sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Crítica do filme Tropa de Elite

Tropa de Elite 2, dirigido por José Padilha. Desnecessário comentar, não é mesmo? Todos assistiram. Mas até hoje eu não reservei um minuto do meu tempo para fazer a crítica ao filme.

Ele tem méritos, de fato; muitos ainda. Entre eles está o de expor de forma realista e crua a simbiose entre a instituição militar-policial e os sujeitos da criminalidade (Tropa de Elite 1), e o de problematizar a face criminosa do próprio Estado em si, isto é, a da corrupção política e suas relações com o mundo crime (Tropa de Elite 2). Creio que nenhum filme nacional havia ainda levantado tão bem essas questões.

Mas há deméritos graves. Em especial a banalização da violência/arbitrariedade policial e a criação de um mito, o BOPE. Ambos os aspectos se retroalimentam. Explico: em tese, poderíamos fazer a leitura do filme sob o aspecto negativo da violência policial, ou seja, mesmo o BOPE se rende a formas de atuação policial imorais e ilegais, como a tortura. Mas não é essa, em minha opinião, a leitura que o filme mesmo faz (não sei do livro, que deu o enredo ao filme). Na medida em que se cria uma imagem mítica do BOPE, enquanto parte da instituição policial distinta das demais porque incorruptível, a ideia que o filme passa é de que a prática imoral e ilegal do BOPE justifica-se em vista de seus fins nobres, ou seja, combater a criminalidade. Ora, segundo seu grito de guerra o BOPE sobe o morro para deixar corpo no chão. Sendo a própria sociedade uma estrutura corrompida, não resta aos policiais do BOPE senão combater fogo com fogo. Os fins justificam os meios.

Tenho a impressão que é a justamente essa a mensagem que chegou à maioria dos espectadores. E digo isso com base em experiências empíricas, sendo a mais, digamos, tangível delas a ocasião em que cheguei a tomar uma coça de policiais. Digamos que eu estava fazendo a coisa errada, no lugar errado e na hora errada. Enquanto apanhava, ouvia precisamente, em termos quase literais, as mesmas falas que ouvi do boca do capitão Nascimento (que se lembre da cena em que Nascimento diz "quem matou esse cara aqui?", aludindo à ideia de que é o usuário que financia a guerra e as mortes nas favelas). A violência e a arbitrariedade policial ficava, assim, justificada com base numa ideia mítica e deformante da realidade tomada de empréstimo da ficção cinematográfica (aparentemente os policias que me batiam, sendo da ROTAM, não entenderam a mensagem: o BOPE é incorruptível, já a PM...).

O senso comum dominante pensa nos seguintes termos: a tortura não é moralmente recriminável quando voltada aos bandidos (e por bandidos pode-se entender desde o traficante até um terrorista da Al Qaeda). O filme tem outro mérito, portanto, supra-artístico: revela como é arraigada no senso comum aquele pensamento que Adorno chamou de "personalidade autoritária"; revela, nos bate-papos cotidianos, como a violência é admitida e aceita tacitamente contra determinados grupos e camadas sociais, justificando-se tal violência mediante fins supostamente nobres.
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