quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Marighella, a guerrilha e o PCB

Em 1939, pela segunda vez, Marighella era preso pela polícia política do Estado Novo de Vargas devido à sua militância no PCB. Passaria os próximos 7 anos encarcerado e sofrendo torturas terríveis nas mãos de Filinto Muller, o oficial que ficou famoso por prender Olga Benário, grávida de Carlos Prestes quando fora deportada aos nazistas. Marighella teve os pés queimados por maçarico, estiletes enfiados nas unhas, dentes arrancados. O comportamento brioso e valente do revolucionário baiano levaria um delegado a afirmar que só havia um macho no Partido Comunista: Carlos Marighella. Logo após o golpe, em 1964, Marighella foi preso, emboscado em um cinema, não sem antes resistir e afirmar algo como "atirem covardes! Abaixo a ditadura militar fascista! Viva o Comunismo"; e ele efetivamente foi alvejado, o que não lhe impediu, mesmo ferido, de trocar socos com alguns dos seus algozes.

A afirmação dada pelo delegado depõe sobre muita coisa, não apenas sobre a personalidade de Marighella, mas antes e principalmente sobre a própria natureza do PCB. Os comunistas brasileiros sempre tiveram enorme dificuldade em se consolidar nas bases das classes trabalhadoras e camponesas. Essa distância em relação às bases, a política de frente única, a recusa cada vez maior da sua direção em bater de frente com o poder instituído, com o bloco no poder, levou ao engessamento do partido, ao oportunismo, às alianças espúrias. Marighella poderia até mesmo tolerar a revelação dos crimes de Stalin e a crítica ao culto da personalidade, mas não a passividade do PCB. Assim, Marighella se afastaria cada vez mais da corrente majoritário do partido, afastamento que, após o golpe de 1964, tornar-se-ia insustentável. Marighella queria ação, mobilização, luta, enquanto o PCB queria algum tipo de acordo amigável com a ala moderado dos golpistas, imaginando que a ditadura não se sustentaria por muito tempo. O nome da organização fundada por Marighella e por outros dissidentes do PCB deixava muita claro sua oposição à estratégia do partidão: Ação Libertadora Nacional.

Motivado pelo sucesso da guerrilha cubana, Marighella escrevia que "A mesa de discussão já não une os revolucionários. O que une os revolucionários brasileiros é desencadear a ação, e a ação é a guerrilha". Para a ALN "o que vale é a ação", esta inspirada em três princípios básicos: "o primeiro é que o dever de todo revolucionário é fazer a revolução; o segundo é que não pedimos licença para praticar atos revolucionários, e o terceiro é que só temos compromissos com a revolução". Fundada em 1967 ou 1968, o maior feito da ALN foi o sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick, em 1969. Esse foi o ano decisivo para a guerrilha no Brasil. A resposta da repressão foi rápida e furiosa. Em novembro do mesmo Marighella estava morto.

Isso foi em outro tempo, em outro Brasil. Mas há certas questões e lições que permanecem. Em especial, a necessidade da ação e as estratégias implicadas. Qual o significado da luta armada hoje em dia? É possível uma revolução armada? Ou melhor: é necessária? E as estratégias e táticas da esquerda revolucionária atual? Qual o balanço que podemos fazer da esquerda revolucionária ao longo dos anos de chumbo? E a questão principal: como trabalhar as bases? Como politizá-las? Sublevá-las?
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