terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Da série, porque não sou (e sou) marxista: #2

Não sei o porquê dessa mania chata que nós, da esquerda, temos em reivindicar diretamente o pensamento de Marx e Lênin, o chamado marxismo-leninismo. Não que não devamos nos apoiar em ambos, assimilando criticamente suas ideias, para construir a luta da classe trabalhadora na contemporaneidade. Mas não devíamos estar fazendo alguma coisa nova? E efetivamente estamos; não é esse o ponto. O problema que eu vejo é essa mania que cada corrente e partido distinto tem de se pretender sucessor direto de Marx e Lênin. "Meu marxismo-leninismo é que é o correto, e, portanto, é melhor que o teu"; "é assim que age um partido consequente dentro do espírito de Marx e Lênin". Os ataques da direita, entre eles o que afirma ser o marxismo semelhante a uma visão religiosa do mundo, não estão inteiramente errados: qual é a diferença entre esse tipo de discurso e aqueles proferidos por seitas religiosas que se arrogam, cada qual, no exercício do verdadeiro cristianismo, da verdadeira palavra de Deus? Haveria tantos Deus e tantos Marx/Lênin para cada seita e para cada partido político? Provavelmente. Tanto a bíblia quanto o marxismo comportam leituras diferentes. Por favor, não estou aqui comparando (e equiparando) a religião e o marxismo (Marx foi, em minha opinião, o grande teórico da modernidade, aquele que inaugurou um continente científico novo, nas palavras de Althusser, e também uma nova filosofia e uma nova política), mas apenas chamando a atenção para uma ideologia presente no interior do discurso marxista. O que se deve fazer é compreender as contradições desse discurso, e não tentar empurrar goela à baixo de Marx afirmações e suposições que são nossas e não dele; feitas com base nele, mas nem por isso menos nossas. Não quero aqui dar motivo aos direitistas para nos criticar, mas é forçoso reconhecer que alguns aspectos dessa crítica são válidas, e, ao invés do orgulho, devemos cultivar a humildade. Aprender com todos os pontos de vistas, eis aí um princípio que julgo poder chamar de "marxista".

Enfim, mesmo que estejamos tentando fazer tudo de outro modo, curiosa e teimosamente insistimos não estar fazendo nada de novo, que tudo já estava dito por Marx e que tudo já foi feito por Lênin. Ao invés dessa deferência toda, quase religiosa, nós, que deveríamos ser seus mais duros críticos, devemos apontar sobretudo para a ruptura que nos separam deles e não somente para a linha de continuidade. A impressão que dá é que a esquerda parou no tempo, senão na prática, ao menos no discurso. Veja, faço oposição aqui não às estratégias e táticas da esquerda (algo muito geral para defini-las aqui, tanto no se refere a estratégias e táticas, quanto no que se refere à própria esquerda, isto é, quem é a esquerda?), elementos que se moldam necessariamente sob pressão das transformações históricas e sociais, mas ao seu discurso, que, à despeito da mudança daquelas, parece engessado e mecanizado. É fácil repetir enunciados de princípios, fórmulas prontas, doutrinas. Mas será que é tão imperceptível assim a disjunção entre teoria e prática, discurso e ação? Ou não haveria uma disjunção tão clara, e equívocos teóricos imprimiriam à prática resultados igualmente equivocados? Seja como for, tendo a acreditar que, mesmo havendo implicações entre teoria e prática (o que me parece óbvio para qualquer concepção dialética), ainda assim as práticas da esquerda contemporânea têm sido mais acertas, ou ao menos mais coerentes, do que seus discursos. A linearidade com que traçam a história do marxismo/comunismo (história que, curiosamente, vem sempre a desaguar no partido ou organização da qual se faz parte); a busca por um marxismo "revelado", que poderia ser encontrado mediante a exegese das obras de Marx e Lênin; a leitura mecânica das transformações históricas e sociais (do tipo que diz: "a crise do capital se aprofunda inexoravelmente"; "a realidade mais uma vez confirmou nossas previsões"; "a vitória da classe trabalhadora se aproxima"; etc.); os argumentos de autoridade baseados em Marx e em Lênin; são todos problemas ainda não superados pela esquerda de modo geral.
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