quinta-feira, 11 de abril de 2013

Breve ensaio sobre o orgulho: uma tentativa de pensar a moral do ponto de vista dos dominados

A princípio, parece não haver nada a dizer sobre o orgulho – além do óbvio, que se toma por ululante, ou seja, de que ele não passa de um sentimento ruim. Mas talvez o óbvio não seja tão ululante assim; talvez nem seja mesmo óbvio; talvez aquilo que cremos como óbvio não seja senão o reflexo dos nossos pré-conceitos, ou seja, de conceitos inconscientes, fixados pelo hábito. Para o senso-comum, o orgulho é mau; trata-se de um vício, de algo oposto à virtude. As religiões condenam o orgulho; é preciso lutar contra ele como se luta contra as tentações da carne. Portanto, a obviedade que vemos no orgulho não é senão a projeção inconsciente de um preconceito religioso fixado em nosso comportamento pelo hábito, mesmo quando nos consideramos ateus, laicos – aliás, poderíamos aludir a uma série de exemplos desse tipo de preconceito com raízes religiosas a nortear as nossas ações mesmo num mundo em cada vez mais laico (desencantado, diria Weber). 

Portanto, a primeira lição que tiramos dessa breve elucubração é que nada é óbvio por natureza. Alguma coisa só se torna óbvia apenas no plano social, após um longo e complexo processo de fixação por meio de usos e costumes; ou seja: uma prática social qualquer se torna óbvia apenas quando se torna cultura. Daí que o que é óbvio para “nós” não é óbvio para “eles” – em termos práticos, conforme o assunto discutido aqui: nada impede que em uma sociedade qualquer o orgulho seja considerado uma virtude e não um vício; neste ponto a obviedade deixa de ser obviedade e passa a ser estranhamento, alteridade. Além da concepção de que toda crença, valor, costume, prática, etc. só são óbvios porque pertencem a um sistema cultural que, como tal, é sempre autorreferente, uma segunda conclusão se impõe: admitido que um sistema cultural não brota pronto e acabado de dentro da natureza humana, e que também não é a realização de uma ideia absoluta (da Ideia e do Absoluto) existente sabe-se lá onde, e que, portanto, só pode surgir historicamente, mediante complexos processos nos quais o ser social se autocria; admitido isso, então nada é fixo e eterno: tudo tem uma temporalidade própria. A obviedade não nos permite apreender o fato de que ela nada mais é do que o resultado de um processo; ela, portanto, esconde a temporalidade inerente a si própria enquanto processo, temporalidade inerente a todo processo, aparecendo assim como algo dado ad eternum. Mas não: o que é óbvio só o é por ter sido fixado mediante o hábito, que, por sua vez, é o resultado de complexas interações sociais e históricas. 

Sendo o orgulho uma dessas coisas que se toma por óbvias, e sabendo agora que o óbvio é 1) hábito fixado pela prática social (as razões dessa fixação estão para além do nosso problema: a natureza e a função de cada hábito social devem ser compreendidas no interior da totalidade histórico-social a qual pertence), e 2) etnocentrismo (característica de um sistema de cultura autorreferente), então é preciso vencer a barreira, por assim dizer, de obviedade que cerca o orgulho e impede-nos de apreender, de um só golpe, a sua essência. É preciso ir afundo, portanto, na noção de orgulho. Só assim poderemos elevar uma noção (ou uma opinião, diriam os gregos antigos), a noção de orgulho, ao estatuto de conceito, diria Hegel. Para tanto, é necessário, por sua vez, um procedimento lógico-analítico, que destrinche todas as particularidades da noção, para só então voltarmos a uni-las através de um procedimento lógico-sintético. 

Em primeiro lugar, uma vez que o orgulho não é uma noção absoluta, o termo precisa ser adjetivado, qualificado. A noção de orgulho não é pura e simplesmente única, nem una, indivisível. Ela comporta uma série de variações que cambiam em função do contexto em que está inserida. Deste modo, é necessário saber de qual orgulho se fala. 

