quarta-feira, 20 de março de 2013

Mídia e religião: a renúncia de Bento XVI e a cobertura da grande mídia

Por mais que eu conheça a grande mídia burguesa deste país (e de outros), nunca deixa de impressionar-me a baixeza, a velhacaria, a sordidez com que ela defende seus interesses e seus ideais. Notória militante em prol da família e dos direitos sagrados, tanto de Deus quanto da propriedade, é exasperante presenciar a maneira como ela vem movendo uma campanha pró-cristã desde o anúncio da renúncia de Bento XVI. Nenhuma palavra de censura, nenhuma dúvida levantada, nenhuma investigação aprofundada; não questiona o lugar e o papel da Igreja hoje, muito menos a intromissão do poder temporal nas questões seculares, e tampouco as facetas nada santas da Santa Sé. Ao contrário, o tom das reportagens é sempre sentimentalista, beirando a pieguice, além de reproduzir a típica visão de mundo maniqueísta da Igreja; o texto é sempre deferente e reverente, quase como se o repórter falasse de dentro de uma Igreja, com a voz chorosa e grave; a liturgia da sucessão, outro aspecto do medievalismo cristão, é tratada de forma puramente técnica. Outras características da cobertura midiática poderiam ser aqui inventariadas.

Assistindo a um desses noticiários a impressão que fica é que o mundo todo é cristão, que seguimos sendo cristãos desde tempos imemoriais, e que a ideologia cristã é perfeitamente aceitável no mundo de hoje. A Veja, por exemplo, trata a renúncia do papa alemão como se se tratasse de uma sua imolação pessoal para salvar a Igreja, e louva, por conseguinte, a coragem de Bento XVI ao colocar a sua própria reputação abaixo das necessidades da Igreja. Com deliberada burrice, com patetismo mesmo, a grande mídia burguesa compra acriticamente a versão oficial dos fatos; ou seja: não nega a existência de problemas e conflitos no interior da instituição cristã, mas, ao não procurar as causas e os motivos de tais conflitos, é como se assumisse que eles são fruto ou da ganância e vaidade de algumas poucas maçãs podres, ou do trabalho de forças malignas que querem destruir a Igreja – e, no limite, ganância e vaidade é também coisa do diabo atuando na mente de pessoas fracas e de pouca fé. A fé e a instituição Igreja continuam sendo percebidas, assim, como puras em si mesmas, sendo a corrupção um mal individual e localizado.

É como se uma nova cruzada estivesse em andamento, desta vez no interior da própria Igreja. E talvez o momento em que ela tenha sido desencadeada não seja casual. Eu era desinteressado e niilista demais para me lembrar da última sucessão papal, a qual deu a coroa (coroa, trono, cetro, anel ou o que quer que seja) a Bento XVI, mas tendo a imaginar que existem diferenças substanciais entre aquela sucessão e a atual. Eis aí um objeto que poderia ser melhor explorado. A questão é: por que a mídia, baluarte dos valores burgueses e, consequentemente, cristãos, se coloca agora na linha de frente para proteger a Igreja contra os ataques da esquerda e dos setores oprimidos por essa instituição e pela sociedade da qual ela faz parte? A Igreja está evidentemente se sentindo ameaçada, e não apenas pelo avanço do neopentecostalismo, mas também e sobretudo pela luta encabeçada pela pós-modernidade por novos valores, novas morais, novos costumes. Todos os escândalos e crises internas da Igreja não servem senão como munição aos seus antagonistas. Daí porque a mídia representa um importante aliado no campo da contrainformação. Não é, portanto, coincidência que essa nova cruzada surja num momento em que certos setores mais radicalizados das instituições cristãs, como o das igrejas evangélicas, falem da existência de uma “cristofobia”, de uma guerra contra os cristãos, etc.

Assim como a burguesia, invariavelmente dividida em frações com interesses opostos, une-se num momento de crise para prezar seus interesses comuns, notadamente a propriedade privada, a Igreja também deixa divergências menores de lado para unir-se em prol de seus interesses comuns. Quais interesses comuns seriam esses? Os dogmas do cristianismo, cujo mais importante, dentre eles, para a manutenção de seu poder é crença na autoridade moral absoluta da Igreja. A Igreja quer continuar decidindo sobre questões como aborto, união homoafetiva, maternidade, etc., enquanto uma variedade enorme de camadas sociais quer se libertar desse jugo. O que os cristãos exaltados chamam de cristofobia não é senão a luta, cada vez mais ativa e ampla, por direitos iguais aos desiguais, isto é, o direito à escolha, à liberdade, a autodeterminação; o direito a pensar por si mesmo e não consoante a dogmas anacrônicos; o direito a ser diferente, à heterogeneidade, à diversidade. A Igreja tem razão em se sentir ameaçada, mas não porque nós estamos contra ela – com efeito, nós não tentamos impedir ninguém de ser cristão ou evangélico, ao passo que ela tenta nos impedir de sermos nós mesmos –, e sim porque a história está contra ela. As crises recentemente expostas na Santa Sé, e o reflexo negativo dessas crises na subjetividade das pessoas, são efeitos visíveis de uma instituição medieval, pretendendo ser a única legítima ainda hoje para tratar de assuntos morais, que se bate inutilmente contra os sentidos dados pela história contemporânea. A relação dessa instituição com a grande mídia burguesa nos permite ver as ligações orgânicas entre as diversas instituições sociais que compõem um todo, a sociedade capitalista ocidental, e como tais instituições se relacionam e se defendem juntas. Cada uma delas não pode existir em separado, e a superação dessa ordem social implica mudanças radicais. A nossa luta é global.
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