sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Teologia da libertação

Terminada a leitura de Batismo de Sangue, fiquei interessado em conhecer um pouco mais da teoria da libertação. Uma pesquisa rápida não me permite um pronunciamento seguro, mas já foi suficiente para perceber alguns aspectos interessantes, sobretudo no tocante a seus pontos de contato com o marxismo e o socialismo. Eu não adotaria essa concepção teológica, bem como nenhuma outra teologia, tanto por causa do meu ateísmo intransigente, quanto por causa da desconfiança que nutro em relação à Igreja cristã enquanto instituição social. E aqui surge um primeiro ponto digo de nota: o afastamento significativo da hermenêutica e das teses teológico-libertárias em relação às da ortodoxia cristã, católica mais especificamente. A teologia da libertação faz uma espécie de  modernização e mundanização da visão de mundo religiosa, dos dogmas e da doutrina cristã. A recusa do individualismo, a introjeção de Deus na histórica (semelhante com o que Hegel fizera com a filosofia), a recusa da desigualdade e da salvação individual por meios individuais, e a aproximação entre religião e política. Ou seja, os teólogos libertários acreditam que, ao contrário da doutrina ortodoxa, a salvação é um ato humano, coletivo e histórico, e tal salvação identifica-se com a própria criação do Reino de Deus na Terra. Numa releitura das teses marxistas ("a libertação do proletariado será obra do próprio proletário"), o sujeito da libertação é identificado com os pobres, os injustiçados, os humilhados (isso me lembra Dostoiévski e seu messianismo comunitário cristão). Enquanto a Igreja prega o paternalismo e a caridade, os teólogos libertários pregam a autodeterminação e a socialização da riqueza. Criticam a passividade e a obediência aos poderosos, afirmando a necessidade da ação e do engajamento contra os exploradores. Trata-se de uma heresia e tanto em relação à cumplicidade histórica da Igreja com as classes dominantes, não apenas cumplicidade mas efetiva participação no poder político-social. A própria hierarquia da Igreja se vê ameaçada. Não à toa, a Santa Sé logo no início condenou a teologia da libertação como uma heterodoxia. Vale notar também que as circunstâncias nais quais veio à luz essa teologia não são casuais: a teologia da libertação surgiu na América Latina, no contexto das ditaduras que varreram o continente com o advento da Guerra Fria. De fato, sacerdotes e intelectuais ligados à teologia da libertação tiveram papel fundamental na resistência à ascensão dos regimes ditatoriais latinos.
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