sábado, 5 de janeiro de 2013

A dialética da história das ideologias

Um problema de profundo interesse é o das transformações históricas pelas quais passa as ideias de uma sociedade, povo e/ou cultura. Pensemos, por exemplo, na ideia da democracia racial, hoje lugar-comum – embora não necessariamente correto –, impregnada profundamente como está no imaginário social brasileiro. Pode-se hoje criticar essa crença enquanto ideologia, no sentido marxista de falsa consciência, mas quando surgira ela tinha um sentido eminentemente crítico e revolucionário, uma vez que ia na contramão das crenças dominantes então, a saber, a eugenia, a higiene e a pureza racial, etc. A afirmação de Gilberto Freyre segundo a qual no Brasil não há discriminação e preconceito de cunho racial ia contra o pensamento dominante à época. Mas ainda mais importante do que isso era a sua afirmação de que, ao invés de decadência e perversão (seja lá o sentido que se atribuía a essas noções), a mestiçagem leva à riqueza e ao desenvolvimento cultural e social; ou seja, ao contrário do que se acreditava, a mestiçagem é positiva e desejável, e não negativa. Essa ideia pautou, por exemplo, toda a literatura de Jorge Amado, uma literatura revolucionária, popular, dedicada ao povo, antielitista. Contudo, embora atualmente não se discuta a estupidez que a ideia de decadência racial em relação à mestiçagem signifique, a ideia da democracia racial, por sua vez, perdeu seu sentido revolucionário/crítico para revestir um conteúdo conservador: escamotear o racismo existente de fato sob o manto de uma pretensa cultura racial igualitária e não discriminatória que repousa sobre a mestiçagem racial, traço característico do povo brasileiro. A ideia de uma democracia racial, portanto, evoluiu para se tornar um mito, conservador por se tratar de uma ideia que reforça e sustenta uma condição concreta desigual. Isso não tira o valor dessa ideia em sua formação original, mas impõe um olhar crítico sobre sua evolução e desdobramentos históricos. Toda ideia tem uma função e uma história, e nunca deve ser tomada como uma verdade autoevidente e monolítica.
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