sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Da série "Porque não sou (e sou) marxista"

Porque não sou marxista. Argumento #1:

Porque assim creio estar muito mais afinado com o espírito de Marx do que me intitulando marxista.

É sabido que Marx recusou tomar para si o título “marxista”, uma recusa que me parece óbvia, considerando sua honestidade intelectual, talvez a maior de suas virtudes. Porque é óbvia, ela não serve aqui para avaliar a posição de Marx na história da filosofia e da ciência. Outro aspecto me parece muito mais relevante: Marx recusou solenemente qualquer “ismo” (incluindo, evidentemente, o marxismo) que pudesse definir seu pensamento, e tal recusa está absolutamente de acordo com esse mesmo pensamento. Embora fosse um dialético, Marx não se autodenominava hegeliano; e o mesmo se pode dizer de seu materialismo e da sua teoria valor-trabalho: não era nem feuerbachiano, nem ricardiano. Marx era tudo isso ao mesmo tempo, e ao mesmo tempo não era nada disso.

Alguém pode argumentar que Marx nutria profundas discordâncias com Hegel, Feuerbach, Ricardo e que por isso não tinha razão para autointitular-se hegeliano, feuerbachiano ou ricardiano. Pois é justamente esse espírito crítico e livre que me interessa em Marx. Marx era um gênio, assim como todos que rompem as barreiras das e solapam as bases do pensamento padrão em um determinado período histórico (aqueles que fazem uma revolução científica, uma mudança de paradigma, nos termos de Thomas Kuhn). Eu não sou um gênio, assim como muitos como eu, meros mortais, também não, mas isso não muda em nada a necessidade de se buscar caminhos alternativos, de se romper com o pensamento instituído, isto é, de se romper com todo “ismo”. Se ser marxista significa alguma coisa esse significado é ser livre.

E é também ser dialético: Marx apropriou-se do que julgou verdadeiro e útil em cada um dos pensadores que leu, em cada sistema teórico que conheceu, sem nunca se preocupar em filiar-se a este ou aquele; ou seja, para desenvolver seu próprio pensamento Marx utiliza o “jogo” da dialética (que é a luta) entre posições (teses e antíteses) contraditórias, dando à luz assim uma síntese sui generis, própria. Sua única preocupação era apreender e expor a gênese, desenvolvimento e funcionamento do modo de produção capitalista, condição necessária, segundo ele, para a luta pela sua superação. Nesse sentido, em conformidade com os princípios epistemológicos e científicos da época, sua única preocupação e subordinação era para com a verdade, e não para com um dogma.

É por isso que, entre todos os liberais e pensadores burgueses, provavelmente não exista (ao menos no tempo de Marx) um único liberal/pensador burguês que tenha lido tanto os teóricos liberais/pensadores burgueses como Marx (que não era liberal nem pensador burguês). E ele não lia contrafeito. Ao contrário do que acontece com os marxistas (de hoje e de ontem), Marx sabia muito bem reconhecer e conferir o valor que merecia cada um dos teóricos que lhe fornecia uma chave para o entendimento do capitalismo e um tijolo para a edificação da sua própria teoria (e sabia ser duro também com aqueles que, em sua opinião, não passavam de sacripantas, como Say e Malthus). O irônico disso é que, vivesse hoje Marx, seria ele considerado um revisionista, não marxista...

Nada repugnava mais a Marx, como ele deixou exemplarmente claro numa brincadeira com sua filha, Jenny (que lhe fez uma entrevista na forma de perguntas e respostas rápidas), do que o servilismo, assim como sua ideia de infelicidade era a submissão. E eu tomo a liberdade de completar: o servilismo e a servidão mais a aceitação acrítica, passiva e cega de ideias, teorias, doutrinas e o que quer que for sem passar pelo crivo da razão crítica autoconsciente de si mesma. Eis aí o cartesianismo de Marx. Esse é um traço de caráter que, infelizmente, foi esquecido pelos continuadores da sua teoria (não por todos, para ser justo). Ao contrário, muitos não apenas submetem-se servilmente ao marxismo, de modo geral, e à corrente específica à qual se filiam, em particular, como buscam sempre em Marx, em seus textos, avalizar e justificar a leitura que fazem dele próprio, ou seja, valem-se de argumentos baseados na autoridade. Nada poderia ser mais repulsivo a Marx do que isso.

Para ser consequente com Marx, portanto, eu tenho que recusar todas as suas ideias, questioná-las, analisá-las, criticá-las e reformulá-las para só então admitir determinados aspectos seus e recusar outros, se for esse o caso. E mesmo admitindo seu pensamento na íntegra, nem por isso deveria me intitular marxista, filiado ao marxismo. Marxismo é uma dentre as inúmeras correntes filosóficas e científicas que a história da humanidade nos legou. Nada me impede de recorrer a algumas ou a todas elas para sanar lacunas, inflexionar pontos de vistas, retificar perspectivas, colher sugestões. O critério para julgar cada corrente de pensamento, cada concepção filosófica, cada sistema teórico deve ser a própria realidade, em sua permanente transformação, jamais a autoridade, os dogmas aceites, as finalidades políticas, etc. Se ser marxista é filiar-se a determinado modo de pensar que não admite concorrentes; a certas verdades estabelecidas e incontestáveis; a respostas prontas supostamente encontradas nos textos de Marx; então eu não sou marxista (e acredito que Marx também não seria).
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