sexta-feira, 8 de março de 2013

Nem com Chávez, nem contra Chávez: perspectivas da Revolução Bolivariana

Morre Chávez, conservadores e reacionários de toda a sorte exultam. O momento não é apenas de comoção, mas sobretudo de reflexão. Deixemos, portanto, de lado as protocolares condolências de praxe, e entremos diretamente no mérito da questão: o projeto político de Chávez – cuja singularidade parece ter motivado a criação de um nome próprio, o chavismo, adotado tanto por opositores de direita quanto de esquerda – passa agora, com a morte do líder, pelo seu momento mais delicado e crucial. Na medida em que tal projeto político sempre esteve super-centrado na figura carismática de Chávez, caracterizando-se como um regime personalista e nacional-populista, a questão central que se coloca neste momento é se o chavismo será ou não capaz de sobreviver sem a presença de seu fundador e líder (como se sabe, Chávez não deixou, mesmo nas horas finais de vida, de expedir diligências administrativas a partir do gabinete improvisado em seu leito hospitalar), e se, em caso afirmativo, quais são as perspectivas para o futuro do chavismo.

A direita histérica acusa Chávez de comunista e totalitário – quando não o próprio demônio –; a direita moderada é mais pragmática, e vê no chavismo uma forma político-econômica que não atende aos seus interesses, ou, antes, que os atende, mas ao preço de uma redistribuição de renda e da fragilização da hegemonia burguesa neoliberal. O campo da esquerda, por sua vez, se divide basicamente entre aqueles que se alinham com o projeto político chavista, tenham ou não divergências pontuais em relação a ele, e os que se lhe opõem inteiramente. Cabe notar que a oposição de esquerda ao chavismo não implica (ou não deveria implicar) necessariamente no descrédito completo em relação aos seus avanços históricos e sociais, nem em um fechamento total de diálogo com ele. Vale dizer, ainda, que as definições esboçadas aqui não se referem a nenhum partido, setor econômico, classe ou fração de classe social, movimento social ou organização privada em especial; correspondem essencialmente a tipos ideais, que, por conseguinte, manifestam-se conjugados, imbricados e/ou justapostos na vida real.

As acusações dos conservadores mais exaltados são irracionais e completamente infundadas, de modo que não há nelas qualquer dado real com o qual pudéssemos trabalhar – penso aqui na ala mais conservadora do Partido Republicano e em seu braço midiático de notícias, a Fox News, que acusam Chávez de terrorista, comunista, ditador e por aí afora, coisas que ele nunca foi. Já a crítica dos conservadores moderados e/ou liberais deve ser vista sobre o pano de fundo do contexto político e econômico vigente na América Latina (e no mundo de modo geral, mas especialmente na América Latina) quando do aparecimento de Chávez, ou seja, o domínio absoluto do neoliberalismo nos planos político, econômico, social e cultural. Somente à luz da avassaladora onda neoliberal que varreu a América Latina entre os anos 80 e 90 pode-se compreender como o chavismo surge, aos olhos dos moderados/liberais, como um projeto político-social igualmente radical. Sob um ângulo histórico mais aberto, entretanto, cujo horizonte englobe uma perspectiva socialista clássica, nem Chávez nem as transformações sociais que colocou em curso podem ser consideradas assim tão radicais. Quanto à relação da esquerda com Chávez, é com ela que o presente ensaio visa polemizar.

Antes de tudo, é mister definir o que é o chavismo. Tal definição só pode ser feita sob o pano de fundo do contexto histórico em que o fenômeno surge e se desenvolve. Comecemos com um breve excurso histórico.

A Venezuela antes de Chávez

Chávez surge pela primeira vez no cenário nacional em 1992, quando planeja e executa uma tentativa frustrada de tomada do poder por meio de um levante armado. O levante, capitaneado pelo movimento político-militar criado por ele nos anos 80, o Movimento Bolivariano Revolucionário 200 (homenagem aos 200 anos de nascimento de Simón Bolívar, líder da libertação latino americana do jugo espanhol e inspiração de Chávez desde jovem), não contou com o apoio e o engajamento da população; e nem poderia contar, na medida em que se tratava de um movimento essencialmente militarista, cuja influência não ia além dos quadros de baixa patente do exército. Mas a tentativa de golpe, conquanto isolada, ganha a simpatia da população venezuelana diante do descalabro econômico, político e social que vivia o país, ou seja, diante do descontentamento com a situação econômica e com o governo de Andrés Pérez.

