos corredores do poder político, onde os politburo e os presidium reúnem-se presunçosamente em nome de toda uma classe que jamais sentar-lhes-á à mesa. 

Estou digredindo novamente, admito. Não quero entrar com você em discussões sobre a natureza do regime soviético. Meu tema aqui és tu, tua vida, tua arte e poesia, muito embora não seja possível trata-la isoladamente em relação à Rússia do começo do século XX. E é preciso, sem dúvida, separar a atmosfera densa e revigorante daqueles anos em que você apenas iniciara na senda da poesia, daquela dos anos posteriores, tornada rarefeita e empobrecida, quase irrespirável, nos quais você já era um poeta consolidado, cujo renome e cuja obra eram disputadas pelo novo regime político. 

Como devem ter sido belos aqueles anos da década de 1910! Tudo era possível, não é mesmo? Foi com esse espírito que tu se criaste; o sonho da liberdade foi o martelo que lhe malhou a alma, e a tomada de posição pelos injustiçados, pelos explorados e oprimidos foi a foice que lhe afiou a poesia. Depois já era tarde. Maiakovski já era Maiakovski. Vieram as carregadas nuvens agourentas toldar a manhã clara e alegre da revolução; o dia virou noite, os pássaros emudeceram, a flor de girassol abaixou a cabeça num murmúrio. Mas Maiakovski continuava sendo Maiakovski, e jamais deixaria de ser. Os sicofantas do novo regime, traidores da sua própria causa, brincavam de deus, e como deus quiseram fazer de Maiakovski a sua imagem e semelhança. Queriam chamar-lhe à ordem, à obediência; queriam impor-lhe a castração do proletkult; queriam fazer de ti o propagandista vil do regime. Impossível. Por mais que sufocassem a revolução por toda parte ao seu redor, tu trazias a revolução dentro de ti. 

Revolução, para ti, não era uma palavra de ordem que brota do solo da história: era uma necessidade ontológica. Quando tudo é incerto, quando o caminho não se entrevê em meio à neblina, quando tudo parece consumir-se em meio à gratuidade da vida cotidiana, eu posso ouvir você gritar: rebelar-se! Rebelar-se contra tudo e todos! 

Por ora, fico por aqui. Voltaremos a falarmo-nos. 

PS: para que tu se situes, camarada – agora sim, camarada – Maiakovski, vivo num tempo em muito diferente do teu. Por que não escrevemos mais cartas? E diários, por que? Isso para não mencionar poesias. Saiba apenas que, no tribunal da razão, Facebook e Twitter seriam julgados por crimes contra a humanidade.

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