terça-feira, 8 de janeiro de 2013

As máquinas como um novo salto ontológico

Cedamos, por um momento, à fantasia ficcional-futurista: será possível que num futuro próximo as máquinas, tornadas autoconscientes, passem a se replicar autonomamente e assumam o controle da História na Terra? Até pouco tempo atrás aventar essa ideia me parecia um descabimento sem tamanho, tanto mais porque Hollywood abusou demasiadamente da receita e a transformou em roteiro barato de filmes apocalípticos. Ademais, parecia-me uma elucubração inútil afinal, já que o que nos interessa realmente, enquanto humanidade, é o hic et nunc (o aqui e agora). A questão, para mim, era e ainda continua sendo: como fazer deste mundo um mundo melhor para os seres que nele habitam. Mas hoje a perspectiva, conquanto irreal ainda, de uma continuidade histórica por meio de máquinas me soou não apenas plausível mas, quiçá, inevitável. Francamente, às vezes não vejo saída do beco em que nos metemos através de nós mesmos.

A ontologia lukacsiana atribui à história do Ser três esferas ontológicas que se superaram por saltos dialéticos: o ser inorgânico (os elementos químicos), o ser biológico (a vida) e o ser social (nós). É possível que o próximo salto ontológico seja dado pelas máquinas? Grosso modo, costuma-se refutar essa hipótese mediante dois argumentos. Em primeiro lugar, a inigualável complexidade do cérebro humano não pode ser recriada por nós mesmos. Tudo o que conseguimos fazer até hoje em matéria de inteligência artificial foi criar grandes cérebros capazes de armazenar e processar dados, mas não capazes de pensar, conceber, imaginar. Em segundo lugar, a consciência humana não se reduz a um emaranhado de células dispostas em rede e em sistemas que são excitados por impulsos elétricos. Embora este último argumento seja animista, ou seja, atribua à vida autoconsciente um princípio vital não físico, qual seja, a alma, o primeiro argumento também tem um quê de espiritualista: no fundo, traz consigo a ideia religiosa de que o ser humano é o suprassumo da evolução na Terra, senão do Universo, e que, portanto, constitui uma forma inatingível e insuperável.

Esses argumentos são exemplos do modo antropocêntrico com que raciocinamos. Religioso ou científico, o iluminismo caminha entre nós. Todavia, na história do mundo e na história dos humanos nada há que autorize a conclusão de que o atual beco sem saída é um ponto de chegada intransponível, ou que os humanos correspondam ao píncaro de um longo processo evolutivo que com eles chega ao fim. Nada nos autoriza a crer que somos criaturas divinas, que a nossa existência não é de carne e osso mas, antes, espiritual. Para um materialista como eu, não passamos de um arranjo muito bem elaborado de moléculas e elementos químicos. Um processo que começou quando algumas poucas moléculas, que se encontraram por acaso, puseram-se a reproduzir sozinhas. Como tal, nada impede que um outro arranjo, ainda mais elaborado, venha a nos superar. Tendo em vista que estamos próximos a destruir o nosso mundo, o mundo que nos foi legado por bilhões de anos evolutivos, essa me parece uma boa ideia.
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