quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Nada de novo no front: o novo partido de Marina Silva e a política do mais do mesmo

Na análise objetiva de um partido político deve-se concentrar nas relações que ele estabelece com outros partidos e com a sociedade civil. Não que sua liderança em si não seja relevante, mas, tomando apenas uma pessoa, não podemos explicar certas contradições entre essa pessoa, cujo peso é, sim, fundamental na definição do caráter do partido, e o partido em si, suas práticas, suas ideias e sua plataforma. Esse é o caso do novo partido da Marina Silva. Se nos concentramos em sua história de vida, não podemos compreender como e porquê ela foi chegar a tal ponto de depravação política. 

Essa é o tipo de análise objetiva que se deve fazer quando da aparição de um novo partido. Marina Silva é e foi uma grande personalidade, como política e como pessoa. Filha de seringueiros, conheceu as letras tardiamente, mas não a tempo de não obter um diploma superior. Trilhou uma carreira política que se pode qualificar como brilhante, além de se tornar uma personalidade mundial no que se refere à causa ambiental. Além disso, ser amiga do e militar junto ao Chico Mendes não é pouca coisa. 

Dito tudo isso, eu pergunto: e daí? É simplesmente evidente as contradições entre a Marina Silva em discurso e a Marina Silva na prática; ou melhor: a marina Silva de fins da década de 80 e começos da de 90, militante de uma época em que o PT ainda apenas iniciava seus passos em direção ao transformismo, e a Marina Silva de hoje, do PV e, agora, do Rede Sustentabilidade. Se ela fez alguma coisa pelo meio ambiente (e não duvido que não tenha feito), tudo isso cai por terra quando avaliado à luz das suas práticas políticas mais recentes. E não vou tocar aqui na sua orientação religiosa, a qual nunca foi boa para o meio ambiente e, tampouco, para os seres humanos. 

Assim como o PSD de Kassab, o partido da Marina não é nem situação, nem oposição; nem de esquerda, nem de direita. É o que então? É tudo isso ao mesmo tempo, é o que der melhor resultado em termos eleitoreiros, pura e simplesmente. Assim como o PSD de Kassab, que usa o novo partido como moeda de troca, o Rede Sustentabilidade (que é um “movimento” segundo seu idealizadora) também se utilizará do fisiologismo imperante na política brasileira. Assim, para agradar a gregos e troianos, negociará com deus e com o diabo, com qualquer partido que lhe traga dividendos eleitorais ou governamentais. O Rede Sustentabilidade será mais um partido coringa que, entre tantos outros, sonha em se tornar o fiel da balança, lugar hoje ocupado pelo PMDB, o grande mestre quando se trata de política fisiologista. 

Marina Silva diz que não vai receber dinheiro de empresas ligadas a atividades ambientalmente destrutivas, mas aceita o apoio de uma bilionária do setor financeiro (ligada ao banco Itaú) e de outro bilionário, este ligado à indústria de cosméticos, Guilherme Leal, fundador da Natura (a maior empresa do setor no Brasil e que foi acusada recentemente de biopirataria) e seu ex-candidato a vice-presidente. Por outro lado, é óbvio que empresas de agrotóxicos populem o ambiente, mas e empresas ligadas ao agronegócio, por exemplo, ou à extração de minérios, que são atividades altamente destrutivas, como fica? Aceitará ou não suas doações? Parece-me que sim, porque, do contrário, Marina ficará sem opções de financiamento. Isso porque todas as médias e grandes empresas, para não dizer as pequenas também, são ambiental e socialmente irresponsáveis, uma vez que têm no lucro seu escopo fundamental. 

O que nos leva ao ponto central da questão: o fato de que Marina aceite dinheiro de grandes corporações e empresas privadas demonstra o caráter de classe do seu partido, ou seja, trata-se de um partido burguês. Se é a classe média que irá compor com ele, formando sua base eleitoral, isso pouco importa: a natureza mesma do partido é ser burguês, é defender os interesses da grande burguesia. Enfim, essa lenga-lenga de sustentabilidade e de recusa a orientar-se no campo político segundo as balizas tradicionais (esquerda e direita) não passa de um recurso retórico para esconder, primeiro, a absoluta falta de um programa partidário definido (tal como é o caso do PSD), e, segundo, o fato de que o Rede Sustentabilidade não passa de um partido eleitoreiro convencional, pronto para barganhar cargos e princípios, compor alianças espúrias, obter dividendos políticos e econômicos para si e para os seus. Além disso, o termo sustentabilidade e a recusa a se orientar no campo político tem a vantagem de soar moderno aos ouvidos da classe média descrente com a esquerda (tanto a esquerda radical, quanto a esquerda oportunista) e seu consequente pensamento pequeno-burguês. 

Para finalizar façamos uma breve consideração crítica sobre os partidos verdes, do qual o Rede Sustentabilidade é tributário. Os Verdes na Europa, onde surgiram na esteira da falência dos socialistas e eurocomunistas, combinam sua própria leitura da política neoliberal com arroubos piedosos a respeito da necessidade de se fomentar políticas econômicas ambientalmente sustentáveis. Mas não explicam como uma coisa se casa com a outra, ou seja, como o neoliberalismo pode pautar a base econômica de uma economia sustentável, já que a desregulação econômica, a transformação de absolutamente tudo em mercado e mercadorias (sendo o caso mais emblemático a “commoditiezação” do CO2), a ausência de regulação e controle estatal, são políticas diametralmente opostas à preservação ambiental. Não há necessidade de buscar exemplos. Todos nós temos ideia das inúmeras denúncia que, vez ou outra sai na mídia, a respeito de práticas empresariais negligentes e criminosas. 

Evidentemente, o que eu estou propondo aqui não é a irrelevância do tema, isto é, do tema da sustentabilidade. Ao contrário, face ao risco real de um cataclisma ecológico global, ele é absolutamente essencial, mas não pode ser pensado descoladamente a outras questões históricas também colocadas na ordem do dia. A questão central é: não se pode preservar o meio ambiental, não se pode produzir sustentavelmente, senão a partir de outra matriz econômica e social, o socialismo. O capitalismo é, por si mesmo, essencialmente destrutivo, tanto humana quanto ambientalmente. Nesse sentido, movimentos sociais e partidos políticos que pretendem uma sustentabilidade dentro da ordem, a partir das categorias que regem o mundo da mercadoria, são inócuos; mais do que isso: são oportunistas, marqueteiros, demagógicos, eleitoreiros. O novo partido político fundado pela ex ministra do meio ambiente não difere essencialmente em nada do Partido Verde ao qual ela pertencia. No fundo, o que ela e setores ligados ao seu partido pretendem nada mais é do que capitalizar o bom resultado obtido na última eleição presidencial, diante de uma direita falida e sem perspectivas, PSDB à frente. Esta, por sua vez, se regozija com a nova candidatura porque serve para desestabilizar o projeto político da esquerda governista pelega. 

Não precisamos de mais um partido "mais do mesmo", mascarado sob o verniz de uma modernidade fajuta. Sustentabilidade não se faz com mais mercado, com privatizações, com redução do Estado, com um enfoque ético que recai, via de regra, no indivíduo, ou seja, no consumidor. A sustentabilidade só poderá ser alcançada com socialismo, com democracia de base, com trabalhadores autodeterminados na produção social.
Postar um comentário