domingo, 6 de janeiro de 2013

"Terras do Sem Fim", de Jorge Amado

Em Terras do Sem Fim Jorge Amado retrata a vida (e a morte) nos albores do cultivo de cacau na região sul da Bahia, em Ilhéus especificamente – uma região que já foi o maior produtor (ou exportador?) de cacau do mundo, e que ainda hoje é a maior do país. Amado sabe do que fala, afinal, nasceu e cresceu naquela região, advindo de família enriquecida com os campos de cacaueiros [a confirmar]. Mais do que a beleza e força da ficção amadiana, o que mais me chamou à atenção em seu romance foi o realismo com que ele constrói a sua narrativa. Não apenas no que concerne à rudeza e violência empregadas na criação do negócio de cacau em Ilhéus, mas sobretudo porque tal rudeza e violência está presente em quase todo negócio ou empreendimento econômico no setor agrícola, especialmente em suas fases iniciais, quando se derrubam matas virgens, trazem-se os homens para a lida na lavoura, erguem-se cidades novas. Pensemos na violência, na luta, no sangue, suor e lágrimas que foram vertidos e semeados no solo virgem ao longo de toda a constituição histórica do Brasil-nação. Antes da indústria e do capital financeiro era a terra que dava poder e conferia prestígio. Os donos de terra, chamados de coronéis, eram os verdadeiros dono do Estado, quando este existia. Compravam as leis, sejam as dos homens sejam as de Deus, faziam e aconteciam. Disputavam o poder entre eles, e as instituições públicas jamais pensavam em meter a colher. Aliás, eram compradas e, nessas disputas, vencia o mais poderoso e mais rico. Alguns poucos enricavam no processo, mas a maioria morria e nascia sem jamais realizar o sonho de enricar. Eram trabalhadores, escravos, capatazes. No máximo, pequenos comerciantes. Mas os senhores, os coronéis, a um só tempo doutores, políticos, magistrados; estes, assim como nos tempos medievais, eram os verdadeiros mandatários pelo simples fato de possuírem terras, terras a perder de vista. Esse simples fato, por sua vez, transformava seus filhos em juízes, advogados, deputados. É assombroso constatar que essa lógica, essa realidade  não é uma lembrança apenas, uma memória de um passado já superado e relembrado através de obras como a de Jorge Amado. Tampouco se trata de ecos ou reminiscências que se fazem sentir hoje como um atavismo passível de ser extirpado. Antes, trata-se de uma lógica incrustada no próprio seio do capitalismo moderno e/ou contemporâneo (porque o capitalismo é, essencialmente, o mesmo, o de ontem e o de hoje). A tal da acumulação primitiva de que nos fala Marx é uma dinâmica interna do capitalismo e não um momento de seu desenvolvimento; não é uma fase inicial, primitiva, mas se desenrola juntamente com seu desenvolvimento como um todo, em sua totalidade. Os mesmos elementos sociológicos e econômicos que compõem Terras do Sem Fim podem ser encontrados atualmente em quase toda região agrícola do Brasil, seja em um estado como São Paulo, moderno e colonizado, seja em um estado como o Pará ou o Mato Grosso, embora, é claro, assuma feições distintas, mais agudas ou mais atenuadas, em um e outro. O fato é que a forma da acumulação primitiva, com sua violência, seu desprezo pela lei, pelas instituições, pela ética moderna, com sua necessidade não apenas de lucrar mas também de definir papéis, relações e estruturas de poder e de prestígio ainda não definidos, de implantar, por assim dizer, o mundo capitalista; essa forma se recria a partir de novos conteúdos, de novas possibilidades e necessidades históricas. Hoje ainda muita das propriedades rurais ainda são definidas na base da grilagem, da expulsão de comunidades autóctones ou que não possuem a devida posse legal, da tomada de terras públicas, etc. Quando não o são, os atuais proprietários são herdeiros de antigos colonizadores que adquiriram a posse desse modo. E esse modo trouxe e traz violência, morte, sofrimento, exploração, opressão, etc. Os traços realistas com que Amado pinta o cultivo do cacau no sul da Bahia não diz, portanto, apenas sobre uma época determinada, mas também sobre a nossa própria época.
Postar um comentário