segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

EUA e UE constituirão um novo bloco econômico: como fica a hegemonia mundial?

Vivemos numa esquina histórica, num momento de inflexão. Não me julguem aqueles que acham que nós, viventes no presente (sic), sempre tenderemos a cuidar nosso tempo histórico como ímpar: inflexões ocorrem na história sempre. A inflexão da qual falo não é substancial, nos termos do conceito marxiano de modo de produção, mas fenomênica. O caso é que talvez esteja para ser enterrado toda uma configuração social, política e econômica que tomou corpo a partir de fins dos anos 70 e inícios dos anos 80.

O anúncio recente de que EUA e UE entabularam conversações iniciais para instituir um novo bloco econômico, que será o maior do mundo, levantam duas questões. Em primeiro lugar, o neoliberalismo está longe de ser enterrado (o que contradiz a minha afirmação de inflexão histórica). E a criação da maior zona de livre comércio do mundo é apenas uma das tantas evidências disto (vide, por exemplo, as políticas de austeridade, o aprofundamento do Estado mínimo, a primazia do capital financeiro). Me parece que o modo dominante de pensamento e seu projeto de sociedade não faz mais do que cavar uma série de outros buracos para tapar os já feitos, buracos sempre cada vez maiores. Uma hora ficaremos sem terra para fazer novos buracos. Ou seja: o modelo segue o mesmo, e não faz mais do que empurrar com a barriga uma crise que, quanto mais protelada, com mais intensidade se avizinha.

Em segundo lugar, as conversações entre EUA e UE permitem entrever o surgimento de uma nova geopolítica mundial, marcada pela oposição à posição chinesa e asiática em geral no sistema econômico mundial. Está em curso uma corrida econômica cuja linha de chegada é a conquista de uma nova hegemonia mundial. EUA e UE sentem o peso da sombra que sobre eles projetam uma China e uma Índia cada vez maiores, cada vez mais poderosas. Estas duas são tão capitalistas quanto aquelas duas primeiras, mas seus modelos econômicos e políticos são diferentes, bem como seus contextos sociais e culturais. Não há qualquer dúvida de que o crescimento dos Tigres Asiáticos irá ultrapassar o das nações imperialistas centrais. Por exemplo, hoje está em andamento uma disputa entre ambos para dominar e criar novos mercados na África. Dentre as múltiplas dimensões que constituíram o conflito no Mali, essa disputa inter-imperialismos é uma delas.

A verdade é que não importa se o bloco econômico EUA-UE venha a ficar apenas no plano dos desejos. O que importa para nós neste momento é como esse desejo exprime as mudanças nas correlações de força no interior da geopolítica global. A questão é se e como o crescimento da China e consortes irá toldar a hegemonia capitalista ocidental. É possível que essa processualidade histórica descambe para uma corrida armamentista (que, de resto, já está a ocorrer, ou nunca deixou de ocorrer), para um conflito aberto entre blocos históricos distintos (em ascensão e declínio)? Como se dará o reajuste de posições (que, a priori, podemos admitir que será traumático) no interior do sistema mundial em direção a uma nova hegemonia? Perguntas para as quais o futuro aguarda respostas.
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