Ao longo de praticamente toda a segunda metade do século XX, prevaleceu na Venezuela um pacto político entre as elites do país, pacto este que se expressava no Acordo de Punto Fijo e na alternância de poder entre os dois principais partidos do país – ambos conservadores, embora houvesse nuanças entre eles: o Ação Democrática (AD) e o Comitê de Organização Político-Eleitoral Independente (COPEI). Estava assim garantida a dominância dos conservadores e o isolamento político da esquerda comunista através de um sistema eleitoral pautado numa democracia que não passava de uma fachada bem elaborada. Esse pacto político, que durou até o impeachment de Pérez, em 1993, sustentou-se sobre a base de uma estrutura econômica específica: o petróleo como principal produto de exportação do país. Desde a década de 30, a Venezuela pertence ao rol dos principais países exportadores de petróleo do mundo. As décadas de 50, 60 e 70 foram especialmente lucrativas para o setor, devido ao boom econômico do segundo pós-guerra. Nesse período, que um historiador marxista denominou “anos dourados do capitalismo”, a Venezuela foi um dos países que mais cresceu no continente latino americano, a taxas acima da média dos demais, praticamente rebocada pelo rápido crescimento econômico nos EUA, Europa e Japão e, consequentemente, pela enorme demanda de petróleo. O cenário tornou-se ainda mais róseo na década de 70 quando estourou a crise do petróleo e a Venezuela, país membro da OPEP, auferiu divisas enormes em função do aumento nos preços da commodity. Durante o primeiro governo de Andrés Pérez, em meados dos anos 70, o setor petrolífero foi estatizado e uma série de outras medidas protecionistas e nacionalistas foram tomadas.

A coisa toda começou a desandar nos anos 80, quando a crise das dívidas externas se alastrava pela América Latina como um rastilho de pólvora. Toda uma série complexa de fatores concorreu para mergulhar a Venezuela numa profunda crise econômica: a dependência da economia para com o setor petrolífero e a consequente desindustrialização do país; a queda acentuada nos preços do petróleo devido ao aumento da produção nos países não pertencentes à OPEP; o crescimento dos déficits fiscais e da dívida pública; a reorientação e o ajustamento do capitalismo global face ao esgotamento do modelo keynesiano e a ascensão do modelo neoliberal, etc.; em suma: a redução com as receitas petrolíferas, a inexistência de uma economia interna diversificada e o aumento da dívida pública compuseram a cenário de crise. O fato é que, diante desse novo cenário, a eleição presidencial de 1988 foi a gota d’água para a população venezuelana. André Pérez foi eleito para um segundo mandato em nome dos tempos áureos e a partir de uma plataforma nacionalista parecida com a do seu primeiro governo: criticava ferozmente o programa de reformas neoliberal, o FMI e o Banco Mundial. Entretanto, mal foi eleito e já se alinhava com esse ideário, aceitando cortes no orçamento, privatizações e orientando a economia no sentido da estabilidade macroeconômica, ou seja, monetária, em troca de empréstimos concedidos pelo FMI. Quando a nova política econômica repercutiu no bolso da população, com o congelamento de salários, o fim dos subsídios e o aumento no preço da gasolina e dos transportes, uma revolta popular tomou as ruas de Caracas, conhecida como Caracazo, e que foi reprimida de forma extremamente violenta pelo Estado (o número oficial de mortos gira em torno de 200 e 300, mas fontes não oficiais falam de alguns milhares).

É nesse momento que Chávez tenta o golpe de Estado. Surge, portanto, num contexto de crise econômica aguda, de desagregação social e política. O pacto que logrou manter o país sob um regime de facto bipartidário ao longo de mais praticamente 40 anos estava, já em 1993, desfeito. O povo passou a nutrir um profundo descrédito em relação às instituições públicas, assim como aos partidos tradicionais no poder. Foi esse descrédito que permitiu a Chávez se eleger presidente pela via constitucional-democrática em 1998, após o falhanço do governo Rafael Caldera, eleito por uma coligação construída por fora dos dois principais partidos, mas que não rompeu decisivamente com estes, ao contrário, procurou aprofundar as privatizações e a política orçamentária austera.

