terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Linguagem e cotidiano: sobre as formas culta e popular

Vira e mexe me acusam de escrever de modo difícil, de prezar pela linguagem erudita em detrimento da inteligibilidade da mensagem (já que toda comunicação pressupõe um interlocutor, que pode ou não compreender a norma culta). Sim, uso todos os recursos que a língua portuguesa nos oferece, mas não creio que escrevo de modo difícil. Conheço pessoas que escrevem difícil, e isso nada tem a ver com usar o português corretamente. Evidentemente, quero que a minha mensagem chegue ao e seja entendida pelo destinatário. O fato de que eu preze pela língua não quer dizer que não preze, outrossim, pela clareza do texto. Acontece que a riqueza léxica e linguística da nossa língua me parece cara demais para ser desperdiçada, ou melhor, para ser deixada apenas aos “intelectuais”. Nós, reles mortais ignaros, pobre plebe néscia, temos não apenas o direito como o dever de resgatá-la do alto da torre de marfim em que a trancafiaram.

Constato com tristeza a paupérrima situação em que se encontra o português no cotidiano, na boca das pessoas comuns (e em pessoas não tão comuns também). E me assombra o fato de que exista intelectuais que defendam essa forma deformada e amputada de linguagem – como numa espécie de versão secular, travestido em ciência, do adágio popular “a voz do povo é a voz de Deus”. Nem tudo o que saí da boca do povo pode ou deve ser glorificado. Mas até aqui minha arguição soa um tanto pedante, de modo que é desejável explicar-me melhor. Longe de mim pretender rejeitar as marcas que a vida cotidiana e o povo imprimem incansavelmente nas formas e conteúdos da língua; longe de mim querer que a língua permanece tal qual é de uma vez por todas; longe de mim valorar a língua erudita com o sinal de positivo e a língua coloquial com o sinal contrário. Minha argumentação aqui não é normativa.

Dizem-me que a língua não é uma instituição social fixa, que ela varia e se transforma ao longo do tempo, e que o cadinho onde essas mutações acontecem é a vida cotidiana. Ora, sem dúvida. Mas essa afirmação não é mais do que uma obviedade ululante. Se é verdade que a linguagem é um produto histórico, não menos verdade é o fato de que a sua produção não se dá do mesmo modo e sob as mesmas circunstâncias sempre e em todo lugar. O que me preocupa não é o fato de que a língua portuguesa se transforme, mas como ela pode ter se empobrecido tanto em tão pouco tempo, e porquê. Buscar as causas desse fenômeno é matéria para um estudo longo e profundo. Apenas adianto e respondo a uma objeção que certamente ser-me-ia arrojada: o que é empobrecimento para uns é enriquecimento para outros; ou, noutras palavras, o valor que se confere à linguagem é relativo. Essa objeção seria procedente se não fosse por um único fato: a maioria dos falantes de uma língua particular sequer tem consciência de seu valor; ou ainda: nascem e morrem sem problematizar o próprio veículo que usam para se comunicar, crendo, inconscientemente, que a linguagem é assim porque sempre foi assim. Essa naturalização finca raízes na ignorância bestial em que é mantido o povo – leia-se: trabalhadores –, sobretudo em países como o Brasil, nos quais o corte educacional entre as classes é muito nítido.

Outro modo de constatar a miséria do português-brasileiro é simplesmente conversar com as pessoas, ou parar para notar o modo como a gente mesmo fala (eu, por sinal, falo de modo deplorável): não há regras claras; flexiona-se os verbos alguns poucos modos e tempos; “comem-se” palavras; quatro quintos do vocabulário é desconhecido. Trata-se de uma linguagem viciada. Como o nosso cotidiano é pobre (em relações, atividades, pensamentos, etc.), a nossa linguagem também o é. Esse pode ser um ponto de partida hipotético para um perquirição mais substancial. Ou seja: como as formas de sociabilidade modernas, as relações intersubjetivas e cotidianas, o trabalho, a educação, a mídia, etc. se relacionam com o processo de transformação da língua portuguesa?

Continuando a réplica à acusação em questão, conforme a qual para alguém que pretende mudar mentes, eu utilizo um português muito rebuscado, o que está em contradição com e inviabiliza as minhas próprias finalidades, eu digo que, sem dúvida, essa crítica é procedente. Contudo, o que ela olvida é que não apenas devemos trazer a linguagem e o conhecimento para o povo, como também o oposto é verdadeiro: devemos trazer o povo para a linguagem e o conhecimento. O primeiro é um ato político, o segundo é um ato social e histórico. O que não me parece, em absoluto, aceitável é destruir séculos e mais séculos de sedimentação cultural na forma de linguagem em favor de uma outra pretensamente popular mas que, na verdade, não passa de uma exteriorização coletiva da ignorância em que é mantido, deliberadamente, o povo por aqueles cujo controle do conhecimento é condição necessária para a manutenção de sua posição dominante. Nivelar por baixo o conhecimento e a linguagem não é uma opção, senão apenas para quem aceita esse mundo que está aí. Quando todos nós tivermos acesso pleno e irrestrito ao arcabouço cultural legado pela humanidade; quando todos nós tivermos consciência da linguagem que usamos e prazer em usá-la e explorá-la, aí sim estarei de acordo com a afirmação de que a língua se forja positivamente no cotidiano e pelo cotidiano, no povo e pelo povo. Como está agora, a língua permanece uma dicotomia antinômica, a qual expressa perfeitamente a dicotomia antinômica que preside a sociedade de classes. De um lado é culpa, de outro é popular. Sonho com uma língua una – o que não quer dizer, em absoluto, homogeneidade.

(Obs: se você não entendeu algumas das palavras que usei neste texto, porém tem acesso a todo tipo de meio informacional, bem como tempo para acessá-lo, não culpe a minha forma de escrever, culpe a sua preguiça.)
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