sexta-feira, 12 de abril de 2013

Ao vencedor, os tomates!

Há poucos dias da próxima reunião do COPOM, o Comitê de Política Monetária, que decide, entre outras coisas, sobre a taxa de juros básica (a selic), a mídia corporativa - que sabemos ter vínculos estreitos com o capital financeiro/especulativo/rentista - move uma sanguinolenta campanha pelo aumento da taxa, antes uma das mais altas de todo o mundo mas reduzida ao longo dos últimos dois ou três anos como medida para impulsionar o crescimento econômico. A mídia havia perdido essa batalha, mas se recusa a perder a guerra. Novamente, ressuscita o fantasma da inflação que estaria na iminência de jogar o país no caos inflacionário. Desnecessário dizer que a inflação tornou-se uma camisa de força ideológica para conter qualquer outra política econômica que não a neoliberal. Agora, a inflação ressurge encarnada no tomate.

Tenho acompanhado muito pouco o cenário econômico brasileiro, mas até onde eu sei a inflação está completamente sob controle, não por causa de uma política acertada do governo, mas porque a nossa economia está praticamente parada. Num cenário de crescimento zero ou pequeno é natural que a inflação perca força ou mesmo se torne negativa (embora nem sempre isso ocorra, como nos casos de estagflação). Portanto, a inflação não é um perigo neste momento. Perigoso é o frágil crescimento econômico do país descarrilhar, com as consequências que conhecemos para o lado mais fraco da corrente, ou seja, os trabalhadores. Assim, o caráter informativo, com seus "analistas de mercado", que os meios de comunicação, Globo à frente, tentam imprimir ao seu jornalismo no campo da economia não passa de um engodo: na verdade, trata-se de deliberadamente desinformar, por razões políticas.

A Globo quer prejudicar o governo, e não sou eu quem vai dizer que ela está errada por isso - porque eu também quero -, embora seria de bom tom menos proselitismo por parte de uma empresa que só existe em função de uma concessão pública. Mas o que ela defende em seu lugar é ainda mais pernicioso do que a tímida política pseudo-neodesenvolvimentista do PT: uma política econômica completamente voltada para a estabilidade monetária e, portanto, para a manutenção da prevalência do capital financeiro sobre o capital produtivo - não que o governo petista também não seja um obstinado defensor dessa política, mas diferenças existem, e encontram-se nos pormenores: enquanto o governo está disposto, por mais contrariadamente que seja, a baixar a taxa de juros num cenário de desaquecimento econômico, a oposição de direita e seus departamentos midiáticos nem a isso estão.

O que a Globo e demais crápulas da mesma estirpe escondem é que, à exceção dos desacordos de pormenor, PSDB e PT tem muita mais em comum no tocante a política econômica do que faz crer as noções abstratas de "situação" e "oposição". E como a mídia corporativista é declaradamente tucana, ela também tem a sua parte de culpa no alto preço do tomate. Claro, não é o fim do mundo ficar alguns meses sem comer tomate. O tomate aqui representa apenas um eixo a partir do qual podemos amarrar a discussão. O fato de o preço do tomate ter subido muito mais do que outros alimentos indica que grande parte das causas desse aumento se devem a razões específicas, próprias da agricultura e do meio ambiente. No entanto, é precisamente aqui que saímos do campo natural para o social; que entramos nas questões mais amplas de política econômica. Se o tomate sofre por razões climáticas, por exemplo, as consequências desse fato não são inteiramente de ordem natural, mas têm muito a ver com as políticas adotadas em relação à agricultura. O que a Globo esconde com o seu ataque descarado ao governo é que ambos defendem uma política econômica no campo eminentemente voltada para a satisfação dos setores latifundiários, dos interesses do agronegócio.

Nós dificilmente veremos os produtores de soja sofrerem problemas parecidos com os quais estão sofrendo os produtores de tomate, por exemplo, mesmo em condições climáticas desfavoráveis. O agronegócio, baseado na monocultura de exportação, tem sob seu controle a maioria das terras agriculturáveis, usa capital intensivo na produção de seus produtos e recebe quase a totalidade dos créditos agrícolas disponíveis. Ora, numa tal situação a natureza tem pouca chance de intervir para estragar as safras. Mas ao contrário do que o agronegócio quer fazer crer, ele não é responsável por colocar comida na boca dos brasileiros. Todo esse imenso capital investido no setor, o maior do mundo, serve apenas para produzir commodities para exportação. Quem é o verdadeiro responsável pela produção alimentícia no país é os pequenos agricultores, muitos deles trabalhando em regime de agricultura familiar, e que estão completamente marginalizados pela política econômica voltada para o agronegócio.

Se há um culpado pelo alto preço do tomate, certamente esse culpado não é a mãe natureza, nem o preço do combustível (embora este, sem dúvida, influa), mas toda a política econômica do governo em sua totalidade, e especialmente a voltada para o setor agrícola - uma política defendida tanto pelo situação quanto pela oposição de direita -, que deixa a deus dará os pequenos produtores agrícolas (sem mencionar os trabalhadores sem-terra). A mídia culpar o governo por isso, a fim de plantar o terror da inflação, é como a bunda suja falando do cu mal lavado, demonstração perfeita da malevolência com que ela age e finge representar os interesses do "povo". No fundo, são todos farinha do mesmo saco.
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