quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Guantânamo, a Guerra ao Terror e as razões de Estado que ambas encarnam

Guantânamo, mais uma entre tantas nódoas fétidas que maculam a política externa norte-americana. Apesar das piedosas declarações de Obama e das suas promessas mentirosas de campanha, Guantânamo é uma ferida que permanece aberta e infeccionada. Causa espécie – ou melhor, é repulsivo – ter de ouvir os vestais ianques acusar meio-mundo de violar os sacrossantos direitos humanos – os quais, diga-se de passagem, não passam de uma palavra relativamente vazia sob a ordem capitalista – enquanto tripudiam cínica e impunemente sobre tais direitos.

Ocioso citar aqui casos da extensa ficha-corrida norte-americana. Estão todos nos livros de história. O fato é que a disjunção entre discurso e prática é tão gritante, tão absurdamente evidente, que, à alguém consciente da verdade, as acusações ianques soam mais do que risíveis, soam esquizofrênicas. É como se um assassino em série afirmasse, enquanto massacra uma de suas vítimas à vista de todo o mundo, ser o assassinato um pecado capital que ninguém deve cometer. 

E a guerra ao terror – ou antes: Guerra ao Terror, em letras maiúsculas, porque se trata de política alçada ao status de fato histórico, com nome e tudo – do cruzado Bush, quando acaba? Ora, tratando-se de uma guerra, pressupõe-se que tenha um fim, não? Ou será que essa guerra desbancará a Guerra dos Cem Anos em termos de duração? Não acaba, esse é o ponto, porque sua finalidade passa longe de livrar o mundo-livre do “terrorismo” islâmico. Não se trata de uma guerra, e tampouco se trata de uma linha política, um programa de governo, uma necessidade contingente posta pelas esquinas da História tão-somente. A Guerra ao Terror não pode mais ser abandonada porque é hoje parte integrante do imperialismo norte-americano, e como tal tornou-se praticamente uma razão de Estado. 

A Casa Branca pode abrir mão da guerra no Iraque, no Afeganistão, ou onde quer que seja, mas não pode abrir mão da guerra, da guerra em si mesma. E, num mundo pós-Guerra Fria, onde não mais existe um inimigo definido e declarado, classificar movimentos sociais e políticos nacionalistas, socialistas e/ou antiimperialistas como terroristas constitui uma ótima ferramenta de controle e intervenção, ainda melhor do que dividir o mundo em duas enormes áreas de influência. 

Quanto à ferida aberta em pleno território socialista (em vias de liberalização, note-se), Guantânamo, uma pergunta óbvia se impõe: passados 12 anos, nenhum dos detidos (no início eram 800, agora restam 166) recebeu sequer uma acusação formal. Portanto, não foram julgados. Como isso é possível? E não me refiro aqui às questões jurídicas e morais que a detenção arbitrária, a violência e a tortura implicam (aos direitos humanos para me referir a uma preocupação cara aos norte-americanos). Refiro-me às razões e motivações do Estado norte-americano. Ou seja: basta pensar com um mínimo de lógica e bom-senso para atinar para o simples fato de que, se os EUA estão realmente interessados em apurar a verdade e em destruir os grupos terroristas, porque não começam julgando os membros (supostos membros) que têm sob custódia? Porque foram, a virtual maioria deles, repatriados sem qualquer julgamento? 

A resposta, em termos gerais, é óbvia: não é essa a função de Guantânamo, assim como também não é essa a função da Guerra ao Terror. O buraco é muito mais embaixo, e ele passa pelas razões de Estado estadunidenses, imperialistas por excelência, cujo objetivo primário é perpetuar a dominação dos EUA no âmbito do sistema capitalista mundial. A forma pela qual isso se dá é complexa, mas o ponto central é esse: garantir mais um “novo século americano”.
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