quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

A tortura como dever cumprido: como é possível?

Há fatos na história da humanidade que parecem ser difíceis de compreender. Ao longo de milênios de guerras e conflitos, atribuíveis às classes ou não, os seres humanos sempre recorreram a métodos pérfidos como a tortura. Eu me recuso a atribuir tais manifestações do comportamento humano a uma hipotética e metafísica natureza humana. Limitemo-nos a constatar o fato, óbvio por sinal. Constatemos outra obviedade: embora uma constante, há evidentemente diferenças consoante a cada contexto histórico e social. Dito isto, a modernidade se gaba da sua moral kantiana, de suas leis positivas dos direitos humanos, mas a tortura hoje talvez não seja muito diferente daquelas levadas a cabo, por exemplo, por Torquemada na Espanha, o famigerado inquisidor.

Bom, todo esse prólogo para dizer que eu não consigo compreender o que leva e o que é preciso a alguém para torturar outrem. Estava lendo Batismo de Sangue, e as passagens em que Frei Betto narra as sessões de tortura são realmente perturbadoras. Foi através dessas torturas, no caso empregadas nos frades dominicanos, que o delegado-assassino Fleury chegou até Marighella, morto em confronto em novembro de 1969. Um dos frades torturados por Fleury, o Frei Tito, ficou tão mentalmente desequilibrado que, embora sobrevivesse e partisse para o exílio na França, suicidou-se sob circunstâncias ainda não de todo esclarecidas em meados dos anos 1970.

As sevícias descritas por Frei Betto vão desde chutes na cabeça, tapas nas orelhas e acoites com fio de cobre, até choques elétricos no corpo todo, sobretudo na genitália (os torturadores enfiavam um fio desencapado na uretra das vítimas, para potencializar a dor). Como é possível que alguém faço isso com outro ser humano? Fleury era um monstro, um homicida sádico, que tinha prazer em ver o sofrimento causado por ele. Muitos outros também eram como ele. Mas muitos outros, talvez a maioria, não poderiam ser classificados psicologicamente como psicopatas. Apenas desempenhavam a sua função. Havia, por exemplo, médicos que acompanhavam as sessões de tortura, dando assistência aos torturadores para que pudessem levar suas vítimas ao limite sem matá-las. Um profissional, executando um trabalho técnico (isso me lembra os responsáveis pelos campos de concentração nazistas).

Como pode as estruturas de poder, a burocracia e a instrumentalização da razão (para evocar aqui a escola de Frankfurt) esvaziar e desumanizar a tal ponto um ser humano? Esses algozes eram capazes de torturar e matar ao longo de um expediente de trabalho, bater o ponto no final do dia e ir para casa beijar a mulher e os filhos. Como? Como pode? E se você pensa que os militares e policiais brasileiros eram boçais destreinados (bom, boçais de fato eram, destreinados é que não eram), engana-se. Os torturadores brasileiros, assim como argentinos, chilenos e da América Latina toda, tiveram aulas com os melhores, com os profissionais. Agradeça ao Tio Sam, que reservou até mesmo uma escola especializada para essa arte em suas bases no Panamá.
Postar um comentário