Podemos encontrar, do ponto de vista da acepção negativa do orgulho como vício, o orgulho de tipo presunçoso, por exemplo. Como o termo já diz, o orgulho presunçoso é aquele que está baseado no “achar”, no “imaginar”. Ter orgulho é ter orgulho de algo (um traço de temperamento, uma dada posição social, uma ação, etc.). Quando este algo em que está baseado o orgulho não é real, mas apenas fruto da vaidade pessoal de quem o sustenta, então se trata de um tipo de orgulho que podemos classificar como presunçoso. O orgulho presunçoso acha, imagina ter motivos para se orgulhar de algo, quando na verdade não tem. Muito próximo ao orgulho presunçoso encontramos o orgulho arrogante; ou seja: o indivíduo orgulhoso, neste caso, arroga-se a prevalência em relação à coisa da qual ele se orgulha; arroga-se a exclusividade em relação a ela: apenas ele tem tanto o direito a possuir tal coisa, quanto ao próprio orgulho em si. O orgulhoso arrogante não compreende que essa coisa da qual se orgulha não é única e não é exclusividade sua. Daí a arrogância e o desprezo que ele nutre em relação a outro indivíduo que, assim como ele, se julga na posse do mesmo sentimento. 

Aqui já podemos entrever que a consequência lógica dessa argumentação é que, se existe um (ou vários) orgulho caracterizado em termos negativos, existe seu contrário, caracterizado em termos positivos; no caso, o contrário do orgulho presunçoso é o orgulho humilde, o qual, por sua vez, está associado à virtude da coragem. O orgulho humilde, a humildade orgulhosa, não é aquela que surge do mero “achar” do mero “imaginar”, pois tem um fundamento real: é fruto de um longo e duro processo de trabalho no qual o orgulho surge como a coroação, como a recompensa pela conclusão bem sucedida do processo – daí porque esse tipo de orgulho está umbilicalmente ligado à virtude da coragem: é preciso coragem para chegar até o fim, para superar todos os obstáculos e dificuldades que naturalmente se impõem ao longo de todo processo. É razoável que um indivíduo vitorioso, cuja vitória não é senão imputável a ele mesmo, à sua coragem e espirituosidade, se sinta no direito de ter orgulho da sua conquista. A humildade encontra-se aí no fato de que só quem passou pelo “caminho das pedras” sabe os sofrimentos que teve que passar para chegar ao final, e o sofredor, aquele que sofre, é necessariamente humilde. A dificuldade inspira humildade. Esse tipo de indivíduo orgulhoso estará sempre disposto a auxiliar aqueles que apenas iniciaram na senda do longo trabalho pela qual ele já passou. 

Um belo exemplo disso está na sabedoria das artes marciais. Toda arte marcial verdadeira não é somente desenvolvimento físico e técnico, mas ideológico: toda arte marcial traz consigo uma sabedoria, uma filosofia, uma visão do mundo. No interior dessa sabedoria, a humildade é uma das virtudes essenciais. Mas aqui não se trata de uma humildade qualquer, mas de uma humildade orgulhosa, ou de um orgulho humilde. E isso se comprova facilmente na autoridade que cultiva e no respeito moral que inspira um grande mestre das artes marciais – pois a humildade quando desacompanhada do orgulho não passa de submissão, que, como tal, deve ser desprezada. A humildade, tomada pura e simplesmente em si, é submissão, medo, respeito tácito a determinada ordem. Não é essa, certamente, a humildade que encontramos entre os mestres de artes marciais. O orgulho advém, no exemplo em questão, da longa (longuíssima) e difícil (dificílima) jornada pela qual um mestre teve de passar antes de poder tonar-se mestre. Nessa jornada, ele vê muita coisa, aprende muita coisa, experimenta muita coisa, e nesse processo evolui. Passar por tudo isso naturalmente desenvolve nele a espécie de orgulho que aqui chamamos de orgulho humilde, associado intimamente com a coragem. Mas, usando o mesmo exemplo, podemos encontrar também os tipos de orgulhos negativos vistos anteriormente, ou seja, nem todo mestre de artes marciais é inerentemente orgulhoso-humilde. Pode ser o caso de alguém tão maravilhosamente dotado, tão naturalmente habilidoso (aquela característica que comumente chamamos de dom), que a relativa facilidade com que ele atravessa a jornada até tornar-se mestre não lhe inspira humildade. Isso porque ele não tem conscientemente claro as dificuldades inerentes à jornada e às quais as maiores das pessoas, que não possuem o dom dele, estão suscetíveis. 

