domingo, 3 de março de 2013

Quem é Yoani Sanchez e como entendê-la? Algumas considerações iniciais

Yoani foi eleita representante da SIP em Cuba, recebeu o prêmio Ortega y Gasset outorgado pelo jornal espanhol conservador El País, além de uma série de outras premiações internacionais. Todas essas premiações lhe renderam algo em torno de 250 mil euros, fora o bom salário mensal como correspondente do El País. Aqui no Brasil ela integra o Instituto Millenium, uma organização criada e mantida pelos grandes monopólios midiáticos nacionais e cuja finalidade é defender uma peculiar liberdade de expressão - a liberdade de mentir, omitir e manipular a informação em nome dos interesses do mercado. 

O fato de que todos os jornais e tevês sob a propriedade da grande imprensa acolham entusiasticamente as alegações de Sanchez deve ser visto com suspeita: é indicativo de como suas críticas ao regime cubano vão de encontro às aspirações dos meios de comunicação burgueses; mas, ainda mais do que isso, indica que a ideia de “liberdade de expressão” defendida pela blogueira está em perfeito acordo com a liberdade de expressão defendida pela imprensa burguesa. Sabemos que tipo de liberdade de expressão defende ela. Para iniciar o debate, portanto, é preciso, antes de tudo, qualificar o que se entende pode liberdade de expressão. Ora, em pleno século XXI, afirmar que a liberdade de expressão é um bem universal, uma aspiração da humanidade, um direito inalienável, etc., constitui um truísmo. Evidentemente, hoje em dia ninguém se colocaria contra a liberdade de expressão (a não ser grupos de extrema direita de coloração fascista, ou grupos de esquerda alinhados com o ideário stalinista de socialismo, ambos os quais colocam os fins pelos quais julgam necessário lutar antes de princípios universais: neste caso, a liberdade de expressão é tolhida em nome de ideais "maiores", como a luta contra o comunismo, num caso, ou a luta contra as forças reacionárias do capitalismo, no outro caso), tida como um valor universal, assim como ninguém se colocaria contra os direitos humanos. A diferença entre a ideia e a realidade se exprime perfeitamente nessa disjuntiva, onde a ideia de liberdade de expressão como valor universal é frustrada na prática concreta em nome de interesses particulares de classes e grupos. Para ficar ainda mais claro, basta pensar como os EUA empunham ostensivamente a bandeira dos direitos humanos ao mesmo tempo que são seus maiores violadores. 

Para entendermos quem é Yoani Sanchez e o que se esconde por trás de seu discurso é necessário, portanto, ir além da abstrata noção de liberdade de expressão: é preciso analisar em que consiste seu discurso através de um recorte de classe; isto é, suas ideias vão ao encontro de quais classes? Contemplam quais interesses? Antes, portanto, de nos posicionarmos em relação à ela, é essencial fazer esse trabalho crítico-ideológico. Se colocar lado a lado com ela simplesmente porque ela defende a liberdade de expressão num país onde toda a liberdade foi tolhida em nome da revolução (posicionamento pragmático, ou seja, finalista) é um equívoco, assim como é um equívoco compor uma frente ampla com todo e qualquer setor da burguesia para combater um regime político autocrático. Isso na hipótese de que Yoani se alinhe com, e represente os, interesses dos setores mais progressistas da burguesia internacional, o que, dado a sua defesa manifesta do neoliberalismo, não me parece ser o caso. Em minha opinião, Yoani compõe com os setores mais conservadores da burguesia internacional, ou seja, aqueles ligados ao grande capital financeiro/especulativo e ao capital produtivo monopolista. São as suas ideias e os seus interesses que ela defende. A liberdade de expressão de que fala a dissidente cubana não passa de uma arma contra o governo cubano: sua finalidade é acossar o regime "socialista" em Cuba com a esperança de derrubá-lo em favor do capitalismo neoliberal. Não se trata aqui de defender o regime cubano, que já sabemos se tratar de um regime socialista de orientação stalinista, contra os ataques de Sanchez. Mas tampouco se trata aqui do contrário: de defender Sanchez perante os ataques dos castristas de lá e de cá. Trata-se, antes, de desmascarar o discurso de Sanchez ao mesmo tempo em que se faz a crítica implacável ao regime dos irmãos Castro. 

Yoani quer o debate, a livre discussão de ideias e de pontos de vista, como ela tanto prega? Dificilmente. O que ela quer é um novo regime político e econômico em Cuba, baseado no liberalismo democrático, ou seja, no Estado burguês, representativo e formalmente livre e igualitário. Por traz da fachada das palavras de ordem “liberdade”, “democracia”, “respeito aos direitos humanos”, esconde-se interesses econômicos muito bem definidos. É óbvio que Yoani não é uma agente da CIA, o que não significa, por outro lado, que ela não represente os mesmos interesses da agência de espionagem americana. Yoani é, sim, um instrumento, embora não de uma entidade específica, mas do imperialismo e do capitalismo como um todo. Mas não existe um ente consciente e corpóreo que atenda pelo nome de capitalismo. São pessoas e organizações concretas que, ao verem nela uma peça importante para a propaganda ideológica burguesa, lhe dão verbas, prêmios, espaço midiático, etc., para que ela continue fazendo o que faz de melhor: afrontar o governo cubano e advogar uma mudança de regime político e econômico na ilha. Assim como é impossível dialogar com o grande capital e seus representantes políticos, também não é possível dialogar com Yoani. Disso não se conclua que certas acusações suas sejam infundadas, ou que o regime cubano é um modelo a ser preservado ou seguido. Somente mentes mesquinhas se limitam a esse dualismo maniqueísta. Não estamos nem com Yoani nem com o castrismo. Yoani não representa nenhum progresso em relação ao regime cubano; ao contrário: talvez represente de fato um retrocesso, na medida em que as únicas conquistas da revolução cubana (a elevação dos indicadores sociais ao mesmo nível das economias avançadas) estariam ameaçadas com a transformação do país em uma economia capitalista neoliberal. 

Em suma, façamos todas as críticas ao castrismo; apontemos novos caminhos para a revolução cubana traída, mas não defendamos Yoani. Não temos nada que compor com ela contra o castrismo. Se não nos aliaríamos com o grande capital financeiro, o financiador de Sanchez em última instância, contra uma ditadura qualquer, porque é que nos aliaríamos a Yoani contra a ditadura dos irmãos Castro em Cuba?
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