sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Contradições do comportamento humano: para uma tipologia dos defensores da ordem

Lendo Batismo de Sangue acudiu-me a ideia de que existem três tipos de pessoas no mundo (uma ideia abstrata, obviamente, sem valor demonstrativo, e que serve apenas para lançar luz sobre alguns comportamentos humanos): 1) a pessoa sádica, mesquinha e ávida por poder, sem comiseração, remorso ou escrúpulos; os torturadores que sentem prazer em torturar, superando assim, sentimentalmente, a pequenez que sentem diante do mundo, entram nessa categoria; 2) a pessoa alheia e indiferente, cujas obrigações são cumpridas sem satisfação nem desgosto: bastam ser cumpridas, fleumática e diligentemente, como fazem os burocratas; o médico-torturador que executa uma função técnica caberia nessa categoria; 3) a pessoa sensível e arguta, cujo "estar-no-mundo" é acompanhado por um "se-posicionar-diante-do-mundo"; trata-se das pessoas cuja consciência urge que não se aceite e não se cale diante da injustiça, do sofrimento, da miséria, mas que, todavia, por uma série de razões acabam se acostumando, se acomodando e se conformando com a injustiça, o sofrimento, a miséria; os carcereiros que sofrem furtivamente ao ver um torturado esfrangalhado e que fazem o possível, sem arrostar a ordem e sem se comprometer pessoalmente, para amenizar a dor de um preso podem ser encaixados nessa última categoria. Em Batismo de Sangue podemos ver esses três tipos ideais. É intrigante a maleabilidade humana, mas ainda mais intrigante é a ambivalência e a ambiguidade dos comportamentos e das opiniões. Frei Betto não toca diretamente nessa questão, que, tal como exposta aqui, podemos chamar de uma tipologia dos defensores da ordem, mas Graciliano Ramos, em suas Memórias do Cárcere, toca. Jogado de um lado para o outro, entre a malevolência e a benevolência deste e daquele militar, Graciliano se pergunta como é possível a coexistência de tão diferentes mentalidades sob uma mesma estrutura política-repressora. E tal coexistência pode conviver até mesmo dentro de uma só pessoa, um ser aparentemente indivisível. Na verdade, nem é de todo exato que Frei Betto não toca nesse problema - como podemos ver na seguinte passagem: "a viatura não tomou diretamente o caminho da estrada. Embrenhou-se pelas ruas da capital paulista até parar defronte de uma confortável casa, em bairro de classe média. Retiraram as algemas do prisioneiro, convidado a descer. Monsenhor imaginou o pior: um local secreto de torturas. Entrou desconfiado e, muito confuso, viu-se recebido por uma atenciosa senhora rodeada por três crianças. Eram a esposa e os filhos do homem do Esquadrão da Morte. O ambiente revestia o delegado de uma auréola de pureza. A família esperava o prisioneiro com a mesa posta para o lanche, no qual não faltava o bolo feito pela dona da casa. Padre Marcelo tentava compreender como o marido carinhoso e o pai atencioso podiam coexistir no torturador frio e implacável. Misteriosa a natureza humana! O homem que se deliciava em maltratar mulheres, pelo perverso prazer der vê-las nuas, gemendo indefesas em suas mãos, agora ajudava a esposa a servir o café e brincava com o filho menor no colo. O poder é capaz de dividir assim as pessoas? Deus e o diabo disputam um mesmo ser?" -, nem estou tão seguro que Graciliano o faz de forma mais detida (precisaria reler as Memórias...). O certo é que se trata de um problema muito difícil de se colocar e abordar. Mas se há uma coisa clara aqui é o poder coercitivo que as estruturas objetivas criadas histórica e socialmente exercem sobre as consciências individuais. Os mistérios da alma humana são profundos, abissais. Todo maniqueísmo e redutor. Todo psicologismo e todo objetivismo também.
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