Portanto, a segundo conclusão a que chegamos é que, não sendo o orgulho uma virtude absoluta, decorrência lógica de um imperativo moral universal, ele pode ser negativo ou positivo, dependente do ponto de vista do qual se o analisa. Assim, é natural que queiramos cultivar o orgulho em sua forma positiva, uma vez que tal forma é libertadora. É por isso que a moral religiosa trata o orgulho, entendido puramente em sua acepção negativa, como um pecado fruto da vaidade, que, como tal, é condenável. Ao subsumir o orgulho libertador sob a sua forma negativa (o orgulho vaidoso), condenando assim todo e qualquer orgulho, sobra apenas a humildade pura e simples, submissa, miserável, desprezível. É esse o tipo de “virtude” que a prática religiosa visa cultivar, “virtude” necessária à manutenção de seus privilégios, à satisfação de seus interesses. O Estado moderno, o direito liberal, a relação de trabalho assalariada, também têm necessidade dessa ideologia. São tipos de relações sociais que se apropriam, portanto, de elementos morais religiosos (cristãos, no caso) como meio de garantir a opressão, a submissão, o consentimento dos setores sociais sob o seu domínio. Para nós, os dominados, esse tipo de “virtude” – ou seja, essa forma de orgulho e de humilde, assim hipostasiadas, ou seja, metafísicas no preciso sentido de que estão separadas uma da outra, abstraídas da realidade concreta, e, portanto, tomadas abstratamente como pura negatividade (o orgulho), de um lado, e pura positividade (a humildade), de outro – não nos satisfaz; na verdade vai contra nossos interesses históricos de classe. É preciso, portanto, romper com ele. 

A positividade que vemos na virtude (agora sim, sem aspas) orgulho humilde, humildade orgulhosa, é uma positividade dialética: ela ultrapassa a pura negatividade, incorpora-a, e eleva-a a um momento positivo, fazendo do negativo, positivo, mas sem se separar este daquele. Tal positividade é apenas positividade do nosso ponto de vista, ou seja, do ponto de vista dos explorados e dominados, porque é uma positividade libertadora – ora, do ponto de vista dos exploradores e dominadores, o orgulho humilde, tal como o definimos, continua sendo apenas negatividade. É preciso que tomemos ciência disso e cultivemos o orgulho de classe – nesse ponto já não é mais preciso qualificar o tipo de orgulho ao qual nos referimos como o orgulho humilde, uma vez que o orgulho de classe, da classe dominada, só pode ser um orgulho desse tipo –, um orgulho que é, por sua própria natureza, libertador. Não podemos tomar nas mãos as rédeas do nosso próprio destino senão em posse dessa virtude, desse tipo de orgulho. 

Já se pode observar, na realidade concreta e no dia-a-dia da luta cotidiana, essa forma de orgulho aflorando e se manifestando aos poucos. A Consignia “orgulho homossexual”, por exemplo, é um contundente exemplo do despertar das consciências oprimidas para essa nova moral. Outro bom exemplo vem da cultura das favelas e da arte do hip hop – enquanto arte endógena, não imposta pelos dominadores, mas criada pelos dominados, o rap canta a favela, canta a realidade dela, com orgulho, com orgulho de vir da onde vem, de morar lá, de fazer parte dessa realidade. Esse tipo de orgulho também está presente nos movimentos trabalhistas, sobretudo nos momentos de greve, quando se desperta a união entre os trabalhadores e uma proto-consciência de pertencimento de classe surge. São todos exemplos do tipo de orgulho ao qual eu me referi aqui, o orgulho humilde, a humildade orgulhosa, o orgulho libertador, o nosso orgulho, não o deles.
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