A Venezuela a partir de Chávez

Após a quartelada fracassada de 1992, Chávez esteve preso pelos próximos dois anos. Contudo, quase que instantaneamente tornou-se um herói, símbolo da ilegitimidade da democracia puntofijista e da demanda popular por um novo regime político e social. Seu movimento militar foi substituído por um movimento civil, o Movimento Quinta República (MVR), cuja plataforma principal era a refundação da república (daí o nome) mediante a redação de uma nova constituição para o país. Foi com base nesse programa reformista que Chávez seria eleito em 1998, após ser anistiado por Caldera em 1994. De um movimento militar golpista, o tenente-coronel passa, deste modo, a um movimento constitucionalista civil com ampla aceitação popular face à fraqueza da desbaratada e desacreditada direita.

Nem bem Chávez tomou posse e as reformas já tiveram início. Primeiro, convocou a população para responder ao plebiscito por uma nova constituição nacional. O plebiscito foi aprovado com folgada maioria e, em dezembro do mesmo ano, a nova Constituição já estava em vigor. Foi com base nela que Chávez iniciou as amplas reformas econômicas e sociais desenvolvidas ao longo dos seus dois mandatos seguintes. Seus objetivos principais era criar mecanismo de participação popular que levassem a democracia a um novo patamar, para além das meras disputas eleitorais. Por outro lado, a nova constituição ampliava unilateralmente os poderes do chefe do executivo, tornava o legislativo unicameral e criava outros poderes além dos três tradicionais. Em 2000, Chávez venceu com folga a primeira eleição presidencial sob a nova carta magma.

Enquanto as reformas se sucediam, a polarização de classes ampliava-se e tornava-se cada vez mais aguda. Em 2002, uma conspiração entre setores da burguesia, do exército e da mídia, apoiados financeira e estrategicamente pelos EUA, tentou um bem sucedido porém efêmero golpe de Estado. O grande apoio dado a Chávez pelas camadas mais pobres da população manifestou-se, então, na campanha nas ruas cujo resultado vitorioso recolocou Chávez no poder dois dias depois e expulsou Pedro Carmona, presidente da Fedecamaras (entidade patronal da indústria) e empossado ditador pelos golpistas, do país. Alguns meses depois a relativa complacência do governo com os setores golpistas permitiu que a burguesia se organizasse novamente e continuasse sua campanha golpista, desta vez recorrente a paralizações na produção ou greve patronal (lockout). A resposta do governo foi aprofundar a política de estatização de empresas e propriedades fundiárias, o que levou à nacionalização de setores considerados estratégicos para a economia, como telecomunicações, petróleo, bancos e energia.

Em 2005 a Revolução Bolivariana é finalmente adjetivada com o termo socialismo, um socialismo muito sui generis denominado socialismo do século XXI. Tenta-se unificar as forças que compõem o governo e os movimentos de apoio ao chavismo através da criação do Partido Socialista Unificado da Venezuela (PSUV). No mesmo ano, o partido obtém a totalidade dos assentos da Assembleia Legislativa, dado que a oposição, num exemplo ímpar de estupidez, boicotou as eleições em sinal de protesto ao governo, o que deu aos chavistas a possibilidade de passar a política que bem entendesse. Em 2006, Chávez é reeleito novamente com folgada maioria, impulsionado pelo incremento da capacidade fiscal do Estado com a conjuntura favorável à exportação de petróleo e à elevação dos preços no mercado internacional. A primeira derrota do governo, embora por uma margem mínima, veio no plebiscito pela reforma constitucional de 2007. O restante da história conhecemos bem: o chavismo segue firme com índices de aprovação elevados e vitórias eleitorais consecutivas, mesmo com o relativo avanço da oposição a partir de 2010.

O primeiro fato a ser notado nisso tudo é que todas as vitórias (e derrotas) eleitorais de Chávez e de seu partido foram absolutamente legais e sem fraudes. Se o programa básico de seu primeiro governo (o fortalecimento das instituições democráticas e da participação popular) pode ser considerado um critério de avaliação do chavismo, então, é correto que se realizou grandes avanços na Venezuela nesse sentido. Em nenhum outro país da América Latina hoje a população é convocada para decidir sobre questões fundamentais da nação como o é na Venezuela. Tenho absoluta consciência dos limites desses mecanismos democráticos formais, circunscritos ao âmbito do Estado e do sufrágio; e mesmo dentro desses limites a Venezuela já corresponde a um grande avanço em relação à maioria (senão à totalidade) dos países do hemisfério americano. Portanto, a acusação recorrentemente lançada pela direita de que o chavismo é autoritário e antidemocrático não passa de uma figura de retórica e de agitação contra a política em curso no país. Chávez pode sim ser acusado de autoritário e centralizador, mas sobre outros pontos de vista que não o da democracia representativa. Em muitos aspectos o chavismo se aproxima de um regime político de tipo populista e centralizado; ou seja: um processo de transformação social e política que se dá de cima para baixo sob a tutela do Estado e do líder ou dirigente da nação. Trata-se de um regime personalista com base de massas, sobretudo nas camadas mais pobres da população.

Em segundo lugar, no que tange aos indicadores sociais o chavismo logrou importantes resultados. Sob seu governo a pobreza e a miséria foram reduzidas significativamente, os déficits em moradia, saneamento básico, saúde e educação também (nestes últimos indicadores sociais destaca-se as missões voluntárias trabalhadas diretamente nas comunidades carentes). Já no que se refere aos indicadores econômicos, observa-se um rápido incremento no PIB e uma redução significativa na taxa de desemprego. Entretanto, toda a economia venezuelana ainda continua dependente do mercado internacional dado o peso fundamental do petróleo na pauta de exportações. Em vista disso, não houve um avanço significativo no parque industrial e na inversão de capital, senão nos setores mais diretamente relacionados com a produção petrolífera. Semelhante estrutura econômica é, como se sabe, antiga do país, e o governo atual não implementou políticas efetivas para romper com ela: segue dependente não apenas do mercado internacional para acumular capital, como também do investimento externo. Portanto, embora os setores considerados estratégicos tenham sido nacionalizados, tal nacionalização se através de parcerias público-privados onde o Estado entra como principal investidor e operador, de tal modo que o capital monopolista internacional ainda encontra espaço no país. Seus interesses têm, assim, de ser levado em conta pelo governo.

A verdade é que, sob o aspecto mais aparente, a estrutura econômica na Venezuela segue sendo a mesma de um século atrás: uma economia primário-exportadora pautada no petróleo. Isso é essencial para compreender o chavismo. A diferença entre esse governo e seus predecessores é que aquele levou a cabo uma política de distribuição de renda e de seguridade social muito mais ampla do que estes últimos. Contudo, essa política é frágil, porquanto sustentada por uma estrutura econômica dependente e instável. Mas isso não quer dizer, todavia, que não tenha havido também transformações em outros setores da economia. O chavismo combina várias formas de produção e de propriedade ao longo de toda a cadeia produtiva, formas que vão desde parcerias com o grande capital estrangeiro, passando por cooperativas de escopo local até empresas expropriadas e postas sob o controle dos trabalhadores auto-organizados. Toda uma série de experiências econômicas foram ou estão sendo postas em andamento, com avanços e retrocessos, numa espécie de jogo de tentativa e erro. O fato é que o governo central tem incentivado essas experiências econômicas populares, embora por vezes tente centralizá-las e usá-las segundo os fins políticos imediatos do chavismo.

Como caracterizar o chavismo?

Todo fato histórico é uma dialética entre continuidade e ruptura, universalidade e particularidade. Isso é ainda mais claro no caso da Venezuela de hoje. O chavismo compõe-se de uma complexa trama entre essas categorias, de tal modo que lança fios para todas as direções: representa avanços históricos, assim como retrocessos; põe potencialidades progressistas, assim como regressivas; expande horizontes ao mesmo tempo em que estreita limites. O governo chavista é, portanto, uma contradição em progresso, um complexo amálgama entre tendências progressistas e conservadoras. Por um lado, temos a sua face mais visível, que se vale de práticas populistas, personalistas, burocráticas e centralizadoras, e de outro temos sua face menos visível, que comporta toda uma série de experiências econômicas e políticas de organização e gestão popular de políticas públicas e empresas. Entre realistas pragmáticos e aqueles que Ellner chamou de “otimistas culturais”, ou seja, aqueles que defendem políticas voltadas para o desenvolvimento dos fatores subjetivos da sociedade socialista, existe uma complexa dialética que deve ser analisada concretamente.

É preciso, antes de tudo, compreender que a revolução bolivariana nunca seguiu uma estratégia bem definida, nem se apresentou com um programa claro e definitivo. Seus caminhos foram, portanto, tortuosos, tomados a partir das necessidades e possibilidades do momento e da relação entre as forças em jogo. É por isso que a autodesignação do processo como um regime de transição em direção a um atípico “socialismo do século XXI” ocorreu apenas tardiamente. A crença de que a Venezuela estaria se transformando em uma sociedade de tipo socialista foi resultante do recrudescimento da luta de classes e da forte polarização que se instaurou após a ofensiva de direita de 2002-2003. Antes de assumir a presidência, essa não era uma ideia que passava pela cabeça de Chávez. O que ele tinha em mente era uma ideia de justiça social e democracia baseada na soberania popular. A reforma institucional que encabeçava seu programa de governo foi pensada, assim, como o meio para garantir essa justiça social e essa democracia popular, dado que as antigas instituições haviam perdido sua legitimidade e o consenso que produziam. Tratava-se (e ainda se trata) da criação de uma “democracia participativa e protagônica”. Assim como seu projeto político não era antiinstitucional, também não era anticapitalista. Esses elementos surgiram como tendência posterior e foram se desenvolvendo pari passu ao recrudescimento das lutas de classe. Essa característica ajuda a explicar porque as transformações sociais se deram de cima para baixo, ou seja, do Estado para a sociedade e não desta para aquela.

Um segundo ponto importante é que a Revolução Bolivariana demonstra como é perfeitamente possível uma revolução a partir da via institucional sob a base das mobilizações de massa. O chavismo é, decerto, um governo de tipo reformista, mas de um tipo reformista diferente da social-democracia keynesiana – ou seja, não pretende apenas reformar o capitalismo, mas superá-lo (ainda que essa superação seja apenas voluntarista): ele acredita ser possível chegar ao socialismo mediante reformas profundas numa sociedade ainda estrutura sobre as categorias econômicas e políticas do capitalismo, ou seja, a propriedade privada, o mercado, o parlamento, etc. Se isso é ou não possível, veremos. O fato é que a experiência bolivariana deixou bem clara a possibilidade de se operar transformações de fato (sociais e culturais) mesmo dentro da ordem capitalista. A questão que se coloca é se essa perspectiva etapista é ou não preferível à perspectiva do “ou tudo ou nada” dos socialistas ortodoxos. Tomar o Estado e socializar de uma só vez os meios de produção, sem organizar os trabalhadores e sem transformar seus valores, costumes e crenças, é retornar ao burocratismo soviético, que a história ensina ser um equívoco. Acho curioso a crítica que os setores da esquerda antichavista fazem à via institucional como eixo norteador de uma revolução: porque, ao passo que negam um caráter socialista à Revolução Bolivariana, veem e reivindicam um tal caráter no governo de Salvador Allende. Ora, ambas as experiências seguiram a via institucional para desenvolver transformações sociais profundas. Será que se Chávez tivesse sido derrubado no golpe de 2002 também entraria ele para história, na visão desses setores, como líder socialista coerente?

Aliás, outro ponto a ser observado é que a revolução bolivariana foi a responsável por trazer novamente ao centro do palco a perspectiva de uma revolução socialista em um continente tomado pelo consenso neoliberal. A possibilidade ou não de um pós-neoliberalismo na América latina, ainda que com todos os problemas e contradições possíveis, sai da idealização intelectual para a prática concreta apenas com Chávez, ao menos enquanto forma de governo. Isso teve reflexos profundos nas questões que envolvem política externa e relações internacionais tanto ao nível regional como global. A criação de novos organismos multilaterais que passam ao largo do imperialismo centrado nos EUA, como a ALCA, a ALBA e a UNASUL, são de importância sem igual no que se refere à construção de alternativas às políticas hegemônicas adotadas globalmente. Isso se expressa no deslocamento relativo das relações internacionais do eixo norte-sul, para o sul-sul. Todas essas mudanças no cenário regional e internacional ainda são incertas, tímidas e ambivalentes, mas é inegável que sua importância é cada vez maior. O peso do chavismo e da Venezuela nesse processo é bastante claro.

Parece-me que os avanços e conquistas da revolução bolivariana foram dois: 1) a substantiva melhora dos indicadores sociais, das condições de vida da população mais pobre, e 2) o processo de educação democrática e política do povo mediante o incentivo às organizações locais e de base, autogestionárias e coletivas e com caráter deliberativo e executivo. Essas duas conquistas não podem ser negadas, e suas potencialidades vão além do mero reformismo: são a base a partir da qual será possível dar um salto qualitativo em direção a uma sociedade socialista. A tendência para esse salto pode ser apreciada no próprio desenvolvimento dessas organizações de base: surgiram de início espontaneamente (os chamados círculos bolivarianos), pensadas como uma forma de organização comunitária voltada para a resolução dos problemas cotidianos mais prementes das classes populares venezuelanas – como a construção de casas, a instalação de redes de esgoto e água, o fortalecimento da saúde pública mediante o ingresso de médicos diretamente nas comunidades, etc. O governo central apoiou essas iniciativas, embora por vezes motivado por interesses eleitoreiros, às quais foram consolidas em 2006 com a criação dos conselhos comunitários. Mas o processo não termina aí: após a criação dos conselhos comunitários: em 2010 vem à luz o projeto de lei das comunas, que visa aprofundar ainda mais as formas de organização e gestão popular, com base na participação democrática, coletiva e soberana das comunidades.

Chavismo e revolução bolivariana

Ao longo de todo este ensaio usei o termo “chavismo” indistintamente. Como é perceptível, tal termo é usado num sentido pejorativo, tanto pela direita quanto pela esquerda, para expor aquilo que há de negativo na experiência venezuelana. Usei o termo num sentido neutro, apenas por comodidade, mas talvez seja possível fazer uma separação conceitual entre “chavismo” e “revolução bolivariana”. Nesse sentido, chavismo diz respeito à face mais aparente da complexa realidade Venezuela a partir de Chávez: intervenção estatal, centralização do poder político nas mãos do executivo e do presidente, personalismo, etc. Já a revolução bolivariana diz respeito a um processo muito mais profundo, amplo e duradouro que o chavismo, ou seja, se refere ao processo de educação política das massas, às experiências de auto-organização e autogestão comunitária, de participação política, etc., processos que não dependem do governo central e podem continuar desenvolvendo-se sem ele. Essa diferenciação analítica é essencial para pensarmos os rumos históricos possíveis abertos aos venezuelanos, e quais são as potencialidades revolucionárias inscritas neles. A direita só vê o chavismo e, ainda assim, a sua face menos democrática e progressista. Já alguns setores da esquerda, por sua vez, não vê a revolução bolivariana em curso e, nesse sentido, faz coro com a direita.

As possibilidades abertas são múltiplas, e o futuro da revolução não está decidido. Creio que o futuro dela será decidido pela capacidade ou não dos novos atores políticos constituídos pelas organizações de base de conseguirem se impor à direção partidária e à centralização governista. Além do mais, o próprio PSUV e seu governo federal não são uma unidade homogênea, mas, ao contrário, diferenciada e, por vezes, contraditória. Isso quer dizer que há forças em luta no interior de um projeto político e governamental aparentemente unificado, mas que, internamente, é multifacetado e heterogêneo. É preciso ver como tais embates internos irão se desenvolver; ou melhor: é preciso tomar parte nesses embates.

Não sou chavista. Mas acho que os setores de esquerda que também não o são subestimam demais as potencialidades da Revolução Bolivariana. Não me parece ser correto reduzir todo esse complexo processo histórico a um regime de tipo nacional-popular e bonapartista (ou semibonapartista). Essa é uma das facetas do chavismo, o qual não se reduz a ela. Temos de compreender o chavismo como um projeto socialista profundamente contraditório, rico em avanços e retrocessos, e não simplesmente como uma espécie latino-americana de revolução passiva, ou como um nacionalismo burguês de cariz popular. A melhor estratégia que poderíamos adotar em relação ao regime político na Venezuela é 1) um apoio crítico em relação ao chavismo, e 2) a aliança com os setores menos identificados com a burocracia e com a centralização partidária e mais identificados com as formas de organização popular nas comunidades e empresas para, com isso, determinar os rumos do processo. Opor-se à revolução bolivariana em sua totalidade é apenas contraprodutivo e simplesmente não adianta nada.
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